Escuteiros


Paulo Sousa,

A minha filha é escuteira há pouco tempo e Sábado esteve de serviço para o Banco Alimentar.

O dia estava farrusco e pouco convidativo para ali ficarem plantados à entrada de um supermercado, de calções, a abordarem quem passava.

Chegou a casa com várias estórias, que registei. Estava indignada com as pessoas que respondiam logo Não! ainda antes dela ter tido tempo de perguntar se queriam ajudar. Mas vinha também contente porque no seu turno tinham conseguido encher três carros de compras.

A chefe dos Lobitos disse-nos que são os miúdos pequenos que conseguem sempre reunir mais donativos, embora precisem também dos mais velhos para os ajudar. A chefe contou ainda que, além de um saco com diversos bens para o Banco Alimentar, um senhor comprou também uma caixa de bombons, de marca bem conhecida, para cada um dos escuteiros, e que eles foram perguntar à chefe se os podiam colocar junto com os bens doados.

Lembro-me de há uns anos, uma cadeia de electrodomésticos ter lançado uma campanha publicitária com o slogan, Eu é que não sou parvo, e que ilustrava essa passagem com uns escuteiros com ar de parvos dentro de uma dessas lojas. Gozar com os escuteiros é aceitável, tal como o é também com uma série de outras organizações e instituições. Não merecem o tratamento dedicado a algumas minorias, escolhidas a dedo, mas eles não ligam a isso. Dispensam que tenham pena deles e gostam mesmo é de fazer coisas desafiantes.

Nas primeiras noites dormidas fora de casa, acantonados na sede, há sempre uma eventual lágrima derramada na hora de dormir, mas acabam por chegar a casa com aquela indiferença, fingida, de que tal como as pessoas crescidas, às vezes passam a noite fora de casa. Além disso ela tem ainda o gosto de seguir as pegadas do irmão, bem mais batido naquela vida de calções.

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Em algumas actividades são distribuídos em grupos mistos compostos por escuteiros de diferentes idades e é giro ver como os mais novos são ajudados pelos outros. Também cozinham para si próprios, fazem grandes caminhadas a navegar por um mapa, e, como nem todos têm as mesmas capacidades, gosto de ver como tomam conta um dos outros.

Nas festas há sempre uns que tocam guitarra e todos cantam muitas canções. A que eu mais gosto é uma dos Pioneiros que diz: Criança não sou, adulto tão pouco, sou escuteiro e podes confiar em mim.

Quando saem para algum raid, apenas os guias de cada grupo podem levar telefone, que só usam se precisarem de ajuda. Para os outros, o que seria impensável em casa, é ali o normal e lá vão conversando uns com os outros, tal e qual como antigamente.

Nos dias de hoje, em que alguns miúdos com dez, doze ou mais anos, por falta de necessidade, não sabem usar uma faca para cortar um bocado de pão, as capacidades adquiridas nos escuteiros parecem ser de uma escala próxima aos super-poderes.

Nada disto seria possível sem os dedicados chefes. Tomar conta dos filhos dos outros e, gratuitamente, abdicar de tempo livre, apenas para assegurar que, semana após semana, o agrupamento continua a funcionar e que os escuteiros continuam a querer regressar no Sábado seguinte, é algo apenas reservado a pessoas realmente positivas e dedicadas aos outros.

Acho mesmo que o escutismo ajuda a formar pessoas mais capazes e preparadas para a vida. E tem ainda uma outra vantagem, por não ser obrigatório, só lá anda quem quer.

23 comentários em “Escuteiros”

  1. O dia estava farrusco e pouco convidativo para ali ficarem plantados à entrada de um supermercado, de calções

    Não são autorizados a usar calças?

    Acho isso disparatado. Até nos colégios ingleses, tão conservadores, já se autoriza (creio eu) as raparigas a usarem calças em vez de saias no uniforme (elas queixavam-se de que tinham frio nas pernas).

    Lá por Baden-Powell ter sido sul-africano, não significa que todos os escuteiros tenham agora que vestir roupas próprias para um país quente.

  2. Os escuteiros em que a sua filha anda são os católicos ou os não-confessionais?
    Que eu saiba, cá em Portugal há dois movimentos de escuteiros, um ligado à Igreja e o outro não.

  3. Paulo, que grande postal! Não fui escuteira, fui Guia (somos só raparigas) e subscrevo cada palavra. Como a sua filha, tive várias estórias de Banco Alimentar, desde o “vai pedir ao [nome do PM de turno] ao “acho indecente que explorem assim as crianças para pedir, isto é trabalho infantil”, quando já era chefe.

    Fui chefe durante anos, sempre na zona de Lisboa, e as miúdas foram mesmo mudando, em particular, num dos aspectos que refere: a incapacidade (ou o desconhecimento) para tarefas básicas, como usar uma faca, abrir uma lata de atum ou descascar fruta. O outro foi, naturalmente, a explosão das redes sociais e dos gadgets, e para esse não há antídoto melhor do que uns dias em campo.

    Sou muito suspeita, mas até hoje não encontro proposta pedagógica mais completa e mais desafiante do que o escutismo.

  4. Há um espírito que se cultiva nos escuteiros. Mas nem todas as crianças o têm. Por isso, ainda bem que a prática do escutismo é livre e só frequenta quem quer. Dos meus filhos, um chegou a caminheiro e só desistiu quando apenas lhe faltava passar a chefe, função com que não simpatizava apesar de a mãe lhe reconhecer tais qualidades. O outro frequentou durante um ano e concluiu que não era para ele. Não incentivei nenhum dos dois ainda que, depois de inscritos, colaborasse sempre. Havia apenas um trato entre nós: entravam de livre vontade, mas saíam apenas no final do ano se não desejassem continuar.

