Enamorada


Teresa Ribeiro,

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Há livros pelos quais nos apaixonamos e que lemos já não com prazer, mas com volúpia. Adiando no último terço o seu desfecho, sofrendo por antecipação o momento em que temos de os devolver à prateleira. Com “Coração Tão Branco”, senti um desses enamoramentos – para citar outro título do autor, o espanhol Javier Marias. Dele li com entusiasmo outros títulos. Todos me revelaram talento para urdir enredos e construir  personagens complexas, que página a página se retratam, num striptease delicado. Mas este romance, amplamente premiado, coloco-o no meu pequeno altar privado, porque me revelou o que eu sabia e não sabia, mas por palavras que jamais conseguiria juntar, tal a subtileza, inteligência e elegância da escrita. 

 

Estou para aqui a falar de forma, mas o conteúdo é o melhor. Passo a citar:

“Guarda silêncio quem já tem alguma coisa e corre o risco de a perder ou está prestes a conquistá-la”;

“Há muitos homens que julgam que as mulheres têm necessidade de se sentir muito queridas e aduladas, inclusive mimadas, quando o que mais nos interessa é que nos entretenham, isto é, que nos impeçam de pensar demasiado em nós próprias. Esta é uma das razões porque costumamos querer ter filhos”;

“Abdicamos da linguagem da infância, abandonamo-la por ser demasiado esquemática e simples, todavia aquelas frases descarnadas e absurdas não nos abandonaram por completo, mas subsistem nos olhares, nas atitudes, nos sinais, nos gestos e nos sons”.

 

A tentação é continuar, mas chega. São bons exemplos do que o autor consegue fazer. Através das personagens introduz com habilidade inúmeros pontos de reflexão e vai fundo, nós a reboque, inebriados pela sofisticação musical de cada frase. 

Sim, estou enamorada, mas não sou egoísta e partilho: se não leu este romance que Javier Marias escreveu em 1992, ainda vai a tempo.

11 comentários em “Enamorada”

  1. Ainda não li nem nenhum desse autor, mas vou ler a principiar pelo que refere.
    Muito obrigado pela partilha.

  2. Tenho dois livros do autor ainda por ler. Mas nenhum é esse. É sempre bom saber de nomes com que podemos contar no mundo das letras. Mas já digo que não concordo muito com esses bocadinhos de prosa. Mas para gostar de uma escrita não é necessário concordar com ela, não é mesmo.

  3. Já o li também.
    Tem passagens e frases lindíssimas, até apetece sublinhá-las.
    De Javier Marias leio sempre a coluna “La Zona Fantasma” no El País Semanal.

    Também gostei muito de “Os enamoramentos”, tenho gravada esta parte:
    “Ignoramos o que o tempo fará de nós com as suas finas camadas que se sobrepõem indistinguíveis, ignoramos em que é que nos pode transformar. O tempo avança sigilosamente, dia a dia e hora a hora e passo a passo envenenado, não se faz notar no seu sub-reptício labor, tão respeitoso e cauto que nunca nos dá um empurrão nem um sobressalto. Aparece todas as manhãs com o seu semblante apaziguador e invariável, e garante-nos o contrário do que está a acontecer: que está tudo bem e nada muda, que tudo está como ontem – o equilíbrio das forças -, que nada se ganha e nada se perde, que a nossa cara é a mesma e também o nosso cabelo e a nossa figura, que quem nos odiava continua a odiar-nos e quem gostava de nós continua a gostar. E a verdade é que é precisamente o contrário, simplesmente ele não nos permite dar por isso com os seus traiçoeiros minutos e os seus astutos segundos, até que chega um dia estranho, impensável, em que nada é como sempre foi”.
    Lendo a primeira página de “Amanhã na Batalha pensa em mim” comprei logo o livro sem hesitar. Adorei.
    Tenho na lista para ler “Bera Isla” e “Tomas Nevinson” (ainda não editado em Portugal).

    Como ele é de um espírito livre e não alinha no novo discurso do “novo politicamente correcto”; infelizmente não é um escritor muito querido aqui em Portugal, muito por culpa do sectarismo esquerdista dos comentadores e colunistas aqui do burgo.
    Merece ganhar os 3 próximos prémios Nobel em 3 anos consecutivos. Um tri-Nobel.

    1. Mas que citação magnífica! E por acaso até li “Enamoramentos”. Foi o primeiro que li deste autor. Depois de ler este excerto, apeteceu-me lá voltar. Tenho o “Coração Tão Branco” todo sublinhado 😉

    2. Por acaso, encontrei hoje o meu último caderno de citações. Fui verificar e tenho cinco páginas de Coração tão Branco! Eu nunca escrevo nos livros. É um tabu. Mas antigamente copiava as frases que mais me tocavam.
      “ … a verdade é que nada se afirma é tudo se vai perdendo. Ou talvez nunca tenha havido nada.”

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