
Comecei por não entender. Agora, até julgo que entendo. E, por isso mesmo, fiquei irritado. Refiro-me ao duplo critério que o Governo tem vindo a adoptar, distinguindo o futebol de outras actividades.
Há dias, numa das suas conferências de imprensa quase diárias, a ministra da Saúde revelou-se muito firme na contínua recusa de jogos presenciados nos estádios. «Haver as habituais concentrações em determinados espaços, por ocasião das competições desportivas, é evidente que é algo que não vai poder acontecer da forma a que estávamos habituados a assistir», declarou Marta Temido.
Atalhando neste discurso cheio de rendilhados, isto significa que todos continuaremos proibidos de frequentar os estádios. Os jogos que faltam para completar a temporada 2019/2020 ocorrerão à porta fechada. E, aparentemente, não serão transmitidos pela televisão em sinal aberto. Duas espécies de encerramento, portanto.
Há aqui vários erros que convém denunciar desde já.
Que imperiosa lógica sanitária leva o Governo a interditar em absoluto estádios com capacidade para largos milhares de lugares sentados, ao ar livre, enquanto acaba de dar o dito por não dito, autorizando que sejam retomadas viagens aéreas – em cubículos estreitos, com ar rarefeito e onde as pessoas estão a centímetros umas das outras por vezes durante horas – sem qualquer limite máximo ao número de passageiros?
Alegam os decisores políticos que é vital proteger e revitalizar a aviação civil. Pois esta mesma lógica pode e deve aplicar-se à chamada indústria do futebol, que gera cerca de 80 mil postos de trabalho, directos e indirectos, em Portugal e movimenta receitas que abrangem quase 1% do PIB nacional.
É um absurdo manter as bancadas dos estádios vazias enquanto se enchem aviões, em condições sanitárias de muito maior risco. Autorizar que pelo menos um terço dos lugares sentados nos estádios fossem preenchidos – nomeadamente pelos sócios que pagaram lugares de época – seria uma opção razoável. Tanto mais que o Governo – contrariando outra intenção inicial expressa em sinal oposto – acaba de dar luz verde à utilização de 14 estádios para disputar os jogos que faltam. Na prática, só não jogará em campo próprio quem não quiser.
Ao contrário do que sustenta a ministra da Saúde, as concentrações de maior risco a pretexto do futebol não ocorrerão junto aos estádios, mas longe deles. Em locais públicos e numa infinidade de reuniões privadas onde irá aglomerar-se muita gente, em todos os recantos do País, para assistir aos jogos caso se mantenha a intenção de que estes só sejam exibidos em canais codificados, nada acessíveis ao actual rendimento médio dos portugueses.
E é por isto que não entendo, de todo, o sururu criado em torno de Pedro Proença, só porque o presidente da Liga se atreveu a sugerir, em carta ao Presidente da República, a intervenção do poder político para que as partidas de futebol remanescentes possam ser exibidas em canais abertos, com a devia compensação financeira proporcionada com verbas públicas aos operadores televisivos.
Caiu o Carmo e a Trindade quando afinal Proença estava cheio de razão. Como o futuro próximo demonstrará.
Leitura complementar:

Bom dia Pedro Correia
Com a devida vénia assino por baixo relativamente à quase totalidade do seu texto.
As contradições são substanciais e não tem sido só neste campo. Ainda verá aparecer uma informação da OMS a dizer que afinal as máscaras têm mais inconvenientes que vantagens. Voltando à bola, e com a ressalva de que pouco ou nada ligo a futebol, ainda assim atrevo-me a prever que vai voltar tudo ao normal de Janeiro passado, basta ver os desenvolvimentos de processos judiciais, basta ver as composições de certas listas de órgãos sociais de clubes. Saúde. António Cabral
Já espero quase tudo e cada vez menos coisas me surpreendem, caro António Cabral.
Clara, cristalina, a reflexão do Pedro. Opaca, fosca, a duplicidade de critérios.
Já agora, a Alemanha injectou milhões de euros na Lufthansa, tornando-se o Estado o seu maior accionista. Não entendo este tipo de liberalismo /capitalismo.
Dualidade que, sim, já é duplicidade. Cada vez menos perceptível pelo cidadão comum.
Começa a haver trapalhadas em excesso. Felizmente para o Governo, deixou de haver oposição.
