Em 1820, Portugal enveredou por um regime constitucional. Foi melhor? Sem dúvida, porquanto o absolutismo era já incompreensível e a incompetência de D. João VI (que fazia do Rio de Janeiro a capital do Império, mas que cobrava cada vez mais impostos em Lisboa e que já nem devia lembrar-se da razão que o levara a mudar-se para o Brasil) ia afundando Portugal, não fôra ter sido obrigado a regressar. Contudo, o clima de guerra civil foi longo e sangrento e a nação ficou de rastos. Não vivemos melhor com a guerra na primeira fase, nem com o país de rastos na segunda.
Há cem anos, Portugal fez-se um país republicano. Foi melhor? Claro que sim, porque a monarquia estava a morrer. Tinha-se abandonado a ela própria, quase se arrastando a caminho do fim que já encarava como inevitável há muito e que praticamente aceitava como destino. No entanto, a Primeira República foi uma vergonha que conduziu o país ao caos, mesmo a provocar um Estado Novo autoritário que viesse dar um rumo à nação. Veio e deu. O problema é que ficou até apodrecer. Não vivemos melhor na bancarrota primeiro, nem com a guerra depois.
Há 25 anos, Portugal juntou-se à Europa. Foi melhor? É evidente que foi, por se saber que o isolacionismo tinha os dias contados e por a nossa pequenez estar condenada ao fracasso. Porém, os momentos alternados de euforia e de sacrifício puseram rapidamente a nu a impreparação para sustentarmos as nossas novas exigências e a incapacidade para ultrapassarmos as nossas velhas fragilidades. Por muita ajuda que nos tivessem dado para seguirmos bons exemplos, temos acumulado crises sobre crises que nos afastam da Europa e não será de comboio que iremos lá ter. Não vivemos melhor com o temor da falência, nem com o fantasma da revolta social.
Quase dois séculos depois de nos bater o liberalismo à porta, festejamos realmente o quê? Celebramos o centenário da República? Comemoramos as bodas de prata da adesão europeia? Pois sim. Sentados à mesa do banquete em trajes menores. Não vivemos melhor se cada fatia de bolo que comemos é o mesmo que estarmos a comer um pedaço de nós próprios.
Geração após geração, eis o que nos habituámos a fazer: festejar o que nunca conseguimos ter. Triste fado é o nosso, que começa a cantar-se com o calor da alegria incontida dos primeiros copos e termina dolente em rimas de tragédia na bebedeira de madrugadas frias. Podemos dar um passo atrás para recomeçar e viver melhor? Talvez, mas é incerto que tivéssemos aprendido alguma coisa.


Boa reflexão. Gostei de ler.
Obrigado, Sílvia.
🙂
Excelente apanhado, João. Mas parece que temos que mudar mais vezes de paradigma, porque tudo começa sempre com uma melhoria e acaba mal porque dura tempo de mais…
É verdade, Ana. Ou dura tempo de mais por se perceber que vai acabar mal.
(Gostaste daquela minhoca em autocomezaina?)
Gostei muito. Lembrou-me de que há ainda uma minoria que não reivindicou os seus direitos: os hermafroditas. Porque não há-de um hermafrodita poder casar consigo próprio, por exemplo?
Ora aí está uma ideia feliz para casamentos duradouros. A menos que se comam excessivamente…
Se tiver paciência e o assunto interessar a mais alguém, gostava que estendesse essa sua análise ao Mundo em geral: eu não o sei fazer, por falta de cultura, de memória e de documentação.
– Foram os bárbaros que destruíram o Império Romano ou apenas vieram comer o que restava dele?
– Foi a Revolução Francesa que criou o capitalismo ou foi este que fez a revolução?
– Foi o Gorbachev que levou à dissolvência da União Soviética ou esta já estava podre?
– Foram os Capitães de Abril que derrubaram a ditadura portuguesa ou esta já não se tinha de pé?
Vou pensar no seu caso, José. Interessa-me falar aqui de nós. Percebi muito bem o que V. quer, mas é dos nossos sucessivos fracassos que me apetece falar. Os outros falarão dos seus próprios fracassos – e dos sucessos.
Por falar/escrever em rimas e neste nosso triste fado…
Este país afidalgado
porta-se como um charlatão,
tantos fundos tem estragado
edificando muito betão.
O Estado insustentável,
e que não parece melhorar,
é uma marca lamentável
que será difícil de sarar.
Esta lógica indigente
gastadora de muitos milhões
é abertamente pungente
ao parasitar os mexilhões.
Também me lembro muito dos mexilhões, mesmo sem ter o seu conhecimento. São os que se lixam sempre.
Muito pertinente a sua reflexão, João, não sei dizer melhor, gostei. Fiquei ainda mais apreensiva, comecei por roer as unhas.:))
Credo! Não era minha intenção estragar as suas unhas, Ema. Roeu as das mãos ou as dos pés?…
Para já, comecei pelas mãos, espero não ter que recorrer às unhas dos pés – aí a coisa fica bem mais difícil – já me falta alguma destreza…;))
Hum…
Na comemoração dos 25 anos da assinatura do nosso tratado de adesão à CEE não faltaram as vozes – até na blogosfera, onde continuamos a ler os maiores disparates – a dizer que só tivemos a perder com a integração europeia. Como se a culpa fosse a Europa e não a nossa crónica falta de aproveitamos do dinheiro que nos chega de fora. Já foi assim com a pimenta da Índia e com o ouro do Brasil. A única certeza que podemos ter é que estaríamos muito pior sem a integração na CEE, agora UE. Bastaria a liberdade de circulação de que qualquer português hoje dispõe na Europa, a justiça comunitária como instância última de recurso nos litígios judiciais (que aliás já ditou várias vezes sentenças condenatórias ao estado português) e os fundos estruturais que apesar de tudo nos aproximaram dos padrões médios de vida europeus para o balanço de 1986 para cá já ser largamente positivo.
É como dizes. Apesar dos diaparates insistentes que assinalas. Tem sido tudo bom? Não. E a nós o devemos.
Excelente reflexão João, estou muito de acordo o
com a conclusão “é incerto que tivéssemos aprendido alguma coisa”. é que tivéssemos propensão para “aprender alguma coisa”, não estaríamos certamente nesta triste situação. É karma…
É karma. É o nosso fado, Ariel: começa a cantar-se com o calor da alegria incontida dos primeiros copos e termina dolente em rimas de tragédia na bebedeira de madrugadas frias.
Adorei esta forma de ver as coisas. Olhar objetivo sobre o que á afinal Portugal. Sempre fomos e ainda somos um povo de memórias curtas, parece que vivemos so de momentos. E então se analisarmos a situação atual… Sou um homem de convições monárquicas, apesar de concordar com o texto sobre o assunto. Sou um homem que olha com desconfiança para o 25 de abril, pois basta por a cabecinha a trabalhar e chegamos lá… mas enfim, pode der que apareça o tal de Sebastião numa manhã de nevoeiro…