O INFERNO NO PARAÍSO
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Fixem este nome: Tom Holland. Ou muito me engano ou ainda ouvirão falar dele no futuro. Porque, se há pormenor que apetece desde logo destacar em O Impossível, é precisamente o desempenho deste adolescente de olhar desamparado errando no horizonte em busca da mãe que supõe jamais voltar a ver após um idílico local de férias na ilha tailandesa de Phuket ter ficado reduzido a escombros pelas águas assombradas do Dilúvio. Adolescente capaz de fazer das fraquezas força para enfrentar uma tragédia de proporções bíblicas, animado pelo instinto de sobrevivência e pelo amor filial em desafio desproporcionado à implacável força dos elementos.
A isto alude este filme de produção espanhola dirigido com mão competente pelo jovem realizador catalão Juan Antonio Bayona (que em 2007 já tinha rodado o aplaudido El Orfanato). Uma longa-metragem que arrisca a incursão num género desde sempre reservado às megaproduções de Hollywood: o cinema-catástrofe. O espectador é advertido desde o início que está perante uma obra inspirada em factos reais, tendo apenas sido alterada a nacionalidade da família – de espanhola para britânica – por motivos comerciais, o que permitiu a contratação de dois nomes consagrados como chamariz para a bilheteira: Naomi Watts e Ewan McGregor. Sobre o desempenho dele não vale a pena gastar linhas de texto, mas ela é um prodígio de contenção num papel que se prestaria a todos os exageros histriónicos: não lhe fizeram favor nenhum ao nomeá-la para o Óscar de melhor actriz que aliás já merecera ter ganho noutros filmes.
O Impossível acontece para nos demonstrar que o homem, suposto dominador da natureza, mais não é afinal do que um minúsculo grão de poeira cósmica na intangível imensidão do universo. É disso que nos fala uma cena crucial do filme, quando uma senhora de 75 anos aponta o céu estrelado a um rapaz de sete, sedento de sabedoria, e lhe ensina a mais elementar das lições: as aparências iludem. Muitas estrelas que vemos refulgir no céu estão já mortas há uma eternidade e só o nosso débil olhar humano, incapaz de discernir o essencial do acessório, não se apercebe disso.
Aquela mulher que surge como um fugaz cometa no filme é Geraldine Chaplin, herdeira directa de um dos gigantes de sempre da Sétima Arte e ela própria protagonista de vários títulos que povoam a nossa memória cinéfila – Doutor Jivago (1965), de David Lean, por exemplo. De constelações percebe ela, sendo quem é e filha de quem é.
Procurem ver este filme com a visão limpa dos miúdos que contemplam fixamente as estrelas. Evitem saber em que condições foi rodado, passem ao lado das minudências técnicas e de todo esse estendal “informativo” que as distribuidoras cinematográficas propiciam em incontáveis acções de marketing, roubando aos espectadores aquilo que há de mais precioso: a inocência do olhar. Se o conseguirem, verão este filme como eu vi – uma espécie de tributo à memória dos pioneiros como Méliès que transformaram o cinema num processo ímpar de acreditarmos no inacreditável. Não me interessa saber como aquele maremoto foi conseguido para se tornar credível no ecrã: basta-me saber que funciona.
Mas este artifício serve apenas para nos reconduzir a uma evidência primordial: na eterna batalha entre o homem e a natureza, só por inimaginável clemência desta não sairemos derrotados. Depois desse trágico tsunami de 26 de Dezembro de 2004 que ceifou mais de 230 mil vidas no Sudeste Asiático – e que este filme revive de forma tecnicamente irrepreensível – nenhum de nós voltou a olhar para uma praia paradisíaca sem pensar que a todo o momento pode desembocar ali uma onda gigantesca pronta a derrubar qualquer obstáculo e a varrer todas as certezas na sua fúria cega, dantesca, irracional.
O Impossível (Lo Imposible, 2012). De Juan Antonio Bayona. Com Naomi Watts, Ewan McGregor, Tom Holland, Soenke Möhring, Samuel Joslin, Oaklee Pendergast, Geraldine Chaplin.



Nunca fui fã de filmes catástrofe, mas este quis ver por causa dos oscares – procuro ver todos os filmes que receberam nomeações – e também porque se baseou em factos reais. Concordo com a tua avaliação. O Impossível, certamente por não ter sido dirigido por um americano, escapa ao estereótipo dos filmes-catástrofe. Muito contido, muito credível, prova que é possível tratar o género sem recorrer a cenas operáticas.
O miúdo, o Tom Holland, é espantoso.
De facto, Teresa, acredito que haveremos de ouvir falar muito deste miúdo. Tem um desempenho excepcional.