É que existe aqui uma questão:
com o copito valente!!!
esta malta da bola gosta muito de ajuntamentos.
(Depois desta reclusão forçada a vontade de malhar no próximo deve estar no pico)
Você parece-me algo desactualizado. Nos estádios não há venda de bebidas alcoólicas.
Bem sei….
E quantos é que não entram já meios alcoolizados para o estádio.
Neste caso a questão não tem a ver com os estádios, mas com o que se passar longe dos estádios. Antes, durante e depois dos jogos.
Nos estádios, que têm muita segurança, é sempre mais fácil controlar eventuais excessos.
Por outro lado, não são permitidos quaisquer tipos de festivais de música, mas se no encerramento houve um político a discursar, já pode.
É o Portugal à carta. Cada um escolhe os ingredientes e pede a refeição conforme prefere.
Quanto ao futebol em particular, algumas notas:
1) tudo foi feito à balda, como se comprova nos estádios que não podiam ser usados mas já podem
2) a televisão é o motor do regresso, portanto pensar que as operadoras iam abdicar dos jogos é apenas estúpido
3) os grandes mandam nisto tudo, no futebol como na vida. Os pequenos estrebucham, mas no fim obedecem (vida de pobre é lixada)
4) o poder político vai tentar ao máximo não se comprometer, como de habitual
5) claro que ninguém percebe como a malta se pode amontoar em transportes públicos, mas não na entrada de um estádio, ou numa praia.
De acordo com tudo quanto escreve. Não foi a primeira vez e presumo que não será a última.
Gostaria de dissertar sobre a minha sapiência e capacidade de análise de situações complexas, mas a verdade é que limito-me a referir o óbvio.
Deu uma boa ideia para os organizadores dos festivais de Verão. Ponham um político a discursar no inicio e no fim. Assim ficam equiparados ao Festival Avante.
Excelente post. Concordo.
Toda esta política de imposições governamentais (constitucioalmente não salvaguardadas) está cheia de contradições. É um disparate pegado.
Cheia de contradições, sim.
É evidente que qualquer pessoa com um neurónio tem que concordar em absoluto com o Pedro Correia, nada disto faz sentido.
Veja-se a proibição dos festivais até 30 de Setembro e a excepção na lei para a festa do Avante.
Tirei da página da P.R. este naco da justificação de sua excelência (em minúsculas).
“Quer isto dizer que, se uma entidade promotora definir como iniciativa política, religiosa, social o que poderia, de outra perspetiva, ser encarado como festival ou espetáculo de natureza análoga, deixa de se aplicar a proibição específica prevista no presente diploma.”
Ou seja na “Catedral da Luz” podem haver espectadores?
Basta que no fim de cada jogo, seja convidado um deputado qualquer afecto a um dos clubes a fazer um comício e “prontos” está o problema resolvido.
Antonio Maria Lamas a 28.05.2020 às 12:02
O mesmo espectáculo que haverá na “Catedral de Alvalade”
De resto foi um postal muito bem conseguido e esclarecedor, se necessidade ainda houvesse de maior clarificação do que é e quais são as altas preocupações governamentais sobre a real saúde do povo.
Voltarei ao assunto. Em nome do combate aos monopólios e aos privilegios.
Neste caso, ao monopólio e ao privilégio reconhecido ao PCP. Inaceitável tratamento de excepção. Ainda por cima no concelho do Seixal, agora um dos mais fustigados pelo Covid.
Só posso concordar, no que respeita ao futebol. Ao ver os resumos dos jogos da Bundesliga pela televisão, pergunto-me sempre porque não se aproveita parte de um espaço tão grande. O maior problema seria, penso, a entrada dos espectadores no estádio, mas, com boa vontade, também esse problema se resolvia.
Parece-me óbvio, Cristina. Aliás, parece-me óbvio e muito razoável. Se formos comparar com os aviões, parece-me quase obrigatório.
Essa avião bombardeiro temido que só fala com a gente pela televisão.
Devia era de ir para a praia apanhar banhos de sol e deixar aqui os homens no estádio em paz, sentadinhos e agarrados as suas bejecas como bons meninos.
E digo mais, ou melhor, mais não digo!
Que falta de cortesia para uma senhora. Fica-lhe mal.
O futebol simplesmente devia de acabar !!!
Faz dos homens uns verdadeiros Cro-Magnon (s)
Isabel Silva
“Devia de” acabar?
