
Na sequência de uma outra, dedicada aos rios portugueses, lancei aqui no DELITO uma série de postais com estátuas (e bustos) dos nossos reis. Era só mudar uma vogal, para passar de rio a rei. Mas esta, confesso, demorou muito mais do que eu imaginava à partida. Iniciei-a a 27 de Agosto de 2018, crente de que três meses depois se esgotaria.
No entanto, à medida que fui fazendo pesquisas – e muitas horas demorei nisto, acreditem -, ia percebendo como estava enganado. Afinal eram muito mais as estátuas em memória dos nossos monarcas do que eu havia suposto. De tal maneira que, em vez de terminar a série no final de Novembro, como tinha previsto, acabei por encerrá-la só a 13 de Abril. Duzentos e trinta dias depois.
Contei, para o efeito, com a prestimosa e generosa colaboração dos leitores. Não vou destacar ninguém, para evitar a omissão involuntária de nomes que também mereciam ser realçados, mas deixo aqui o meu agradecimento a todos quantos me alertaram para a existência de estátuas ou bustos ou estatuetas que eu desconhecia. O que muito me satisfez, pois a assumida intenção destes postais blogosféricos é todos aprendermos alguma coisa. A começar por mim.
Nos próximos dias, farei aqui um pequeno balanço com as conclusões que esta série me permitiu extrair. Algumas, verdadeiramente surpreendentes; outras, nem por isso. Desde logo, a de que apenas existem dois reis portugueses sem representação escultórica, em pedra ou bronze.
O primeiro foi D. Pedro III – filho, irmão, marido, pai e avô de reis, monarca consorte pelo casamento com D. Maria I, entre 1777 e 1788. Era bisneto de D. João IV, o Restaurador. Filho de D. João V, irmão de D. José, pai de D. João VI, avô de D. Pedro IV e D. Miguel. Com a sobrinha Maria manteve um matrimónio feliz, segundo rezam as crónicas.
O segundo foi precisamente D. Miguel. O mais novo dos filhos de D. João VI, monarca absolutista, derrotado após seis anos de guerra civil pelo irmão Pedro, que sempre lhe chamou «mano» mas não evitou o seu banimento perpétuo do País após Miguel ter renegado a Convenção de Évora-Monte que selara a paz na sequência de seis anos de sangrenta guerra fratricida e da instauração das longas décadas de monarquia constitucional.
Um e outro, cada qual à sua maneira, foram apagados da memória histórica perpetuada em estátua. Quase como se nunca tivessem existido. Para compensar de algum modo esta omissão, trago hoje o belo retrato de D. Miguel que se encontra no Palácio de Queluz – pintado em 1827 por Johann Ender, quando o jovem monarca tinha 25 anos.
Um dia, se tiver tempo e paciência, talvez me lance noutra empreitada, reproduzindo aqui os quadros com imagens dos nossos reis, como fiz com as estátuas nos quase oito meses que ficaram para trás. Mas enquanto não chega a nova série, ainda há que cuidar do balanço da que agora terminou.
Amanhã regresso ao tema.

Caro Pedro Correia
Muitos Parabéns pela série de estátuas, mas lendo agora este seu blog de encerramento recordei-me que omitiu um conjunto muito significativo, particularmente dos nossos reis até ao princípio da dinastia de Aviz: As estátuas jacentes dos respectivos túmulos.
De novo parabéns pelo seu trabalho e pelo excelente blog que é o Delito.
Cumprimentos
João Paulo Fernandes
Muito obrigado pelas suas palavras, meu caro João Paulo.
Omiti por opção as estátuas jacentes. Mesmo assim, desfilaram 230 por aqui. Muito mais do que eu imaginava à partida, confesso.
Boa Páscoa.
a Convenção de Évora-Monte
Foi D. Miguel quem posteriormente lhe deu esse nome, mas na verdade não se tratou de uma convenção e sim de uma concessão, que são as palavras que nela se encontram.
Por essa concessão D. Pedro concedia perdão às tropas de D. Miguel, que já se encontravam totalmente derrotadas e à beira do massacre final, permitindo que elas desbandassem em paz em vez de serem submetidas à chacina.
D. Miguel, traiçoeiro, pretendeu mais tarde que não se teria tratado de uma concessão feita a um derrotado, mas sim de uma convenção entre duas partes com o mesmo estatuto.
Boa Páscoa para si também.
Parece-me que não se tem nada que fazer estátuas a um homem (Pedro III) que só é rei por se ter casado com a rainha. A rainha é ela, ele é somente o consorte.
Parece-me perfeitamente adequado que não se façam estátuas de um indivíduo que só é rei por usurpação, tendo ainda por cima com isso lançado o país numa guerra civil.
