Esta noite sonhei com a crise


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Há alguns meses morreu Mário Murteira. Fui seu aluno no mestrado e dele fiquei com uma excelente memória, como docente e como pessoa. Recentemente a revista do Centro de Estudos Africanos do ISCTE – Lisboa, o Caderno de Estudos Africanos, publicou alguns textos em sua homenagem. Incluindo um breve texto meu, algo que muito me honrou e comove.

 

Agora em Lisboa recebi este livro, “Esta Noite Sonhei com a Crise“, uma colectânea de textos seus da última década (artigos de opinião, postais de blog, entrevistas, a lição de jubilação, etc.), matéria muito interessante. Por um lado para nos aproximarmos da sua biografia intelectual e política, por outro para acedermos às suas perspectivas sobre a “crise” deste tumultuoso XXI. E ainda alguns textos sobre África, frutos da sua vasta experiência de trabalho em vários países do continente.

 

Mário Murteira ficou mais amplamente conhecido por ter sido governante nos governos provisórios e pelo seu papel nas nacionalizações (o que muitos continuam a evocar, viu-se agora, 40 anos depois, aquando da sua morte). Também por isso será de ler, em particular as entrevistas, para se perceber um pouco melhor o ambiente da altura, em que “O Estado, nessa altura, e em rigor, não existia” (99) – e já agora, de algum do porquê das nacionalizações dos grupos económicos. Das suas raízes intelectuais, assentes, como as de tantos vultos de então, no “catolicismo progressista” (definição que lhe desagradava), no personalismo (quem lerá hoje Mounier?, ocorre-me). E é de recordar esta dimensão católica, ideológica, no poder de então, mais significativa do que hoje se pensa, expurgada do olhar que vamos tendo sobre essa época, um pouco por ser hoje quase tabu a afirmação da religião no domínio da coisa pública, mas também pela partidarização do olhar. Enquanto li este livro reli o seu opúsculo “55 Dias de Uma Experiência Democrática” (1975), sete artigos publicados em jornal no Verão de 1974, ecoando os factos da sua participação no 1º governo provisório (sob Palma Carlos). E é bem significante que já então, e em pleno jornal, reflectia com toda a naturalidade sobre a presença no governo da sua importante “secção” católica.

 

Para além desse material memorialista, sumarento para quem se interesse por essa época de advento da democracia, há o olhar sobre a actualidade. Delas retiro para aqui dois pontos, que não serão os mais importantes – julgo que as reflexões sobre a “crise” europeia e portuguesa e sobre o pós-industrialismo e a globalização serão mais marcantes do seu pensamento profissional. 

 

O primeiro é, de novo, o catolicismo. Murteira explicitou, com elegância, que ao longo da vida se afastou da fé, se “desconverteu”. Mas teve a sageza, nele condição habitual, de continuar atento ao discurso católico, tão estruturante é ele na Europa. Num breve texto, propositadamente inconclusivo, “Para que serve a doutrina social da igreja?“, chama a atenção para a riqueza da encíclica de Bento XVI “Caritas in Veritate” (2009), sistematizadora e potencialmente influenciadora do necessário debate sobre o modelo socioeconómico europeu e as práticas decorrentes. Não posso deixar de sorrir, eu ateu e nem-baptizado, quando comparo o velho professor com os exaltados mata-frades actuais, que acham que ser de esquerda é invectivar, radicalmente, a igreja, reduzindo-a aos epifenómenos mais rasteiros. 

 

O segundo é uma deliciosa tese (a segunda no seu texto “6 Teses sobre a Crise”): “A economia é importante, os economistas não“. Associando-a, noutros textos, com uma visão que desconfia da ideologia economicista, do primado dos equilíbrios macroeconómicos, da estabilidade monetária, e que nota a incapacidade da ciência económica em interpretar (e prever, esse mito) o real actual. O que se articula com a sua trajectória docente, a sua opção final pelo mundo da gestão. Não no sentido de esquecer os contextos sociais da actividade (no quais sempre atentou) mas no sentido de valorizar / incrementar as estratégias criativas, manipuladoras nesses contextos constrangedores. Educadamente pode-se referir-se-lhes (e Murteira também o faz) como “empreendedorismo” – não naquela faceta vulgar ultra-liberal, o pobre individualismo do “a sociedade não existe”, ecoando a velha fórmula “Deus ajuda quem se ajuda a si próprio”. Se assim um “empreendedorismo” entendido como um “desenrascai-vos”, como se os constrangimentos socioeconómicas se resolvessem num “cada um por si”.  Mas sim numa perspectiva sociológica do exercício económico, do necessário incremento das capacidades intelectuais direccionadas. (E aqui não posso deixar de sorrir ao lembrar a tonta polémica recente em Portugal sobre o “empreendedorismo” provocada pelo triste espectáculo televisivo proporcionado pela investigadora Raquel Varela, denotando o quanto a topologia lusa impede o pensamento).

