Enquanto o FMI nos tenta meter na cabeça os perigos da austeridade e vai empurrando a retoma portuguesa para 2017 (mas o que são cinco anos?), os nossos Massamá Boys reduzem as indemnizações por despedimento (porque o desemprego não é problema) e esperam que o leitor entregue parte da sua reforma futura aos bons préstimos da banca privada (deu excelentes resultados na crise de 2008). Como se isso não bastasse, a senhora Merkel, encorajada pela performance da economia europeia, vai defender a continuação daquilo-que-nós-sabemos e rejeitar programas de apoio à conjuntura, no próximo fim de semana em Washington. É de prever que a chanceler alemã aproveite o ensejo para dar conselhos de beleza e toilette a Michelle Obama. A América precisa tanto da sofisticação e elegância luteranas como das suas recomendações económicas.
Estes dias.
vidabreve,

Já pensou que se calhar reduzir as indemnizações ajuda a diminuir o desemprego, caro Luís?
Por acaso já. Chama-se uma treta armada ao contra-intuitivo. Em breves assistiremos a essa admirável redução.
Pois. O contra-intuitivo tem muito que se lhe diga. A realidade dá-se mal com a intuição, infelizmente, é bastante complexa, exige que se leia, pense, estude – enfim, o contrário da intuição.
veja lá que há países em que a liberdade de despedir é total – a Suíça, por exemplo – e, contra-intuitivamente, o desemprego é baixíssimo. É uma porra, mas é assim.
Por outro lado, é mais do que provável que o nosso desemprgo ainda venha a aumentar. Não chego ao ponto de lhe dizer que é desejável, mas é um bom sinal; significa que a nossa economia está a mudar, e que essa mudança – que vem de trás, note-se – está a acelerar. Se calhar, se a legislação do trabalho continuasse rígida, subiria ainda mais oprque haveria menos investimento.
Mas é uma coisa que nunca saberemos, não é? E a intuição nesse caso de pouco serve – a menos que a usássemos para estudar os fluxos de investimento, mas isso é contra-intuitivo.
1. Os países do norte da Europa com despedimentos flexíveis são os que mais apoiam os desempregados com transferencias sociais, incluindo a Suíça e Dinamarca. Como essa parte você não deve ter “estudado e reflectido”, calculo que discorde da receita e proponha o que temos por cá: menos subsídios para os “inúteis”.
2. Se o desemprego a aumentar é um “bom sinal”, recomendo-lhe essa medicação. Sabe-se lá como isso poderia “acelerar” as mudanças de que precisa para ser sei lá o eu quê.
Não conheço muito bem o caso da Dinamarca; e não existe um caso Suíço: a Suíça são 23 cantões e 3 meios-cantões, cada um com legislação diferente. Genève é um dos cantões que tem mais apoios e mais transferências sociais e é um dos que tem mais desemprego. Zurich tem poucos apoios e pouco desemprego.
Claro que me vai dizer que não há causalidade, etc.; mas ess não é a opinião de tda a gente. Por isso duvido da intuição e prefiro a análise dos problemas.
A Suíça por caso até é um interessantíssimo laboratório exactamente por causa das diferenças entre cantões.
Quanto à medicação, agradeço-lhe o conselho. Por acaso por mais que tente nunca consigo encontrar emprego em Portugal. Por isso tenho vivido fora quase a minha toda – com um breve e doloroso interregno de 7 anos entre 2003 e 2010. (E por isso prometi a mim mesmo que nunca mais tentaria, por muito que me custe. Mas isso são contas de outro rosário).
Luis Serpa, num pais com o tamanho da Suíça as diferenças regionais não são “um laboratório”, porque não há entraves à circulação nem grandes extensoes geograficas capazes de originar mercados autónomos. isso provavelmente quer dizer que você confundiu causa e efeito: o facto de Geneve ter mais desemprego é uma causa, não uma consequência, de o cantão ter mais transferencias sociais. O que só fica bem a um pais decente.
Está a ver porque é que eu prefiro a análise e a leitura à intuição? A Suíça não é bem um país; são 26 países. Têm sistemas escolares diferentes, fiscalidades diferentes, polícias diferentes.
Podia contar-lhe duzentas anedotas sobre essas diferenças, mas conto duas, só: quando lá cheguei, em 79, a polícia de cantão de Genève não tinha o direito de entrar no cantão de Vaud, mesmo numa perseguição (há 60 km entre Genéve e Lausanne). Só nos anos 80 chegaram a um acordo.
Melhor, muito melhor (infelizmente mais longa): nos anos 90 Genève começu a ver o IDE diminuir e resolveu criar um organismo para paliar a isso. O orhanismo funcionou bem – não é de estranhar, quando se conhece o país – e em breve Genéve estava inundada de novas empresas a querer instalar-se no cantão. Infelizmente Genéve tem uma lei de protecção ao inquilino cimpletamente absurda (não tanto como a nossa, claro, mas a nossa não é deste mundo), uma lei de novas construções idem,e as novas empresas não tinham onde alojar os seus funcionários.
