Estreia calamitosa como líder parlamentar


Pedro Correia,

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O PCP é uma organização de ritmos lentos. Tão lentos que o fazem andar em contramão nos trilhos da História.

No plano interno, utiliza um jargão incompreensível para a grande maioria dos portugueses neste século XXI, num país quase sem indústria e portanto destituído daquilo a que o velho partido insiste em chamar «classe operária».

No plano externo, os comunistas ainda se orientam pelo guião da Guerra Fria, concluída em 1991 com a derrota soviética. Indiferentes aos factos, olham para Moscovo como «o sol da terra», fiéis à frase devota que Álvaro Cunhal consagrou na década de 70. Vladímir Putin, que foi tenente-coronel do KGB mas nada tem hoje de comunista, merece-lhes a mesma veneração beata que noutras épocas lhes mereceu Estaline ou Brejnev.

 

Na sua história centenária, nunca o PCP foi dirigido por uma mulher – aqui também inspirado no «sol da terra», pois desde a imperatriz Catarina a Grande, falecida em 1796, jamais a Rússia voltou a ter comando feminino.

Apesar de tudo, vão ocorrendo inovações entre os espessos muros da sede situada na Rua Soeiro Pereira Gomes: há agora, pela primeira vez, uma deputada à frente do grupo parlamentar comunista, circunscrito a seis elementos desde as legislativas de 30 de Janeiro. A escolha recaiu em Paula Alexandra Sobral Guerreiro Santos Barbosa, setubalense de 41 anos e apresentada como «química» de profissão embora seja funcionária do partido, como ali é regra.

No parlamento desde 2009, Paula Santos teve calamitosa estreia como dirigente da sua bancada. Coube-lhe a ingrata missão de dar a cara em defesa do indefensável, tarefa que lhe foi confiada pela cúpula do Comité Central, guardiã dos dogmas, atenta ao menor indício de heresia.

Anunciou ela, lendo um papel nos Passos Perdidos, que os seis comunistas recusariam escutar a mensagem dirigida pelo Presidente da Ucrânia ao parlamento português. Pretexto invocado: Volódimir Zelenski «personifica um poder xenófobo e belicista rodeado e sustentado por forças de cariz fascista e neonazi». Argumento decalcado da narrativa oficial russa, tornando o PCP cúmplice moral do Kremlin, que pratica crimes de guerra na Ucrânia desde 24 de Fevereiro.

 

Que sentido faz isto? Nenhum. Excepto reforçar a coerência dos comunistas portugueses. Convém recordar que este é o mesmo partido que em Dezembro de 2011 rejeitou associar-se a um voto de pesar na Assembleia da República pelo falecimento de Vaclav Havel, primeiro presidente da República Checa democrática. Que em Fevereiro de 2014 recusou condenar os crimes contra a humanidade cometidos pelo regime totalitário da Coreia do Norte. Que em Novembro de 2014 não subscreveu um voto de congratulação pelo 25.º aniversário da queda do Muro de Berlim. E que em Abril de 2017 votou contra uma resolução que condenava o uso de armas químicas na Síria, onde a Rússia protege o ditador Bachar Assad.

Fiéis à cartilha ideológica, alinham com o carrasco contra a vítima. O sol de Moscovo cega quem se fixa em excesso nele.

 

Texto publicado no semanário Novo.

18 comentários em “Estreia calamitosa como líder parlamentar”

  1. um país quase sem indústria e portanto destituído daquilo a que o velho partido insiste em chamar «classe operária»

    Eu tenho muitos primos (em segundo grau) que são operários industriais. Em fábricas do setor cerâmico e do setor metalúrgico.

  2. olham para Moscovo como «o sol da terra»

    Errado. Se o Pedro Oliveira tivesse tido o cuidado de escutar a recente entrevista de João Oliveira ao telejornal da 2, ouviria ele dizer que o regime russo é um regime capitalista com o qual o PCP de forma nenhuma se identifica.

    O PCP não é a favor da Rússia. Não. O PCP é contra os EUA, isso sim. O PCP é contra tudo aquilo que os EUA façam e apoiem.

  3. Resumindo , temos um partido marxista , anti democratico , anti ocidente , anti Nato, anti UE , apologista das piores ditaduras do planeta que é aceite pelas elites politicas e pelos media como um partido do arco democrático e muito coerente, o que quer que isso signifique. Onde andam os hipocritas que ainda há pouco tempo queriam ilegalizar e censurar o Chega ? Em especial a candidata presidencial irmã gémea do Herman Jose ?

    1. Melhor que esses, seria ouvir um líder do PSD dizer, com todas as letras, o que disse o Sr. Feijoo, novo líder do PP, há 3 semanas, “Entiendo que eso es una broma. Que el PSOE nos diga ‘aquí hay que romper con Vox’, y el PSOE gobernando con Bildu en Navarra, con Podemos en el Gobierno de España, y con los apoyos de ERC y Bildu para sacar presupuestos y leyes. Supongo que el manual de coaliciones del PSOE es justo el manual de lo que no se puede utilizar”. Então são vocês, que se aliaram a estes lunáticos estalinistas para governar após eleições que perderam, a vir dizer-nos como que nos podemos ou não aliar? Só podem estar a gozar.

    2. Acontece que no mundo real (por oposição ao das proclamações grandiloquentes ou dos pressupostos ideológicos) o papel dos partidos comunistas nas democracias liberais da Europa Ocidental tem sido extremamente positivo. Ao representar e defender os interesses dos mais modestos têm efectivamente funcionando como estabilizadores da sociedade e do regime democrático.

    3. “apologista das piores ditaduras do planeta que é aceite pelas elites politicas e pelos media”

      A maior parte dos media, elites politicas e administrativas em Portugal concorda com os objectivos do PCP, pode discordar dos métodos e das aparências mas concorda com o Poder Totalitário. Como aliás foi visto no covid.
      Lembrar que o Presidente Marcelo da suposta “direita” foi visitar a celebridade assassina Fidel Castro logo após ganhar as eleições, nada mais simbólico que algém que ganhou eleições ir beijar a mão a um ditador. Não se ouviu um ai nem do CDS, nem do PSD, nem da IL. Não me recordo se o Chega já andava por aí…

  4. Convinha alguém avisar o PCP que a URSS já não existe . Acima de tudo o PCP odeia os EUA e o ocidente
    Pedro Cunha

  5. Até é jeitosinha, roliça, e arejada, sem dúvida uma belle toujours que merece não ser discriminada por ser comunista, afinal vivemos em democracia e não deixa de ser uma mulher que está a lutar pela sua oportunidade de um dia substituir o velho Jerónimo e mostrar que tem mais para dar ao Partido do que ser um bom partido.

    1. Cuidado que nos países modernos e avançados como a Grâ-Bretanha vários politicos do centro extremista assim como várias empresas de produtos de higiene recusam-se a usar a palavra mulher ou não a sabem definir.

  6. “Calamitosa”?
    Só se foi por ter passado a perna ao BE, e ter recuperado para o PCP a liderança na oposição de extrema-esquerda.
    Os do BE andam doentes e numa completa histeria.
    Aqui no “Delito de Opinião” há um bloquista que até ferve … Chama tudo, do pior ao PCP.
    Com esta posição política, o PCP recuperou muito e uniu as suas hostes.

  7. O PCP não é um partido político, mas sim uma seita tipo Testemunhas de Jeová e quejandas, adaptando o assunto à religião.

  8. Mais um cepo no meio de um monte de tarolos… Sobressai por ser do sexo feminino mas, como as inanidades ( e os anjos…) não têm sexo…
    JSP

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