Estado da Nação


Pedro Correia,

Na noite de 27 de Junho, num jogo concluído com um empate após prolongamento e que culminou com a lotaria das grandes penalidades, Espanha eliminou Portugal, qualificando-se para a final do Campeonato da Europa de futebol, que viria a ganhar goleando a Itália. Ficámos à beira do título sem conseguirmos lá chegar. Mas superámos todas as expectativas, que à partida eram muito baixas. E alguns dos mais exigentes críticos internacionais da especialidade não hesitaram em qualificar aquele Portugal-Espanha como o verdadeiro jogo da final do Europeu.

Indiferentes a essas expressões de admiração alheia, de imediato começámos a escutar um coro de críticas: é o habitual nestas ocasiões. Se em alguma coisa o português se esmera é nas contínuas sessões de autoflagelação. Após três semanas de silêncio dos Velhos do Restelo, enquanto se sucediam as vitórias da equipa das quinas no Euro 2012, as tais sessões ressuscitaram minutos após essa suadíssima meia-final disputada na Ucrânia. Motivo? “Apenas” ficámos em terceiro lugar entre as 16 melhores selecções de futebol da Europa. “Apenas” empatámos ao fim de 120 minutos com os campeões do Mundo. É português “apenas” o melhor treinador da actualidade. É português “apenas” um dos dois melhores jogadores da modalidade à escala planetária. “Apenas” são portugueses dois detentores do prestigiado Prémio Pritzker, de arquitectura. “Apenas” era português o vencedor do Nobel da Literatura de 1998. “Apenas” é portuguesa uma das mais bem cotadas pintoras da actualidade. “Apenas” é português o único cineasta ainda em actividade que iniciou a carreira no tempo do cinema mudo.

Isto tem a ver com a pura incapacidade de valorizarmos o que é nosso. Mesmo quando é reconhecido, aplaudido e distinguido noutros países e noutros continentes. O nosso problema não é desvalorizarmos as derrotas, como alguns sustentam. Parece-me que o problema é precisamente o inverso: as boas notícias, para uma certa cultura dominante, tornam-se más notícias. Convivemos mal com os triunfos. Regresso ao futebol, pois é um tema emblemático: lá fora, apontam-nos como uma das três ou quatro melhores selecções da Europa; nós, pelo contrário, autoflagelamo-nos por não termos sido campeões.

E não suportamos o triunfo em ca(u)sa própria. Repare-se no que sucede com José Mourinho ou Cristiano Ronaldo: por mais provas públicas que dêem de talento e sucesso, encontrarão sempre detractores entre os compatriotas. O mesmo se aplica, noutros domínios, a um Lobo Antunes, um Siza Vieira, um António Damásio, uma Maria João Pires, uma Paula Rego, um Manoel de Oliveira.
O futebol serve de símbolo. Ou de metáfora. De um povo que olha para o copo e o vê sempre vazio. Mesmo quando tem água.

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10 comentários em “Estado da Nação”

  1. Pedro, porque insiste? E, ainda por cima, a equiparar o que não é equiparável?

    Diz você que «”apenas” são portugueses dois detentores do prestigiado Prémio Pritzker, de arquitectura. “Apenas” era português o vencedor do Nobel da Literatura de 1998.» Duvido que seja inteiramente correcto comparar um competição desportiva, em que há confronto directo e o resultado não depende de terceiros (a não ser dos árbitros…;-)), com um processo de escolha por júri, mas enfim… A questão principal, porém, é que Siza Vieira e Souto Moura, e Saramago, VENCERAM. A «seleção» portuguesa de futebol PERDEU. Ponto.

    Eu nada me importaria de estar no lugar da Itália, que perdeu, goleada, a final do Europeu deste ano. É que ela tem, para se «consolar», quatro títulos mundiais (o último em 2006) e um europeu. A Alemanha também perdeu na outra meia-final? Três títulos mundiais e três europeus. A França? Um mundial e dois europeus. A Inglaterra? Um mundial. Dinamarca, Holanda e República Checa? Um europeu cada uma. Tal como a Grécia, que ganhou o seu onde e contra quem sabemos…

    Já reparou que, dos quatro principais países latinos europeus (não vou incluir aqui agora a Roménia…), Portugal é o único que nunca foi campeão europeu e mundial? E a França tem, a nível de clubes, um palmarés internacional inferior ao nosso.