Genève aconselhava, na sua promoção, as empresas a procurarem habitação em França – e ajudava-as nesse sentido, aliás.
Porquê? porque consguiu fazer um acordo fiscal com a França (genéve é um cantão de taxas elevadas) mas não consegiu fazê-lo com o cantão de Vaud (taxas reduzidas).
Quanto à dimensão dos mercados – se os medir por núemro de habitantes tem razão; se os avaliar por poder de compra talvez não tenha.
Ooops, desculpe:
Sobre os entraves à circulação: são tantos – a Suíça é um país bastante proteccionista internamente – que há cantões que assinaram (isto nos anos 90) um pacto de “livre circulação”. O qual, por acaso, não foi respeitado opr nenhum deles – pelo menos em 2002 ainda havia notícias nos jornais sobre isso.
Como é difícil limitar a circulação de pessoas havia um cantão que tinha o início do ano escilar em Março. O objectivo era simplesmente dificultar a “imigração” interna. Foi preciso um ultimato do governo federal e muitos anos de luta (enfim, na ordem inversa) para que esse cantão mudasse o início da escola para finais de Agosto, como todos os outros.
Luis Serpa por muito que contraponha a sua “leitura e reflexão” à minha pretensa “intuição ” (coisa que não invoquei), deixe-me informa-lo de duas coisas: apesar das especificidades da confederação, a Suíça é um pais e um mercado. Ainda por cima, pequeno.
O que significa que apesar da sua presença no terreno não pode comparar cantões como se comparasse a França com os EUA.
POr isso o seu argumento (que parece ter esquecido) de que a protecção do emprego num cantão provoca devemprego enquanto a flexibilidade noutro cantão provoca pleno emprego, mesmo assumindo que os dados estão correctos, é uma falácia.
Provavelmente é por haver muito desemprego que o emprego é protegido, ou simetricamente é por haver pleno emprego que não é tão necessário protege-lo.
Ou seja, e repito como se você tivesse quatro anos: está a confundir causas com efeitos.
a) Você não invocou a intuição, mas invocou a contra-intuição (“chama-se uma treta armada ao contra-intuitivo”);
b) A Suíça é um ótimo laboratório para avaliar algumas políticas porque há bastantes variáveis comuns; a partir daí não se podem inferir relações de causalidade – suponho que nem os especialistas o fizeram. Mas até uma criança de quatro anos compreende – e sabe – que se puder ficar no desemprego quatro anos (como era o caso em Genève, penso que agora isso mudou) recebendo até 70% do salário há menos motivação para procurar emprego, aceitar outros empregos ou outras localizações do que se esse benefício só durar, por exemplo, um ano (como era o caso em Zürich). É portanto bastante plausível pensar que há uma relação de causalidade.
c) Obrigado por me repetir as coisas como se eu tivese quatro anos; quando o leio – e sobretudo as duas vezes que conversámos – fiquei realmente com a impressão de ter essa idade.
“He uses statistics as a drunken man uses lamp posts – for support rather than for illumination.”
Luís Serpa,
os dados que indica — não os confirmei, portanto parto do princípio que o fez — indiciam uma eventual correlação entre duas variáveis, não uma relação causal. Com certeza, existem inúmeras variáveis que se relacionam com as duas que referiu, designadamente variáveis sociodemográficas e profissionais. Na Suíça, como em qualquer lado, a taxa de desemprego pode variar em função do sexo, da idade, das habilitações literárias, da nacionalidade, etc. Por exemplo, se Genebra tiver mais mulheres e trabalhadores não suíços, e estes forem os grupos mais afetados pelo desemprego, estas variáveis independentes poderão explicar uma parte considerável da variância na variável dependente. E depois ainda temos problemas de covariância e o diabo a 4. Isto só para lhe dizer que neste tipo de coisas «bastante plausível» não existe se não pusermos em cima da mesa toda a informação.
Carlos Azevedo, numa das minhas réplias escrevi “a partir daí não se podem inferir relações de causalidade…”.
Parece-me que o Luís Serpa umas vezes prefere a análise e outras a intuição, embora afirme preferir a primeira. Tentar estar simultaneamente em dois sítios provoca, geralmente, desiquilíbrios na discussão dos dados e respectivas conclusões.
Confesso-lhe que não percebo de onde tirou essa conclusão, mas enfim, só me resta reconhecer que se calhar tem razão.
Da leitura dos inúmeros comentários que efectuou. Pois, é bastante plausível que eu até tenha razão.
Ópimo, fico-lhe grato pelo insight. Mas não acha que podia acrescentar qq coisa ao tema?
Por exemplo: Será a Suíça, sim ou não, um bom laboratório para avaliar políticas? Eu penso que sim.
Quais foram os resultados da política de Clinton? Não sei, mas gostava de saber.
Acha que o governo devia aumentar, e não diminuir, o apoio ao desemprego? Se sim, porquê?
