Estado Social? Porreiro, pá


Sérgio de Almeida Correia,

A revista Sábado, que como toda a gente sabe não morre de amores pelo PS e por José Sócrates, de vez em quando, e sem que ninguém lhe encomende, presta inestimáveis serviços ao partido do Governo. Desta vez, não foi propriamente ao PS. Foi ao Estado Social.

Graças a uma reportagem publicada na última edição (páginas 56 e seguintes), a revista deu-nos a conhecer (melhor, uma vez que eu já suspeitava) mais um exemplo daquilo que o Estado Social é capaz de produzir quando está na sua máxima pujança.

Trata-se da história de um figurão de 49 anos, que depois de ter sido deputado pela primeira vez em 1985, quando tinha apenas 24 anos, aí se manteve até 2009, quando num assomo de lucidez a Dr.ª Manuela Ferreira Leite o afastou das listas de deputados. Afastado das listas, o herói da Sábado esclareceu que tão nefasto episódio foi quanto bastou para que essa ilustre personagem resolvesse “apostar numa carreira fora da política”. E que fez ele? – perguntarão os leitores. O figurão de imediato disparou: “Fui trabalhar, pois fui”.

Ora toma. Um tipo está mais de 20 anos na política e quando sai diz que vai trabalhar? Que pensará disto o Dr. Miguel Macedo que continua sentado em São Bento? Um deputado que leia uma afirmação destas só pode ficar com cara de chulo. Ou melhor, deverá sentir-se bandarilhado em toda a linha.

E, como se trabalhar não fosse já de si uma coisa penosa, o figurão não só começou a trabalhar como ainda teve tempo – uma vez que até então, embora andasse a arrastar-se pelos corredores de São Bento não tivera tempo para obter a licenciatura em Direito – para conseguir o almejado canudo, o que ocorreu em 2007, em “Ciência Política e Relações Internacionais”, na Universidade Lusófona. Primeiro vai-se para a política, para se viver da política, a seguir vai-se estudar ciência política, para se aprender uma coisa que daí em diante é suposto, pelas suas palavras, que já não lhe irá servir para nada.

Em 2005, antes de deixar de ser deputado e começar a trabalhar, o figurão apresentava uma declaração de IRS, com o respectivo cônjuge, de menos de € 70.000. Em 2009, dois anos depois de começar a trabalhar, já ia em € 216.938. E não é da Maçonaria, segundo diz. Imaginem se fosse.

Mas o mais notável da reportagem da Sábado é que com tal percurso académico e profissional, e tais euros, ainda consiga dizer “Não tenho nenhum cargo público. E tenho que viver. Não sou deputado. Não sou nada”. E tem toda a razão. O sujeito não é nada. Mas tem um percurso parecido com o do seu chefe, com o do senhor Passos Coelho, com quem se deixa fotografar enquanto lhe endireita a gola do casaco. Percurso que, sejamos francos, não difere muito do de José Sócrates. Será humildade? Marcello Duarte Mathias diz que o excesso de humildade é falta de confiança, enquanto que o seu culto será prova de cinismo. No caso do figurão da Sábado vou mais por aqui.

Um tipo lê coisas destas numa revista onde escrevem Pacheco Pereira, Nuno Rogeiro e Alberto Gonçalves, ao que me dizem tudo gente conotada com a Direita e que se farta de malhar em José Sócrates, e depois ouve a ministra da Educação a dizer que quer que os meninos vão para a escola. Para quê?

Longe de mim querer insinuar alguma coisa, mas o que a senhora ministra tem de dizer aos papás e às mamãs é que devem inscrever os meninos, assim que aprendem a soletrar, num partido ou num “gang” qualquer e esperar que o Estado Social faça o resto até chegarem aos quarenta e poucos anos, altura em que começarão a trabalhar e a ganhar dinheiro.

Com exemplos como estes, que diariamente nos chegam dos principais dirigentes do PSD, é natural que haja quem queira acabar com o Estado Social.

Pedro Passos Coelho deve andar equivocado. Se eu tivesse tido a sorte de tirar um curso decente, com muitas saídas profisionais, como o de Miguel Relvas, o tal figurão, em vez de andar a perder tempo nos bancos da FDL e do ISCTE, em licenciaturas e mestrados que só servem para nos fazer gastar dinheiro na Petrony, na Almedina e no site da Amazon, poderia ter começado logo a facturar o que ele facturou 2 (dois) anos após a conclusão da licenciatura. Nem o Rui Pedro Soares foi tão rápido. Um gajo estuda Ciência Política e depois vai administrar empresas. É quase a mesma coisa.

Não tive a sorte de Miguel Relvas. E como não sou maçom, nem boy de ninguém, lixei-me. Sou um falhado. Mas agora, ao conhecer o percurso profissional e académico de Miguel Relvas, fiquei com a certeza de que a falta de trabalho, o desemprego, como se costuma dizer, é pura ficção. Mais, tenho a certeza de que é uma criação de José Sócrates para manter o PSD animado. O Dr. Miguel Relvas, distinto secretário-geral do PSD, é o melhor exemplo de que é mesmo preciso acabar com esta pouca vergonha. Só o Estado Social poderia permitir coisas destas.

7 comentários em “Estado Social? Porreiro, pá”

  1. E depois é esta gente que governa o país; é gente desta que decide o nosso futuro colectivo; são os miguéis relvas que formam executivos, parlamentos, gerem partidos e são responsáveis por défices monstruosos e dívida pública a perder de vista.
    O mundo está perigoso, mas mais perigoso fica quando se sabe que é nas mãos desta gente que está a gestão da segurança. De toda a espécie de segurança.

    Só me apetece fugir. O problema é que não sei para onde.

    Cumprimentos.

  2. Apreciei o post e concordo com a indignação. Os principais partidos políticos, infelizmente, têm funcionado como escadas para o poder, e a melhor forma de o garantir é constituir uma malha de pessoas que são, efectivamente, compradas. É o que eles têm feito. É frustrante ser representado politicamente por pessoas que nunca tiveram reais responsabilidades na vida e que nunca criaram riqueza seja de que forma for. Actualmente, a maioria dos políticos serve os seus interesses pessoais em primeiro lugar, os interesses dos seus fieis amigos em segundo, do partido em terceiro e, apenas num longínquo quarto, servem os interesses de quem os elegeu. Isto tem de acabar. Enough is enough.

  3. Está certo, claro. Eu, aos 25 anos de idade, acabo de chegar à brilhante conclusão de que tenho o meu formulário de adesão a uma juventude partidária pelo menos nove anos atrasado. Já podia estar com uma vidinha descansada.

  4. A certa altura da reportagem, a jornalista escreve: «Aliás, o seu dia-a-dia reflecte a divisão entre os negócios e a política.» Permito-me discordar: o seu dia-a-dia e o seu percurso reflectem precisamente o oposto; mas, verdade seja dita, os exemplos não escasseiam.

  5. Sem palavras… desde adolescente que o meu pai me dizia para me filiar numa jota.. e eu, que queria ser jornalista, achava que não, que não devia. Os meus ideais não me trouxeram nada de j€ito, os conselhos de “estuda para seres alguém” também não. Quando tiver filhos dou-lhes este post para ler. Isto se o Estado Social ainda não tiver dado o berro até lá…

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