
Acabo de ler num desses agregadores de notícias que não desligar da tecnologia tem consequências várias para a saúde, incluindo distúrbios do sono, que por sua vez se reflectem na saúde mental. Não me perturbo. Esse alerta reciclado de outros alertas que fui lendo ao longo do tempo não me deu qualquer novidade. Mas levou-me, isso sim, a reflectir sobre a contradição que observo em muita gente que me rodeia: cada vez são mais os que estão atentos a tudo o que é informação sobre alimentação saudável e exercício físico, adoptando aqui e ali hábitos que poderão travar o colesterol, a diabetes e os efeitos da idade, hábitos que incluem beber em jejum sumos de couve, cenoura e bróculos (!!!) mas fazem orelhas moucas às notícias que nos dão conta dos estragos que o uso incontinente de tecnologia provoca.
Quando confrontados desculpam-se com o zelo profissional, que os obriga a estar disponíveis 24h, e com o assédio dos amigos das redes sociais, que aguardam feedback. Mas nunca se interrogam verdadeiramente sobre os limites da relação de dependência que desenvolveram para lá do razoável. Porquê esta tão mansa submissão, ó intrépidos bebedores de sumo de couve?!
Será porque ao contrário do que acontece com a alimentação saudável, o exercício físico e – oh! Esqueci-me! – “o pensamento positivo”, tomar medidas contra a dependência de tecnologia não está na moda? Será que os nossos hábitos saudáveis tão seriamente discutidos, calibrados e assumidos não passam afinal de tendências Primavera/ Verão, Outono/ Inverno que assimilamos alegremente manietados pelos media? Assim parece.
A tecnologia, como antes aconteceu com o tabaco, está fora do nosso radar quando o assunto é “vida sã em corpo são”. Sabe-se que provoca danos a nível psíquico, social e familiar. Pode até falar-se disso na sala. Revirar os olhos, encolher os ombros, suspirar um pouco. Perorar como pais sobre a preocupação que o tema nos provoca também é bem visto, mas daí a fazer contenção de danos, vai um enorme e consistente risinho amarelo e o tal mantra sobre profissionalismo e os amigos virtuais “que não me largam” antes de enfiar a cabeça na areia.

“Mas nunca se interrogam verdadeiramente sobre os limites da relação de dependência que desenvolveram para lá do razoável”
Teresa eu diria que qualquer dependência é irrazoável. Incluindo a dependência pela razoabilidade.
Há dependências razoáveis. Há até dependências boas. O importante é que se mantenham facilmente revertíveis, caso assim o desejemos. Exemplos: dependência do ginásio, de um regime alimentar saudável (para citar cenários que abordei no post). No caso da tecnologia, considero razoável a dependência que é ditada por (boas) razões associadas à profissão que se exerce, desde que tal não se transforme em regime de escravatura, 24h sobre 24h ou quase.
Se as dependências não nos possuírem então são falsas consciências de Dependência.
Exercício prático sobre liberdades:
Ponha de lado, durante um tempo as coisas, que considera fundamentais. Consegue-o? Ah… é inválido, o hoje não, amanhã verei!
Não necessito de cama, nem de grande descanso, nem de capa para esconder as vergonhas. A minha dependência são os meus olhos.
“Se as dependências não nos possuírem então são falsas consciências de Dependência” – dou-lhe um exemplo prático: fui muito dependente de café, até ao dia em que o prazer de o beber e de sentir que dependia dele para começar a funcionar de manhã, foi superado pelos problemas de saúde que me começou a causar. Saltei fora, embora a custo. Foi uma boa dependência enquanto durou.
Um café chamado Amor, portanto(Y)]
dependência do ginásio, de um regime alimentar saudável
Um regime alimentar saudável é, por definição, saudável. Já o ginásio não é, por via de regra, saudável. No ginásio fazem-se quase sempre esforços exagerados e desequilibrados, que acabam por provocar lesões, em máquinas que estão geralmente concebidas para maximizar o resultado em termos da criação de musculação mas não para preservar e conservar o corpo.
Concordo com a sua apreciação sobre os ginásios, mas também se aplica à “alimentação saudável”. Se não for equilibrado, o nosso regime alimentar até pode ser feito à base de produtos saudáveis, mas desenvolve carências várias.
Sentado conservará apenas as partes que não interessam
Excelente post! Muito bem.
Em tempos tive uma conversa sobre a proliferação do trabalho a partir de casa e de como isso é uma benção e uma maldição. Como eu gosto de dizer: a vantagem de ter telemóvel e computador sempre ligados à net é estarmos sempre disponíveis. A desvantagem é a de estarmos sempre disponíveis.
Lembro-me de num emprego anterior ter um telemóvel da empresa que servia apenas para telefonar, enviar SMSs e fazer umas fotografias manhosas. Quando um director viu o telefone disse-me que queria um deles para substituir o iPhone que tinha e qu eo obrigava a estar sempre disponível…
É como dizes. O bem que representa é o mal que nos faz. Isto se falarmos só na gestão do nosso tempo. Mas há questões que se levantam (sérias, graves) que têm a ver com a nossa saúde.
Andamos muito passivos em relação a isto e afinal é assim tão difícil desligar por umas horas… se quisermos?!
Obrigada, Lavoura. Esse comentário, vindo de si, é… uma surpresa 🙂
Sim , mas não é submissão. É escolha.
A submissão é uma escolha.
Sim .Tem razão.
A submissão será uma escolha, se o elemento não andar a pôr em risco a vida de outros com a tecnologia.Se assim for, será obrigado a perder o vício, se possível até, com penitências!