Escrita feminina


Teresa Ribeiro,

De vez em quando discute-se se faz sentido falar em escrita feminina. Aos que repudiam vivamente esse epíteto recomendo que consultem os blogs e se detenham naqueles em que não existe qualquer identificação quanto ao género do autor.

Depois digam-me se há ou não uma escrita feminina.

23 comentários em “Escrita feminina”

  1. É claro que que se quem escreve diz: fui mordidA por um cão… ficamos a saber que é uma mulher. Mas mesmo sem isso, normalmente sou capaz de distinguir se determinado texto é duma mulher ou dum homem. Engano-me mais vezes julgando ser uma mulher a escrever e afinal é um homem, do que o contrário. Digamos que as mulheres evidenciam muito a sua feminilidade e os homens às vezes imitam-nas.

  2. Eu, que me considero um perito em blogues femininos, garanto que se distinguem à légua pela forma e pelos conteúdos.

      1. Continuo a admirar a sua ironia fina, João.
        Bem patente neste comentário e em tantos outros telegráficos.

  3. As mulheres gostam de se expôr, os homens nem por isso. Evitam falar de si próprios e quando o fazem é por elipses. Essa é, talvez, a maior das diferenças entre a escrita dos dois sexos.

  4. Eu creio que há uma escrita feminina, sim. É natural e inevitável, a meu ver, já que é normal haver uma forma feminina de estar.
    Porém, é igualmente inevitável haver excepções. Agustina Bessa-Luís, por exemplo, sempre detestou que a designassem como escritora: insistia ser “escritor” por a sua obra não apresentar caracteristicas de escrita feminina. Admito que ela tenha uma obra que não evidencia o género, mas não concordo com o exagero a que ela elevou o caso.

    1. Também acho, João, que é natural e inevitável, por isso não percebo porque incomoda tanto a algumas pessoas reconhecer essa distinção, que decorre das nossas diferenças. Nem a Agustina escapa a isso. Por muito que ela discorde, considero aquela sua acutilância e racionalidade bem femininas.

    2. Estou plenamente de acordo. Como em quase tudo, também a mulher se distingue na escrita do homem, e não há que criar problemas nessa distinção. O Mundo seria bem monótono se assim não fosse.
      Quanto à Agustina Bessa-Luís, é uma escritora que sempre se distinguiu pela “diferença” e faz questão disso mesmo.

    1. Claro que também há uma escrita masculina. A existência de uma, implica a existência da outra. A embirração com a expressão “escrita feminina” tem a ver com a ideia, quanto a mim preconceituosa, de que designa uma escrita menor, um subgénero. O facto de não se usar dizer “escrita masculina” também contribui para estas reservas. Mas se não se usa é por circunstâncias históricas. Só a partir do século XIX é que as mulheres começaram a existir na literatura.

      1. A questão está toda aí. No preconceito. No partir do principio que o que uma mulher escreve ser de certa forma menor, por se pensar que só fala de estórias cor-de-rosa ou síndromas pré-menstruais. E depois há que ver se é feminina por ser unica e exclusivamente dirigida a mulheres ou se por ser escrita por uma mulher, que obviamente lhe imprimirá a vivência do seu género.
        Quanto a mim a escrita é universal. Obviamente que o género, idade, ideologia, vivência lhe darão um cunho único. O que é sempre vantajoso para o leitor.

  5. Concordo que existe uma escrita feminina e isso é bem visível nos blogs. No entanto, como alguém já aqui comentou, há muitos homens que têm um estilo que os aproxima muito da escrita feminina. Pode não ser uma característica permanente, mas ela surge quando abordam certos temas.
    Se os blogs fossem todos anónimos, creio que haveria muitas surpresas… até porque há muitas mulheres cuja escrita nada tem a ver com o universo feminino.

    1. Carlos, mas é óbvio que há muitas mulheres cuja escrita nada tem a ver com o universo feminino. Uma coisa não exclui a outra, como alíás reconheces, quando dizes que a escrita feminina se revela com enorme visibilidade nos blogs.