 

Enfim, fará falta o teclado de Mário Murteira. A sua ironia, a sua sageza.

 

(Postal também publicado no ma-schamba)

7 comentários em “Esta noite sonhei com a crise”

  1. Caro jpt,

    Desconheço a escrita do Prof. Mário Murteira, mas aguçou-me a curiosidade.

    Não posso deixar de concorda em absoluto com a frase “A economia é importante, os economistas não”. Quem – e imagino que tal como eu se inclua neste grupo – acompanha mais ou menos de perto a “blogosfera” nacional, especialmente os blogs de pendor mais político – que, por cá, são muito político-económicos, como aliás se compreende – facilmente chega à conclusão que existe uma grande dificuldade em ultrapassar clivagens ideológicas, com uma separação quase rígida entre Keynesianos (ou “socialistas”, ou “crescimentistas”) e Liberais (ou “ultraliberais” ou “neoliberais”), e isto só na chamada área do “arco democrático”.

    Eu, como Católico, tenho um predilecção pela obra que tem vindo a ser exposta na Doutrina Social da Igreja, em parte porque a mesma representa um compromisso, fundado na realidade, entre os dois grupos (pseudo-)antagónicos acima referidos. Mas, pondo a minha crença de parte, a Doutrina Social da Igreja tem raízes Aristotelianas muito fortes e afasta-se do excessivo utilitarismo que vemos no capitalismo de pendor mais americano (ou anglo-saxónico pós-Tatcher).

    A capacidade de ver a Economia como algo que tem uma finalidade Social crucical, como uma ciência que deve focar-se muito no aplicado e menos no teórico, é algo que falta hoje em dia. A própria Gestão (que é vista como Economia Aplicada) está demasiado dependente de teorias económicas e muito menos de realidades concretas. O Gestor tem de saber os números, os clientes e os fornecedores, mas também tem de saber do produto, do processo de produção e das pessoas que com ele trabalham.

    1. Obrigado pelo comentário. E mais do que tudo pois “aguçar a curiosidade” é o melhor elogio que se pode fazer a um postal blogal dedicado a um livro … Como bloguista eu nem deveria blogar isto, que até terá aspecto de blaseísmo, mas (já) não leio os blogs políticos daí (com excepção do Abrupto, mas que me parece não entrar no bloco que referiu no seu comentário). Não só mas também pela rigidez que refere.

  2. Mário e Aurora Murteira foram grandes amigos meus numa época em que as amizades tinham um valor quase sagrado. Foram e são exemplo de vida para muitos dos seus amigos.
    E há jpt, acredita, quem ainda leia Mounier. Eu leio algumas vezes e continuo a aprender coisas novas.
    Bem hajas por este texto sobre uma pessoa e uma época que vivi intensamente.

    1. Quero acreditar que também hoje é tempo de “sacralizarmos” amizades. Vou-me esforçando por isso.
      Quanto a leituras de Mounier interrogo-me se as suas obras penetram novas gerações, em particular as católicas de hoje. Eu não pertenço ao meio católico – no sentido de nem sequer ter um núcleo de amigos ligados à fé e à reflexão católica – o que talvez explique o facto de nunca ter encontrado alguém da minha idade ou mais novo que o refira como referência.