    1. Andar nos escuteiros por obrigação é mau para o próprio e para os demais. Felizmente não é obrigatório…
      Ser chefe é muito mais exigente do que simplesmente escuteiro. É quase um sacerdócio

  5. Ajudo sempre que posso. São os únicos que autorizo a vender calendários na zona comercial. Um dia, um dos rapazes perguntou-me se eu comprava um calendário por 2,00€. Eu disse-lhe que sim, mas que não ficava com o calendário, que assim contribuía para a venda e que eles
    o podiam revender. Ficaram um tanto atrapalhados e pediram-me para esperar que iam perguntar ao Chefe se podia ser assim. Aguardei sorridente , o chefe assentiu e continuaram a sua tarefa.

    1. Estabelecer contacto com um desconhecido, pode parecer uma coisa banal, mas para muitos jovens é tudo menos isso. Esse tipo de venda, rende-lhes muito mais do que os 2€ da receita. Mais do que pela venda, eles precisam mesmo de tentar vender calendários, tanto como de nem sempre apanharem uma Dulce bem disposta a querer colaborar.

  6. Subscrevo o que concluis neste excelente texto, Paulo. O escutismo é uma escola para a vida numa época em que muitos miúdos chegam a adolescentes sem saberem usar a faca para cortar pão ou (acrescento) amarrar atacadores num sapato. Dois exemplos entre muitos outros.

    Aqui em Lisboa vi de manhã cedo, no sábado, grupos de escuteiros a recolher alimentos para o Banco Alimentar. No supermercado onde estávamos, percebi que houve forte adesão à iniciativa, o que muito me satisfez.
    O mesmo no dia seguinte, na igreja.

    Invertendo a frase célebre do poeta, felizmente “há sempre alguém que diz sim”.

    P. S. – Quanto à tal cadeia de electrodomésticos, merecia ter o nome estampado. Para funcionar como publicidade negativa.

    1. A cadeia de electrodomésticos retirou o anúncio e emitiu um pedido de desculpas. Já lá vai.
      Como acontece em todas as aglomerações de gente, juntam-se muito filho de muita mãe, mas no geral quem alinha em ser escuteiro acaba por ser um bom colega, da mesma forma que quem aceita e é aprovado para ser chefe é gente boa. Tudo isso conforta os pais quando confiam os seus filhos a terceiros. E depois andam sempre a repetir aquela ideia de deixar um mundo melhor.
      Não que seja isso que os move, mas mereciam mais reconhecimento social.

  7. nunca fui escuteiro
    « Chegou a hora do adeus e irmãos vamos partir,
    No abraço dado em Deus, irmãos,
    Vamo-nos despedir.
    Refrão: Partimos com a esp´rança, irmãos,
    De um dia aqui voltar
    Com fé e confiança, irmãos,
    Partimos a cantar.

  8. Nunca fui escuteiro, pois não sou crente na fé cristã, logo não sou baptizado, o que me impede de ser escuteiro. Tenho pena de não ter sido, mais pela formação e pelas experiências vividas.
    A minha filha no entanto é e os mais irmãos mais novos se o quiserem também serão. É uma escola de vida, onde se preza o respeito pelos outros e convívio e em alguns casos reforça-se a educação .
    Sempre Alerta!

    1. Existem escoteiros não confecionais, ou seja, sem ligação à nenhuma religião. Em Portugal distinguem-se pelo O de escoteiros. Noutros países existem também de inspiração judaica e islâmica e provavelmente de outras religiões também. O fundador, BP, quis que o movimento fosse abrangente e conseguiu.
      Eu também não fui escuteiro, mas tive muita pena.

  9. Uma vez escoteiro, sempre escoteiro.

    Não tenho qualquer dúvida em afirmar que foi um movimento que contribuiu para a minha formação como pessoa; que muitas vezes penso que faço o que faço, o que gosto de fazer e como o faço devido à aprendizagem no escotismo; que muitos miúdos têm a hipótese de se tornarem melhores pessoas pela sua passagem pelo escotismo.

    Sempre pronto!

  10. O meu marido foi escuteiro muitos anos, e ainda tem muitos amigos desse tempo.
    São laços fortes que se criam. Diz ele que sempre foi contra a venda de canetas, calendários e autocolantes. Odiava. Defendia que os escuteiros deviam trabalhar para ganhar os fundos. Que deviam fazer coisas que fossem úteis às pessoas (trabalho infantil, diriam alguns).
    Eu, que acho as crianças irresistíveis, compro sempre o que os escuteiros têm para me vender. É muito difícil dizer não. Sobretudo quando são tímidos e se atrapalham todos a falar. Mas preferia que vendessem objectos perecíveis em vez de canetas e brindes. Alhos, frutos secos, bolachas. Isso é que era. Fica a ideia.
    Os meus filhos/as nunca andaram nos escuteiros porque não queríamos que eles tivessem actividades aos fins de semana, para poderem participar nas nossas actividades. 😉
    PS- Muitas pessoas têm anticorpos relativamente aos escuteiros, sobretudo católicos. Os miúdos acabam por comer por tabela. Curiosamente, muitas pessoas também têm anticorpos relativamente ao Banco Alimentar Contra a Fome, que chamam de caridadezinha. Gente com sérios problemas.

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