Então, Pedro Correia. Foi sucinto.
Vai lá agora desencadear uma guerra só porque não concluiu, acabar… no fim?
Sei lá. Penso eu de que.
sim!!!
e era para ontem.
Mas o Sr. é um bailarino, ontem livros(excelente) e hoje metamorfoseado de um troglodita do futebol.
sinceramente!
Isabel Silva
Troglodita? Chiça. Recebo aqui cada “mimo”.
E das mulheres?
Calma. Sexta-feira é só amanhã.
Ficam a limpar a caverna
Miguel Nunes
Não te enerves, Fred Flinstone.
Anónimo a 28.05.2020 às 14:40
Senhora Isabel Silva: faz dos homens…e das mulheres. De algumas, pelo menos.
A espectadora que descalçou o sapato para agredir um espectador vizinho porque era adepto da equipa contrária, não abona muito da delicadeza feminina quando se trata de futebol.
Digo-lhe desde já que são sapatos Christian Louboutin, por isso só pode sentir-se honrado e agradecido.
Isabel Silva
Concordo com praticamente tudo, Pedro.
Tudo isto é um absurdo, dizem uma coisa hoje, a amanhã o contrário.
Se os aviões afinal podem viajar cheios, porque razão os estádios não poderão ter pelo menos 40% da lotação?
No início não fazia qualquer sentido que existissem deslocações de equipas para as ilhas da Madeira e Açores (para mim, claro…), até para protecção dos insulares, mas o presidente do Marítimo conseguiu o que queria…
Com a rapidez com que tudo muda, pode ser que à segunda jornada já seja possível aos sócios dos clubes (pelo menos…) ver os jogos nos estádios.
O único erro do Proença foi não informar os clubes (eles é que mandam no futebol… e aqui é que está o erro maior) e o principal patrocinador. Mas a medida não lesava em nada o futebol.
É isso, Luís. Agora já vale tudo: viaja-se para a Madeira, todos os estádios receberam visto sanitário, as competições são retomadas… Então por que raio as bancadas permanecem território interdito, como se tivessem lepra?
Falamos, reitero, de recintos ao ar livre – não de pavilhões fechados.
Nada disto faz o menor sentido. E a transmissão de jogos em canais codificados também não faz. Isto sim, potenciará novas correntes de contágios – como a DGS e o Governo têm obrigação de saber.
Está tudo muito bem, mas o certo é que a vida sem futebóis tem sido um sossego. Até se respira melhor.
O problema não é o futebol. São as pegas e os papagaios que palram horas nas pantalhas a pretexto da bola.
Sim, é esse o problema. Há trinta anos tínhamos dois canais e via-se desporto na televisão, das mais diversas modalidades. Agora, com tantos canais, passámos a só ter futebol e pior, nem sequer é para ver o que interessa, os jogos, mas sim gente a perorar sobre questiúnculas à volta da bola.
Pois, mas aí o problema é mesmo das televisões. Não é do futebol, que tem a sua missão específica no seu espaço próprio e mobilizando largos milhares de adeptos – a esmagadora maioria dos quais gente pacífica, alegre e cordial. Além de gerar cerca de 80 mil postos de trabalho, directos e indirectos.
O futebol não tem culpa do tratamento vergonhoso que alguns canais de televisão lhe dão, servindo-se dele para o descaracterizar e o rebaixar o tempo todo.
Toda o processo de confinamento/desconfinamento é uma história de absurdos.
Quanto ao futebol que nos trouxe a invasão de Alcochete o inefável trio do Pintinho do Vieira e do Varandas, mais os trogloditas dos programas de televisão ( incluindo o André Ventura), não vejo mal nenhum em que seja à porta fechada. Já agora mandem fora a chave
Absurdos, uns atrás dos outros.
“Ao contrário do que sustenta a ministra da Saúde, as concentrações de maior risco a pretexto do futebol não ocorrerão junto aos estádios, mas longe deles. Em locais públicos e numa infinidade de reuniões privadas onde irá aglomerar-se muita gente, em todos os recantos do País, para assistir aos jogos caso se mantenha a intenção de que estes só sejam exibidos em canais codificados, nada acessíveis ao actual rendimento médio dos portugueses.”
Precisamente.
lucklucky
Veremos o que irá acontecer.
Não será necessário esperar muito.