Acha que o governo devia flexibilizar a lei dos despedimentos? Eu acho que sim, porque conheço países em que há uma flexibilidade total de despedimento e não há desemprego – até pode haver medidas de apoio ao desemprego, mas o que está em causa é saber se flexibilizar a legislação aumenta ou diminui o desemprego.
E assim por diante.
Cordialmente,
Luis Serpa
Mas eu acrescentei algo: não se infere uma relação de causalidade de qualquer modo.
Já percebi que este tipo de comentário, para si, não acrescenta nada ao tema — felizmente, haverá certamente sempre alguém interessado em discutir os resultados da política de Clinton e o laboratório suíço. Eu explico-lhe o motivo da minha ausência de interesse: independentemente das conclusões, não me parece que possamos extrapolá-las para a situação portuguesa, precisamente por causa de todas as outras variáveis envolvidas (sociodemográficas, geográficas, etc.).
Aliás, quando o Luís Serpa refere conhecer «países em que há uma flexibilidade total de despedimento e não há desemprego», a primeira questão que me ocorre é: será que nesses país não há outras variáveis que ajudem a explicar essa ausência de desemprego? Muito me espanta que sejam em tudo idênticos a Portugal — à excepção da legislação — e tenham pleno emprego.
Isto dito, seria interessante comparar com outros caso, como o dos cortes que Clinton fez nos apoios sociais. Não tenho dados precisos, mas creio lembrar-me de que os resultados foram bastante positivos. E aí sim, talvez se pudesse não sei, é uma suposição – inferir causalidades.
E já agora podiamos criar grandes superfícies ao ar livre onde os colaboradores acorrentados fossem objecto de um leilão. Parece que resulta muitíssimo bem, apesar das despesas com produtos alimentares
A profundidade e oportunidade do seu comentário, Luís Jorge, atrapalham-me, intrigam-me e inquietam-me. Melhor ainda: deixam-me mudo.
Estava apenas a desenvolver a sua linha de raciocínio, que me pareceu extraordinariamente promissora.
V. não tem só mau feitio, que para mim até é uma qualidade. V. tem mau carácter.
Quando os comentários – que tem todo o direito de recusar, note; não discuto isso nem um segundo – lhe respondem á letra não os publica, e fica assim com a última palavra.
Mantenho tudo o que disse no comentário anterior, que V. não publicou. Seja o que for da escola de Chicago, tenho pelo menso uma qualidade que V. não tem, que é a hombridade.
Não publico comentários misturados com insultos. Este foi uma excepção, para você perceber.
Luís Serpa, é difícil explicar em Portugal que as empresas despedem e admitem trabalhadores por motivos económicos e não por capricho ou maldade.
Os custos de um despedimento futuro têm de ser tidos em conta na decisão de contratação. Isto é o “beaba”, mas tem de considerar que Portugal nunca chegou a ser um país realmente industrializado e as concepçōes estão a condizer com esse estado de coisas.
A perda da noção de que somos um país subdesenvolvido deu-se com políticos de poucas letras ( e produtos, eles mesmo, do atraso) como Cavaco e o que lhe sucedeu e permite a subsistência de verdadeiros aleijões ( arrendamento, ortografias, corrupção, concepções ingénuas e mágicas da lei, hiperplasia do estado, ainda visto de uma forma ainda patriarcal etc).
É complicado, porque a verdade é que há topos mentais intocados, em que continuamos a ser rurais.
Caro ou cara C.e,
Concordo inteiramente, claro. Mas confesso que me aflige um bocadinho, porque não consigo desligar-me inteiramente de Portugal, apesar de la ter vivido relativamente pouco tempo.
Mas o que mais me inquieta, porque não vejo evolução – enfim, vejo mas para pior – é a incapacidade que as nossas “elites” (entre aspas porque num sentido bastante alargado, e vago do termo) têm de discutir ideias, conceitos, opiniões.
Quem não concorda connosco ou é burro, ou é desonesto, ou é um monstro sem compaixão e humanidade, ou é porque tem interesses escondidos.
É cada vez mais difícil discutir ideias.
Desculpará o reparo, mas o interlocutor da Chanceler Merkel (ou chancerela, se se tratasse de uma grande estadista, como a Wilma) é o presidente dos Estado Unidos, não a sua mulher – alguém não eleito e que não se representa senão a ela mesma.
Quanto a Portugal, nada melhor do que cada um começar por si. Invista uns milhões. Há algum óbice a que não o faça?
Agradeço o seu importante contributo.
A política que defende foi a que foi seguida nesta década passada: mais endividamento.
Estamos a ver os seus resultados.
Aliás como os países continuam a se endividar mais só em menor grau até nem tem razões para estar muito chateado.
Ainda não percebeu: O crescimento acabou
Pela estrangulação da economia, consequência de tudo aquilo que você defende.
“A política que defende foi a que foi seguida nesta década passada: mais endividamento”
Os comentadores mais prolíficos deste blog deviam aprender a ler antes de aprenderem a dizer asneiras. Mas deve ser incontrolavel.