Sinto-me o garagista do velho anúncio da Dyane. Os acontecimentos passam-me ao lado «e eu a vê-los passar». Para ser franco, quase nem tenho visto os noticiários. Praga fez-me perder a vontade de acompanhar a histeria do quotidiano – e mais ainda de perder tempo a escrever sobre ela. Também, o que raio se tem passado?
António Borges – e, como por cá nunca ninguém pode ter (muito menos emitir) opiniões sem autorização do chefe, Passos Coelho – é crucificado por dizer o óbvio: no ponto a que chegámos, sem desvalorização fiscal ou níveis de crescimento económico inatingíveis (mesmo que houvesse algum dinheiro para os famigerados «estímulos»), a única forma de ajustamento é através da redução de salários ou, mais genericamente, do poder de compra. O processo até já começou há vários anos mas, perante realidades desagradáveis, continuamos a preferir o silêncio – ou declarações de circunstância. Nada de novo, portanto.
Em Espanha, a propósito de realidades desagradáveis (a iminência do colapso financeiro), a preocupação do governo é passar a imagem de que, ainda que os bancos espanhóis precisem de ajuda, o governo espanhol não precisa de ajuda. Com ligeiríssimas nuances ao nível do enredo, já vimos este filme. Nada de novo, portanto.
Em Portugal, num comício de apoio a um partido candidato às eleições na Grécia, Francisco Louçã atribui a culpa de todos os problemas do mundo à Alemanha. À primeira vista, nada de novo. Ainda assim, fico um bocadinho banzado por ele culpar a Alemanha pelas dificuldades da banca espanhola. Terá sido a compra desenfreada de casas de férias em Maiorca e Ibiza por parte de cidadãos alemães a causa da bolha imobiliária? Não fosse esta inércia incapacitante, pesquisaria o assunto.
No primeiro jogo do Europeu de futebol, a equipa portuguesa, repleta de craques quase tão à vontade a domar uma Adidas Tango como as centenas de cavalos de um Lamborghini Aventador ou de um Bentley Continental GT, só começa a jogar depois de estar a perder. Nada de novo, portanto. Por muito que me custe, devo até admitir que o futebol representa bem o país.
Enfim: vale a pena perder tempo a escrever sobre tais assuntos? Nah. Pelo que me parece que ainda não vai ser hoje.

Poder-se-á saber qual o seu salário ?
Pode saber que não aumenta desde 2007 ou 2008 (já nem sei ao certo). Ou seja: sim, estou a perder poder de compra. Mas previ-o. E pelo menos ainda tenho emprego.
Com todo o respeito, não respondeu à minha pergunta. E não, não é cuscquice. è que o meu slário, que também já não é aumentado há mais de três ou quatro anos. é de cerca de 800 euros líquidos mensais. Cortar em quê? Infelizmente dou-me conta de que só as pessoas que auferem milhares de euros menasis é que defendem esta solução – a baixa salarial. É óbvio que uma baixa salarial de 10% num valor de 225000 euros (que, dizem, é o salário do Dr. A. Borges, não”aquece nem arrefece, como soy dizer-se . E já agora, se, como se sabe, a riqueza mundial produzida nunca foi tanta como a actual, qual a razaõ desta filosofia de baixos salários? será que se o circuito de distribuição de riqueza estivesse equilibrado não estaríamos todos mehores?
Creio que não há qualquer argumento de bondade e ou razoabilidade que justifique a desporporção de ordenados/salários que actualmente o statment ultra liberal defende e aplaude. Qual a rzaõa para adeporprção obscena entre slário de 225.000 euros mensaasis e o slário de uma mulher a dias que, conseguindo gerir duas casas/lares de família, permite que os respectivosl elemtnso – casal- estejam mais tranquilamente a exerer a suas profissoes de médicos e assim contribuir para o bem estar ( produtividade) da sociedade e de todos em geral?
