As presidenciais começaram finalmente a mexer. Fico satisfeito com esse facto.
O País poderá voltar a ter um debate político, poderá voltar a discutir o seu futuro e analisar as ideias dos candidatos. A democracia é um exercício permanente que só se fortalece com a discussão. Das ideias, dos caminhos que estão aí para ser trilhados, como também das lideranças que se oferecem e, com estas, das qualidades e defeitos dos próprios candidatos que querem ocupar a primeira linha.
A apresentação do manifesto eleitoral de Cavaco Silva e as suas declarações mais recentes fizeram-me retroceder um ano. Podia ter sido mais, mas como a procissão ainda vai no adro não vale a pena ir mais longe.
Quem não tendo estado na Alfândega do Porto tiver tido a oportunidade de ouvir o discurso de Cavaco Silva, candidato presidencial, perante uma plateia de “notáveis”, facilmente concluiria estar na presença de um novo messias. Nós, portugueses, sempre tivemos uma atracção enorme pelas sombras desenhadas no horizonte, pela entrada no nevoeiro, confiando que da sua humidade e das sombras não virá a turbulência, mas o herói que nos retirará da miséria e dará, finalmente, corpo às ilusões de Alcácer. Ciclicamente o sonho regressa e inexplicavelmente materializa-se em homens como nós.
Cinco anos depois de ter conseguido a sua eleição para a Presidência da República, o mesmo homem que foi ministro das Finanças, professor de Economia, primeiro-ministro durante uma dezena de anos e Presidente da República durante mais cinco, relança a sua candidatura, avisando que os graves problemas da economia portuguesa decorrem da crise internacional, “mas também das opções erradas na orientação das políticas públicas (…), não obstante os repetidos alertas de múltiplos sectores que foram sendo feitos ao longo de anos”, razão pela qual pretende agora ser reeleito para assim poder “recolocar Portugal no caminho da convergência com a UE”.
Eu não acredito que Cavaco Silva, ou qualquer outro dos candidatos, seja um tipo mal formado – no sentido político, entenda-se – ou mal intencionado. De quem durante mais de 16 anos exerceu os mais altos cargos do Estado, obteve, com mérito, um douramento em York, e se guindou a uma posição de destaque na sua área académica, não se pode agora dizer que tenha necessidade de uma reciclagem. E, no entanto, quem ouviu o discurso do candidato não pôde deixar de concluir que se ele não se quer inscrever nas Novas Oportunidades quer pelo menos uma nova oportunidade. Para “recolocar Portugal no caminho da convergência com a EU”, diz ele.
Quer-me parecer forçado que o candidato possa dizer “recolocar” sem que esclareça previamente quando é que Portugal esteve nesse caminho de convergência, quando dele saiu, quais as razões para esse estampanço e como pretende que seja feita a recolocação do país nesse caminho. Bem sei que para a plateia que no final o aplaudiu entusiasticamente este é o tipo de questões que não deve ser formulado a quem sacrifica o conforto de umas pantufas junto aos netos pelo futuro da nação.
Ao longo destes anos de democracia, e por força da minha formação, é verdade que me fui apercebendo das diferentes leituras que a Constituição permite dos poderes presidenciais, mas daí a nelas ver a possibilidade do PR recolocar Portugal no caminho da convergência, vejo alguma dificuldade. E não sou míope.
Também é certo que Cavaco Silva, o candidato, depois de ter renunciado à liderança do PSD e a uma nova corrida às legislativas manteve uma actuação discreta: regressou às suas aulas, conferências e seminários e a última intervenção com algum fulgor fê-la nas páginas de um jornal. Por sinal numa altura em que uma coligação entre o PSD e o CDS/PP, ainda sem submarinos, se procurava manter à tona da água, enquanto alguns dos seus iam tratando da vidinha antes que a crise que agora se instalou chegasse.