  3. Caro jpt,

    Num pequeno texto aborda várias temáticas. Não conheci Mário Murteira, não fosse este seu post pouco conheceria dele, de sua obra.
    Mas tocou aí em duas áreas relevantes: a doutrina social da igreja e o empreendedorismo.
    Devo confessar-lhe antes demais que sou católico. Mas um católico com “medo” dos religiosos, sejam eles católicos ou não, na política e na economia. Mas com mais “medo” ainda dos fariseus ateus que tão bem projectou em seu texto.
    Dito isto, devo dizer-lhe que o primeiro “medo” referido tem como princípio o falso moralismo e até mesmo o ritualismo pouco convincente dessa aura moralista. O segundo “medo” reside excatamente no facto destes, por mímica, agirem da mesmíssima maneira com uma palavreado diferente.
    A experiência ensinou-me que tudo quanto é doutrina não é observável, na medida em que essas mesmas doutrinas estão inquinadas pela atitude do “establishment”. Por muito que elas sejam louváveis e até mesmo reconhecidas como importantes não são aplicáveis porque a tradição e a viciação do pensamento colectivo limitam os movimentos dos que as produzem e também daqueles que a elas pretendem aderir.
    Aqui chegados, se me permite, pulo para o empreendedorismo como exemplo do que não é possível fazer em Portugal:
    O empreendedorismo em Portugal é cerceado por um sistema empresarial que produz riqueza fácil por viver à conta de grandes negócios com o estado, isto é, receitas garantidas pelo contribuinte. Este sistema está fundado nas relações das castas ditas empreendedoras com a mentalidade de funcionário servil a que os políticos acedem ser. Mas esta mentalidade não é uma realidade pós 25 de Abril, ela é o elo inquebrável que é transmitido como herança a todas as gerações de políticos que inquinam o tecido social.
    Associado a isto diga-se em abono da verdade que o estado pós 25 de Abril, à semelhança do anterior, também fez vincar este elo porque se substitui ao empreendedorismo privado garantindo à partida subsistência de classes (saúde, justiça, educação…) que se apoderando da máquina administrativa do estado, por corporativismo, limitam a capacidade empreendedora do cidadão. Neste sentido, o cidadão, porque espartilahado pela máquina do estado e das empresas que vivem à conta do estado, viu-se na necessidade de substituir o empreendedorismo pelo empreendimento oportunista, de curto prazo, mas sempre gravitando em torno das forças referidas.
    Não há empreendedorismo com o modelo herdado e o que se pretende implementar.

    1. Eu acredito que as doutrinas nunca são aplicáveis, no sentido literal, mas que influenciam. Não discordo de parte do que refere, sobre o “real” direi assim, mas há com toda a certeza espaço para discutir o “como fazer”.

      1. jpt,

        o equilíbrio social existiu no ocidente, em particular em parte da europa ocidental e parte dos EUA, na medida em que o capitalismo vigente vivia subordinado ao medo. Viveram-se tempos em que era necessário equilibrar forças para que a famosa cortina de ferro não pudesse explorar divisões. Foi uma época aurea na medida em que o terror ajudava a estabelecer estes níveis de igualdade.
        No caso português, as guerras coloniais foram aquelas que ajudaram a que o capitalismo existente pudesse prosperar. Como havia riquezas abundantes, até mesmo o sector da construção e obras públicas beneficiou desta situação (relembro a construção de bairros sociais em Lisboa em que o funcionalismo público se encaixou, tais como: Alvalade, praça de Londres, Olivais…, mas também as outras obras do regime com Duarte Pacheco a mostrar sua genialidade). As indústria e serviços existentes trabalhavam para o esforço de guerra com mercados protegidos. A concorrência que pudesse vir das colónias foi resolvida colocando a moeda metropolitana a valer 2x mais que a moeda colonial, e garantindo os mercados coloniais à produção nacional. Até no domínio da agricultura havia culturas impedidas de serem trabalhadas em África (vinha, olival, alguns frutos e outros mais), e os produtos produzidos nas colónias raramente chegavam ao consumidor final na metrópole. Muitos exemplos poderia dar, mas seria inútil para o fim em apreço.
        Como fazer? Muito simples: deixar que o capitalismo selvagem morra por suas próprias mãos.
        A Rússia caiu com seu sistema imperialista, a China foi inteligente e conseguiu manter, para ela, o melhor dos dois mundos, e o capitalismo ocidental está a fazer o papel que levará à sua própria ruína. Extremou posições e os equilíbrios voltarão a ser estabelecidos. É só aguardar porque o tempo não tarda. Nem as guerras de diversão que se pretende fazer fora da jurisdição da ONU salvarão seu projecto. Quando muito anteciparão a situação. Só não ocorreu porque a China ainda não é uma superpotência, ela necessita de aliados e de uma marinha forte para poder estacionar alguns navios dessa esquadra que ainda não tem, mas lá chegará.

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