  6. “não existe qualquer identificação quanto ao género do autor”
    Se me permite, e peço desculpa de ser tão assertivo, género é uma categoria gramatical, sexo uma categoria biológica. É só um pequeno pormenor, que faz toda a diferença, como sucede frequentemente com os pequenos pormenores.
    Há tempos, escrevi isto sobre género e sexo:
    http://jose-catarino.blogspot.com/2009/09/sexo-e-genero.html

  7. É evidente que existe uma escrita feminina, tal como existe uma escrita masculina. Nestes tempos de esbatimento forçado de géneros, em que o cânone manda diluir tudo na mesma massa informe, agrada-me registar tal facto.

    1. Não podia estar mais de acordo. O esbatimento de sexos já começa a ser demais, agora até na escrita somos iguais? Acima as diferenças, abaixo as igualdades. Tudo os temas tomam vertentes diferentes, do masculino para o feminino – e é nisso que está o interessante da coisa – penso eu de que.

  8. Concordo com a Teresa. Acho até que a negação da existência de uma escrita feminina (que não tem de ser de uma mulher) é redutora e perpetua a ideia de que o que é feminino é menor, de qualidade inferior quando a literatura (e a blogosfera) está cheia de grandes exemplos de escrita feminina.

    No link em baixo encontra uma ferramenta que prevê o género do autor de qualquer texto utilizando um algoritmo proposto por cientistas israelitas. Traduzi o texto da Teresa “Reflexões pré-matrimoniais” para inglês no Google e colei-o nessa ferramenta que me disse que o autor é homem 🙂
    Fiz o mesmo com alguns posts do meu blogue e em cinco textos, segundo a ferramenta, 4 são de mulher e 1 é de homem.

    Não será ciência exacta mas é interessante e divertido, sobretudo quando os homens a experimentam e recebem sempre o resultado “Female” 😉

    http://bookblog.net/gender/genie.php

    (os textos têm de estar em inglês)

    1. Estamos em perfeita sintonia, Maria N. É assim que entendo as coisas. A rejeição das diferenças subentende, essa sim, um preconceito. E adorei saber da existência dessa ferramenta, que vou passar a usar, desconfio que com bastante frequência. Achei divertidíssimo o meu texto ter sido classificado de masculino. Eh!Eh! Claro que isto não é uma ciência exacta e não é em todos os contextos que revelamos as diferenças quando escrevemos. Obrigada pelo seu comentário.

  9. O poeta e escritor Pedro Sena-Lino, investiga e estuda neste momento, para efeitos de doutoramento, a produção literária feminina portuguesa nos séculos XVI-XVIII.
    E o que ele tem encontrado de textos escritos por mulheres, é absolutamente revelador que as mulheres sempre escreveram, mas nunca foi conhecido e reconhecido, (sobretudo nesta época) salvo raras excepções como a Mariana Alcoforado.
    Assim, este estudo irá destruir a ideia estabelecida, de que a escrita era apanágio dos homens.
    Estou desejosa de conhecer este estudo. Histórias curiosíssimas para conhecer, de certeza.

  10. Teresa

    Gostei muito desta polémica a que já cheguei fora de horas…
    O mais engraçado, no meu caso, é que não me atrai nada essa diferenciação.

    As escritoras mulheres que li e leio tratam dos mesmos temas universais e com a mesma acutilância da que observamos nos escritores homens.
    Diferencio, sim, os escritores dos autores, a verbosidade em forma escrita e a observação e opinião criativa, a auto-promoção negligente e a auto-crítica inteligente.
    Essa é, para mim, a diferença que conta verdadeiramente.

    Muitos autores que admiro nem se inscrevem propriamente numa ou noutra sensibilidade, estou a pensar em Tennessee Williams que disse numa entrevista não ver fronteiras muito definidas entre as sensibilidade feminina e masculina, inscreviam-se mais num continuum.

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