Será que poderíamos definir como usurpador aquele que é deslegitimado pelo sistema e que no passo seguinte procura alianças pouco naturais com outros ainda mais derrotados e deslegitimados do que ele para conquistar o círculo do poder?
Esse, como sabemos, é um génio da política.
Costa
Bolas, mas o pessoal da direita ainda continua a tocar esse disco?!
Muito recentemente houve eleições legislativas na Finlândia (um país avançado que faz as invejas dos portugueses). O primeiro partido ganhou 40 deputados (exatamente 1/5 do total de deputados), o segundo obteve 39, o terceiro obteve 38, e ainda mais três partidos elegeram deputados. Pergunta: que partido “ganhou” as eleições e que partidos foram “derrotados”? Que partido ou partidos (se é que algum) tem um direito inalienável de formar o próximo governo?
O que fazem na Finlândia é lá com eles.
Por causa do nosso novo parlamentarismo não-representativo eu por exemplo nunca mais vou votar — e quando recebermos um e-mail das finanças a dizer que pagamos multa se não formos votar eu vou lá e desenho uma pichota na testa do candidato socialista.
Eu acho que você não votar é uma excelente decisão da sua parte. Fico muito satisfeito que você não vote.
Entre outras indiferenças que isso me suscita, é verdadeiramente indiferente que eu vote ou não — ganha sempre a mesma espécie de gente.
Por mim, muito obrigada e parabéns!
E o D.PedroIII, e por muitas razões D.Fernando II, merecem a sua estátua, ou
retrato, ou o que quer que seja que nos preserve a memória do que foram ou
do que não foram, quando é caso disso.O mesmo vai para as rainhas
consortes.
E ganhe ânimo para a nova série!Uma vez mais, parabéns!
Boa Páscoa – Margarida Palma
É evidente que também as rainhas consortes, como os reis, merecem estátuas. Aliás temos felizmente várias rainhas bem representadas em estátuas, como a Rainha Santa Isabel e D. Leonor, esposa de D. João II. Até Leonor Teles, que passou nesta série ao lado do marido…
Grato pelas suas palavras, Margarida. Desejo-lhe uma Páscoa feliz.
Por onde andará este? ription/documents/297384/?q=rei
http://gisaweb.cm-porto.pt/units-of-desc
Tentei seguir-lhe o rasto, mas não consegui.
Apesar de não ter ajudado nada, gostei de assistir ao desfile de cabeças coroadas:). E também aprendi alguma coisa, sobre os lugares onde estão, sobre eles e o seu reinado. E, portanto, espero que venham agora os óleos , carvões, aguarelas e o mais que exista.
D. Miguel tinha certo ar geniquento.
Ainda bem que gostou, Bea. Quadros, também hão-de aparecer por cá. Mas são mais do que as estátuas, claro. Não será fácil.
Eu jamais teria a tua paciência de coleccioneiro, mas adoro telas e recordo que te lancei o desafio, ainda andavas tu à cata de estátuas, bustos ou estatuetas dos monarcas portugueses. Agurado pelo agradecimento
Aguradas bem. Mas não fumes tanto.
Eu fumo o que me der na telha
e ‘agurado’ aquilo que entender, seja lá o que for 
Não auguro nada de bom.
Ora, todos morreremos e, como diz o João Lisboa, morrer cheio de saúde…

Parabéns pela colecção Para quando a edição comercial, cromos Panini?
Eheheh. Grande ideia.
Já temos os cromos, onde é que se arranja a caderneta?
É novo livro Delito de Opinião, caderneta de cromos “Reis de Portugal”. Estou crente que vai ser um sucesso
Eheheh. Vou tratar disso.
Do Senhor D. Miguel, permita-se-me, invoco o retrato repetida, serena e respeitosamente invocado pelo dr. António Sousa Homem.
Costa
A minha respeitosa vénia ao Dr. António Sousa Homem.
Pedro, foi realmente uma looonnga série.
Um Outono e um Inverno a ver desfilar cabeças coroadas é obra.
Foi interessante e didáctico: gosto sempre de aprender e, para além de relembrar alguns escultores, descobri muitos outros que desconhecia em absoluto.
E foi também muito divertido: recordo momentos hilariantes em comentários com a Sarin (onde andará ela?) e com o nosso inevitável comentador Lavoura (recordo um certo touro na ilha do Pico…).
Sei que não colaborei muito em conhecimento, mas vim sempre picar o ponto.
E ao contrário da Alexandra G. eu gosto muito das séries do Pedro, mas… mais reis não, por favor
E que venha a próxima série!
Páscoa Feliz.
⚘
Maria
Viva, Maria.
Reis agora não. O 5 de Outubro vai chegar a este blogue.
Mas sem Regicídio…
O que não custa, não lustra. Parabéns P. C.
Interessante trabalhoso projecto. Obg.
Muito obrigado eu.