Este não precisava de certificação


Sérgio de Almeida Correia,

Quem escreve como ele, com a sua elegância e ternura, só poderia acabar assim. Ainda bem que assim foi.

2 comentários em “Este não precisava de certificação”

  1. Merecidíssimo prémio. Manuel António Pina, já o tenho dito, é um dos melhores colunistas da imprensa portuguesa – provavelmente é mesmo o melhor. E, claro, é um excelente poeta. Toda a sua obra, em prosa ou em verso, merece ser lida.

  2. Quando temos notícias como esta, impossível não pensar na frase batida de que a felicidade é possível
    Felizes por sermos leitores de Manuel António Pina, felizes por saber que, ainda, é possível uma notícia tão surpreendente como esta.
    Sim, o nosso melhor cronista. E não só!
    Permitam-me, nestes tempos que correm, que lembre o começo de uma sua velha crónica:

    “O que foi feito dos meus amigos e das coisas belas e desmesuradas por que todos nós perdemos e ganhámos a juventude? Olho em volta e resigno-me: os meus amigos cansaram-se e jazem agora em empregos rotineiros à espera da trombose ou do enfarte. Alguns passaram-se com armas e bagagens (e, naturalmente, proveito) para o lado do inimigo. Os melhores (mas que sei eu?) engordaram – para dizer a verdade, todos engordámos… – e tornaram-se cépticos e amargos carregando a nossa memória comum como um pecado envergonhado. Muitos morreram em guerras sem sentido, ou tão só de tédio, de longo e insuportável tédio. Outros partiram para improváveis distantes lugares; um enlouqueceu (e esse foi, se calhar, o que, imóvel e cegamente, partiu para mais longe).
    Aquilo por que, há 20 anos, estávamos dispostos a perder tudo o que tínhamos (que não era, aliás, grande coisa: tempo, paciência, a breve vida), desmoronou-se mesmo antes de termos levantado as primeiras inseguras paredes. Atrás de nós veio pesadamente, a perigosíssima estirpe da chamada gente prática (laboriosas formigas que, enquanto cantávamos na rua e fugíamos à frente de todas as policias, mastigavam metodicamente as sebentas em sombrios quartos onde não chegavam o fogo dos sonhos nem o clamor da vida), e reduziu a utopia a dimensões razoáveis e geriveis. (Façamos-lhe, no entanto, justiça: talvez, quem sabe?, sem eles cedo a despensa se tivesse esgotado e a festa tivesse acabado mal e numa tremenda ressaca…)”

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