    E nem José Mourinho e Cristiano Ronaldo são equiparáveis. O primeiro já conquistou, para uma equipa portuguesa e, logo, para Portugal, dois títulos europeus. O segundo já foi campeão europeu, mas não com uma equipa portuguesa.

    Sou absolutamente a favor de «valorizarmos o que é nosso», de divulgar e de elogiar os portugueses que se destacam internacionalmente, e, há cerca de dez anos, iniciei um projecto jornalístico (que não consegui concretizar) precisamente sobre isso. No entanto, dou primazia aos que ganham e não aos que – consecutivamente – falham.

    1. Octávio, estamos de acordo noutras matérias mas nesta é óbvio que não.

      Já fomos campeões do mundo em hóquei em patins. E tivemos medalhas olímpicas, nomeadamente no atletismo – Carlos Lopes e Rosa Mota estão entre os meus ídolos do desporto, não só por terem conquistado medalhas de ouro em olimpíadas mas pelo simbolismo que isso encerra: somos capazes.
      Devemos dizer isto muitas vezes a nós próprios: somos capazes.

      É bom ganhar. Mas não é indispensável ganhar. Indispensável, parece-me, é estarmos entre os melhores. E estamos, no futebol: em quinto lugar na lista da FIFA (à frente do Brasil). Fundamental é fazermos cada vez melhor. E fazemos. Portugal qualificou-se para as fases finais dos últimos cinco campeonatos da Europa – nada semelhante sucedeu nas décadas anteriores – e esteve presente nas meias-finais dos últimos quatro.
      Você trocava o nosso 0-0 com Espanha pelos 0-4 sofridos pela Itália. Eu não.

      Olhemos para o copo e não o vejamos sempre quase vazio.

  2. Ficámos à beira do título […] Mas superámos todas as expectativas

    Porquê a primeira pessoa do plural? Nós (o Pedro e os seus leitores) não fizemos nada disso. Quem fez isso foi a seleção nacional. Portanto o texto deveria estar na terceira pessoa do plural (“Ficaram à beira do título mas superaram todas as espetativas”).

      1. Gosto de futebol, vejo todos os jogos da seleção e do meu clube favorito. Mas nunca pensaria em falar deles como “nós”. Aliás, penso que isso não é feito em relação a qualqer outra modalidade. E no futebol só é feito porque os jornalistas impuseram essa forma de falar. Os adeptos falam geralmente “deles”.

  3. “De um povo que olha para o copo e o vê sempre vazio. Mesmo quando tem água.”

    Será porque foi um povo que sempre viu outros a beber do copo enquanto morria à sede?

  4. Hoje, na edição do Jornal de negócios, a jornalista Helena Garrido escreve sobre os resultados do comércio externo (exportações e importações) recentemente divulgados, o seguinte: “…A capacidade que os portugueses revelaram em mudar, para se adaptarem às novas circunstâncias, contrasta com a incapacidade que o sistema político-partidário revela em mudar.” Desta frase, destaco: por um lado, a capacidade das empresas portuguesas sobretudo as exportadoras com uma força empreendedora impressionante (bem hajam!); por outro, o sistema político-partidário (isto é uma força de expressão: a maçonaria), da esquerda à direita, que teima em não mudar porque todos pretendem manter o poder (outra força de expressão: todos têm os seus “tachinhos”) adquirido ao longo destes anos de democracia (outra força de expressão: vivemos numa plutocracia).
    Mais, aproveito para acrescentar, como formador/consultor de empreendedorismo, que não damos o devido valor a estes (e outros excelentes) resultados. Antes pelo contrário… Só não vê quem não quer.

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