Acho obsceno, egoísta e atentatório da dignidade e inteligência das pessoas esta tese “preguiçosa, insidiosa e manipuladora da necessidade de baixar s ordenados das pessoas que já gannham “entre nada e coisa nehuma”.É uma filosofia “fascizante” ( na medida em que se baseia no aviltar económicamente a maior parte da população para se poder”segurar o Estado”).
cblue: não é uma questão de querer ou não querer (as más notícias não se transformam em boas só porque ninguém as refere). Infelizmente, na situação a que nos deixámos chegar, é inevitável perder-se poder de compra. Não é sequer preciso cortarem-lhe o salário nominalmente – basta, como pelos visto tem acontecido, que não o aumentem. E pense em todas aquelas pessoas do sector comercial que ganham um salário fixo mais comissões: hoje, em resultado da redução das comissões, estão a ganhar menos. Já para não falar dos cortes nos salários dos funcionários públicos e do aumento de impostos. A nossa Economia (como, de forma genérica, quase todas as Economias europeias – mesmo a alemã) tem vivido acima das possibilidades, ou seja, a crédito. A partir do momento que o crédito acaba, o ajustamento faz-se para baixo. Infelizmente, por termos apostado na construção civil e no Estado (e, por causa do tamanho deste, em impostos excessivamente elevados para o nosso nível de rendimentos) nem sequer conseguimos, durante os últimos vinte e tal anos, crescimentos anuais à irlandesa com correspondente aumento de salários que agora permitissem ‘encaixar’ cortes sem nos atirar de novo para valores absurdos. Quanto ao euro, a decisão de adesão foi nossa e, no fundo, é um pormenor. É verdade, que, sem ele, nunca teríamos tido acesso ao crédito nos moldes em que tivemos, pelo que a ‘torneira’ teria sido fechada mais cedo e o buraco seria menor. Mas com uma moeda a desvalorizar sucessivamente (como era o escudo e seria o euro se o BCE começasse, como alguns defendem, a imprimir dinheiro novo) também teríamos perdido poder de compra: nenhum país que baseie a sua economia na irresponsabilidade orçamental seguida de desvalorização enriquece. Com moeda própria, o ajustamento apenas é menos violento porque é feito mais cedo e mais frequentemente. Sair agora do euro (coisa cada vez mais provável) também provocaria esse ajustamento: levaria até mais depressa (e de forma brutal) à redução de que fala António Borges. Ou seja: no fundo, o que penso que ele estará a dizer é que, dentro ou fora do euro, seria importante ajustar tão depressa quanto possível para poder recomeçar a crescer. Sendo que, se depois continuarmos a apostar num Estado pesado e financeiramente irresponsável, depressa voltaremos a encontrar-nos num buraco. Caso em que então é mais fácil estar fora do euro, efectivamente. Sempre empobrecemos a nosso bel-prazer, sem chatear ninguém.
Eu admito que não percebo muito de Economia (embora tenha estudado e seja um interessado pela matéria), mas a descida dos salários é uma questão básica. Se não estivéssemos no Euro, a descida seria efectuada através da desvalorização monetária e consequente poder de compra, mas os trabalhadores levariam, nominalmente, o mesmo salário para casa. Num sistema de moeda centralizada, como as pessoas não admitem a baixa de salários, este ajuste é feito através do desemprego. E, embora se ouça falar muito do problema do desemprego, parece-me que a maior parte da população prefere um aumento do desemprego à baixa dos salários, ou seja, prefere igualmente a manutenção no Euro ao regresso ao Escudo. É nestes termos que a discussão deve ser feita e há por aí muito letrado em ciências económicas que não levanta a questão da saída da moeda única para poder continuar a culpar tudo de mau que nos acontece na Alemanha e na Sra. Merkel.
Emanuel: tenho a certeza que ainda percebo menos de Economia mas, sem crescimento (e já agora, sustentável), só há três formas de corrigir: desvalorizando uma moeda própria e aceitando a perda de poder de compra decorrente da inflação (foi o que fizemos no passado), cortando em custos com impacto na competitividade (o FMI bem queria a redução da Taxa Social Única) ou, impossibilitados de fazer isso, reduzir os salários – nominalmente (e o desemprego também força uma baixa de salários nominal ao aumentar a oferta – é por isso que temos licenciados recebendo propostas pouco acima do salário mínimo) ou congelando-os até que o diferencial de competitividade com os países que concorrem connosco diminua. Este último é o processo mais longo mas nós tendemos a preferir o rame-rame das aparências. Tem razão quando escreve que o desemprego também diminui os custos das empresas e que elas (enfim, as que se vão aguentando) poderiam optar por reduzir salários em vez de despedir parte dos trabalhadores – mas creio que, infelizmente, em muitos casos os salários não são suficientemente altos para suportarem cortes.
Quanto ao euro, queremos tudo: uma moeda forte e a falta de rigor que leva a uma moeda fraca. Sair agora seria catastrófico – mas, como parece que se diz na Alemanha, “antes um fim em horror do que um horror sem fim”. Permitir-nos-ia uma recuperação mais rápida e, se não aprendêssemos nada, o regresso à indisciplina – e à garantia de pobreza.