Dezenas e dezenas de páginas nos jornais, horas nas televisões, audições em S. Bento, gritos estridentes, processos judiciais, ameaças veladas, um sem fim de argumentos idiotas. Em causa, dizia-se, estava a liberdade de imprensa, o direito à informação, a independência da jornalista. Menos de um milhão de euros? Nem pensar. E tanta algazarra para quê? Para no fim, fazendo fé no matutino, se selar um acordo de cavalheiros por € 300.000,00.
Pensei que a liberdade de informação valesse mais do que isto e que houvesse princípios a defender. O Estado de direito democrático, por exemplo. Estava enganado. Nos dias de hoje o valor da liberdade e da independência acaba por estar de acordo com os tempos de crise. Já não há processo judicial, já ninguém vai discutir a existência ou inexistência de justa causa. Os princípios reduziram-se a um número redondo e ficou tudo bem para os patrões e para a dispensada. O Código do Trabalho pode não prestar para nada, mas para isto ainda serve.

Quem teve de passar por isto, independentemente dos números, sabe que é assim mesmo.
E se prevalecer a ideia ou filosofia de que um Tribunal de Trabalho ainda defende o trabalhador, consignando-lhe uma série de direitos e uma putativa razão a extrair no futuro, a verdade é que também fazem tudo para haver acordo. Há a Lei, mas tem de ser muito esmiuçada, com tempo e sobretudo com muito dinheiro para aguentar, em simultâneo, um processo em tribunal e uma situação de desemprego.
Não estou a falar do caso MMG, mas longe de mim estar a falar em abstracto.
É mesmo o número redondo que prevalece. Só quem se viu confrontado com isto sabe como é assim e não tem falsos moralismos nem goza com a coisa.
Mas, olhe, ao menos o Sócrates levou a esta despesa, mas não é do erário público…
Caro Zé Luís,
Sei bem o que isso é, por dever de ofício. Mas gostava de vincar um ponto: se uma pessoa como MMG depois do escarcéu que fez está disposta a transigir numa situação como a que ela relatava, sendo certo que é uma pessoa com meios para aguentar uma acção o tempo que fosse necessário , que farão os desgraçados que ganham € 500 por mês quando confrontados com o despedimento?
E ainda há quem diga que com esta lei não se despede ninguém. É como digo, é tudo uma questão de números.
Pois também acho que ela tem meios para manter a pressão nos tribunais. Por exemplo, como faz, e bem, o Carlos Queiroz.
Mas ela não via tão cedo a luz no fundo do túnel e pelo menos vê o dinheiro agora a reluzir.
Concordo que essa treta de pela lei não se despedir é mesmo isso, uma treta segundo a qual as pessoas se julgam protegidas. Aliás, os despedimentos colectivos – basta um mínimo de 5 trabalhadores para se consumar um despedimento colectivo – têm crescido enormemente. E a agravante é que, graças ao católico e liberal Bagão Félix, nem há distinção de empresas com lucros ou deficitárias: quem quiser monta uma encenação e despacha um mínimo de 5 gajos. Easy.