Epifanias


joaomsandre,

Sobre a lista que o Pedro referiu não tenho nada de especial a acrescentar. São escolhas pessoais e as razões para algo mudar a vida de uma pessoa podem ser fundamentais ou banais, o que acaba por explicar porque razão JK Rowling ali aparece (talvez por introduzir livros na vida de uma criança) mas Virginia Woolf não.

 

Aquilo que me intriga sempre nestes casos é a questão “Qual o X que mudou a sua vida?” Seja X um livro, um filme, uma viagem, uma aula ou algo do género, não consigo de forma nenhuma encontrar um X que tenha tido tal influência em mim. Consigo invocar pessoas, possivelmente viagens, reflexões. Um livro ou um filme, algo que é lido ou visto em duas horas ou dois dias não é capaz de despertar em mim tal epifania.

 

Claro, isto sou eu. Consigo imaginá-lo no caso de escritores ou cineastas, pessoas que se decidiram por um determinado caminho devido a um livro. Suponho que todos os escritores consigam encontrar num livro a razão por se terem decidido pela escrita. O meu caso é diferente. Sou engenheiro. Os livros são mundos de maravilhas onde me adoro perder, mas não me mudam a vida. Já cada vez que passo uma ponte…

3 comentários em “Epifanias”

  1. São inúmeros os casos de livros que mudam uma vida, João. Dava até uma série aqui no DELITO. Napoleão – dizem – nunca mais foi o mesmo depois de ler ‘O Príncipe’, de Maquiavel. Pessoa imitou um dos seus autores favoritos, Poe, em parte da obra e grande parte da vida. Marx influenciou as vidas de milhões de pessoas. E Nietzsche também – dizem que até influenciou um certo cabo que combateu na I Guerra Mundial e usava um bigodinho ridículo. Ibsen influenciou legislação sobre os direitos das mulheres. Conan Doyle e Simenon influenciaram tanto (e tantos) que personagens saídos da sua imaginação, como Shelock Holmes e o comissário Maigret, se tornaram mais conhecidos do que os autores. Romeu e Julieta, figuras de papel, seduziram mais do que inúmeras pessoas de carne e osso. E já nem falo dos mundos que se descobrem em cada livro da Bíblia…
    Sabemos sempre de onde um partimos com um livro na mão. Mas somos incapazes de imaginar até onde ele nos conduz. É também isto – é sobretudo isto – que faz o fascínio da literatura.

    1. Viver um livro dá-nos o poder de viver muitas vidas, sair da pele da rotina que abotoamos todas as manhãs e por horas ou mesmo só minutos podermos ser alguém diferente. Um livro pode não ser o X que nos vai mudar A vida, mas oferece-nos a experiência, a sabedoria e o prazer de tantas vivências, que seguramente ficamos mais ricos em vida a cada folha que mudamos.
      A vida segue igual, mas o pensamento, aquele que não há machado que lhe corte a raiz, pode estar no Hindu Kush, bem no meio do Mercado do Bulhão.

  2. Gostava de compartilhar convosco a leitura de um livro, há cerca de 40 anos, por uma garota muito estudiosa e certinha, educada na religião Católica Apostólica Romana.
    Chama-se “Eram os Deuses Astronautas?” De Erich von Däniken.
    Para alguém que estudava a verdade da bíblia, com missas em latim, leituras, citações, comunhões, crismas , jejuns e outras inerências á mistura, foi libertador.
    Naquela altura foi uma espécie de Pedra de Roseta em termos de religião, mas o tempo ajuda muito a esbater as ideias inconsistentes e radicais.
    Mas foi libertador. Completamente.

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