Negar à sociedade qualquer responsabilidade, ou até a própria existência não é, porém, uma tese menos absurda que a da esquerda idealista que a todos perdoa, imputando as culpas das falhas humanas ao sistema.
As reflexões que os tumultos do Reino Unido suscitaram à direita e à esquerda confirmam que o mundo pode estar a mudar, mas o pensamento não. Enquanto os miúdos partiam montras na rua, os analistas vestiam as camisolas dos respectivos “clubes” e atiravam aviõezinhos de papel uns aos outros despejando as cartilhas da direita e da esquerda que já conhecemos de cor. Em tempo de crise, quando vemos o mundo que conhecemos a ameaçar ruir, estranho esta aparente falta de interesse em tentar perceber o que se passa. Deve ser reactivo este retorno ao discurso vincadamente ideológico que parece estar a voltar em força. O problema é que implica sempre alguma desonestidade intelectual, porque é, por natureza, redutor. Entretanto a História, que não é rapariga para se empatar com estas coisas, vai fazendo o seu caminho. E que depressa que ela vai. Receio que mais uma vez nos ultrapasse pela direita e fique a rir-se de nós.


Teresa,
As ideias têm séculos e no adn são as mesmas. Aristóteles contra Platão, Espinosa contra Kant…
O que me espanta nisto tudo é que há um “desvio” no discurso secular. Com maior lata, hoje muitos entendem que não é preciso fazer nada para se ter. Muitos entendem ter direito ao gratuito, suplantando a regra básica do monoteísmo: crescei e multiplicai-vos. Produzir. Trabalhar.
Uma verdadeira confusão entre desejo e direito.
Torcato, esse é apenas um dos aspectos sobre os quais devemos reflectir. E não, não me parece que imputar as “culpas” destes comportamentos desviantes ao Estado Social seja o suficiente para arrumar a questão.
Teresa, essa frase tem ainda uma outra (para mim) função: recordar o papel subsidiário e funcional do Estado, que, deixado em certas mãos, tende a dirigir-se para um ente colectivo imaginado pela elite que o governa e já não para os indivíduos. Mas isto é toda uma discussão. E sim, eu sou um claro admirador da senhora 🙂
bjs
Adolfo, é claro. A esquerda tem o idealismo, a utopia como meta…só que pretende-a num presente, ou à força (revolução) ou pelas relatividades aproximadas (social-democracia) imaginando tal temporalidade.
Adolfo, então se me permites eu contraponho à tua admiração pela Thatcher a minha por Olof Palme. A social democracia, de que ele foi um notável obreiro, associou a economia de mercado ao Estado Social com um resultado notável. Desse modelo saíram, na Escandinávia, sociedades que ainda hoje são apontadas como o expoente máximo da civilização. Eu sei, eu sei, que a nossa realidade demográfica tornou inviável a replicação desse modelo, mas acredito que ainda será possível juntar o melhor dos dois mundos.
Grave, grave, é essa “aparente falta de interesse em tentar perceber o que se passa”.
É isso, Cristina. A disputa ideológica não é desporto que se recomende em tempos de crise como os que atravessamos.
Teresa, a sabedoria do povo é quase sempre certeira: “Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”. Vivemos tempos de pouco pão, e já nem o circo nos anima. Cada um escuda-se, por puro medo, no seu quintalinho ideológico para agarrar-se a qualquer coisa. E não percebe que essa “qualquer coisa” tem de ser reinventada, e só depois pode ser agarrada por quem a reconstruíu. Tudo o que é muito básico escapa ao entendimento geral.
Reinventar, eis a palavra. E não me venham com cinismos e pragmatismos, alegando que já tudo se inventou. A História está cheia de bons exemplos de inventiva que não por acaso emergem em momentos de crise. É preciso reinventar a sociedade lutando pela manutenção das nossas mais importantes conquistas civilizacionais. Incluo nelas o Estado Social, sim.
Concordo. Mas também para ele são precisas novas ideias que o viabilizem, novas regras.
É aqui que entra a palavra que usaste: reinventar. E isto não é conversa da corda. Há formas de viabilizar o Estado Social. Nao é fácil, claro e depende sobretudo da vontade política.
E é por isso mesmo que não é fácil.