Cavaco Silva, o candidato, achou por bem esclarecer que Portugal retomará esse caminho apoiado na sua experiência e conhecimento. A plateia ficou convencida, o que é absolutamente natural num país que tem medo de questionar os poderes instituídos e vindo de quem, como o candidato, afirmou sem gaguejar ser fundamental que as pessoas “confiem nas suas instituições e nos seus dirigentes” e que “as nomeações não podem ser baseadas em filiações partidárias ou simpatias partidárias”.
Quanto a esta parte eu estou de acordo. Não tenho feito outra coisa durante toda a minha vida senão dizer isto mesmo. Mas eu sou eu. A responsabilidade que tenho advém da minha intervenção cívica. Do que digo, do que faço e do que escrevo.
Acontece que é aqui que a porca torce o rabo. Não é preciso, como eu dizia no início, recuar muito. Não é preciso recuar a 1985/1995 para perguntar: Que fez Cavaco Silva entre 1995 e 2010 para impedir que Portugal fosse divergindo da UE? Liderou um partido? Candidatou-se a primeiro-ministro? Não. Cavaco Silva esteve afastado da “política activa” e foi Presidente da República. E agora o que pretende fazer para inverter a situação? Ser Presidente da República. Para qualquer cidadão atento parecerá um contra-senso. Para Cavaco Silva não será. O candidato apresenta-se agora ao país, menos como um messias, mais como um vendedor de seguros. Antes era o mito da infalibilidade que prevalecia. Agora Cavaco Silva oferece aos portugueses o mito da imprescindibilidade. Da sua e da dos seus homens.
A prova de que Cavaco existe está na leitura do seu manifesto eleitoral, nas suas declarações, na composição da sua Comissão de Honra. Já são mais de seiscentas pessoas. Os números esmagam-me. Eu estou esmagado. Não é fácil esmagar um incréu.
Michels conta aquela história de um príncipe alemão que ao saber que um dos seus ministros tudo fazia para impedir que um funcionário de excepcionais qualidades fosse trabalhar para outro lado, perguntou-lhe se este era imprescindível. O ministro disse que sim, tendo então o príncipe declarado: “Então deixa-o ir. Não quero ter servidores que sejam imprescindíveis”. Por causa dessa e de outras histórias, Robert Michels escreveu que “o imprescindível sobrepõe-se inclusivamente à perfeição” e seguramente que nessa altura não pensava em Salazar.
Nesta parte não pude deixar de pensar em Fernando Lima. E em Dias Loureiro. E na reafirmação de confiança e de imprescindibilidade que o Presidente da República – não o candidato Cavaco Silva – fez em relação a ambos em dois momentos marcantes da nossa vida pública. Não foi há muito tempo. O resultado está à vista de todos. Um acatou essas palavras, quis continuar a ser imprescindível e mantém-se em Belém. O outro preferiu deixar de ser imprescindível, encheu o peito de ar, renunciou ao Conselho de Estado e é hoje arguido num caso de polícia. Dizem-me que feio.
A um primeiro-ministro que promove computadores inquebráveis na Venezuela e a um líder da oposição que oferece sonhos a preços módicos no Calçadão de Quarteira, segue-se a oportunidade dos portugueses votarem num candidato presidencial que lhes quer vender um seguro para a Presidência da República. Eu não gosto de bancos e detesto vendedores de seguros. Nunca estão lá quando é preciso.
Apesar disso, as palavras de Cavaco Silva, do candidato, mesmo que as do Presidente não tenham feito, começam a fazer sentido. Para as pessoas que compõem a sua Comissão de Honra também. É só olhar para a crise. E para eles. Para os seiscentos. E depois olhar para trás.

“Quer-me parecer forçado que o candidato possa dizer “recolocar” sem que esclareça previamente quando é que Portugal esteve nesse caminho de convergência, quando dele saiu, quais as razões para esse estampanço e como pretende que seja feita a recolocação do país nesse caminho” – não querias mais nada, Sérgio?
Estamos no Natal, Teresa.