Admito que, entre tantos assuntos da maior importância nacional e internacional, as minhas atenções viraram-se para uma discussão menos profícua que ocorreu nos últimos dias, mas que me suscitou bastante curiosidade. Até percebi a razão de existir, mas para ter certezas tive que ir ouvir os álbuns “25” de Adele e “Lemonade” de Beyoncé (este último andava para ouvi-lo desde que fora lançado). Apesar da minha estranheza inicial e das muitas críticas que se fizeram ouvir, percebo agora porque razão o Grammy de Melhor Álbum do Ano tenha ido para o “25”. Não concordo com a decisão, mas percebo-a à luz daquilo que são os Grammy que, à semelhança dos Óscares, premeiam e dão primazia ao “mainstream”. Não quer isto dizer que o vencedor não seja de grande qualidade musical porque, neste campo, Adele mostra bem os seus pergaminhos e apresenta um álbum pop mais “baladeiro”, bastante bem conseguido, mas sem grandes rasgos criativos e inofensivo em termos de mensagem. Não tem (nem pretende ter) aquele arrojo social e politicamente disruptor que o “Lemonade” de Beyoncé tem e que pretende colocar em causa a ordem estabelecida. E quando se trata de “agitar as águas”, por mais brilhante que seja o álbum (que é), o conservadorismo destas organizações fala mais alto. Neste aspecto, até acho que os Óscares têm sido mais “atrevidos” do que os Grammy que, no ano passado, voltaram a errar ao permitir que o sublime, poderoso, provocador e aclamadíssimo “To Pimp a Butterfly” de Kendrick Lamar perdesse o prémio de Melhor Álbum do Ano para “1989” de Taylor Swift. Da minha parte, não tenho dúvidas de que “To Pimp a Butterlfly” foi o melhor álbum de 2015, tal como fiquei rendido ao “Lemonade” de Beyoncé, uma artista que se assume neste álbum com uma grandeza artística e social, um patamar que Adele não conseguiu alcançar com o seu “25”.
“Formation”, umas das músicas mais interventivas de Beyoncé no muito bem conseguido álbum “Lemonade”.

A questão, aqui, é… qual o ano.
Numa mesma edição dos Grammys podem estar (aliás, normalmente estão) em disputa álbuns de diferentes anos.
«25» é de 2015. «Lemonade» é de 2016. E «1989» é de 2014, e «To Pimp a Butterfly« é de 2015.
Adele é menos medíocre e tem um cu mais pequeno (pelo menos agora).