Emoções #5


Maria Dulce Fernandes,

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Tex Willer e o Signo da Serpente

Por volta dos meus quinze ou dezasseis anos, todas as sextas-feiras depois da escola eu ou o meu irmão íamos à CaJor e trazíamos emprestadas as novidades aos quadradinhos da semana.

Desde os fascículos do Tintin, com publicações como o Blueberry, o Michel Vaillant, o Olivier Rameau, o Cubitus,  Blake & Mortimer, etc, passando pelos Almanaques Disney, o Falcão com o Major Alvega e o Ene 3 e, naquela altura particular, os livros do Tex Willer.

Estranhamente, nunca fui fã de cowboiadas e dispensava westerns, porque partia do pressuposto errado de que quem viu um, viu todos, mas a história da Serpente Emplumada, passada na Mesoamérica com muito sobrenatural e o culto Quetzalcoatl à mistura, era por demais emocionante para pôr de parte por um capricho de julgamento.

Era uma festa à sexta-feira à tarde poder sentar-me nas almofadas encostada à cama, com um enorme prato de torradas com manteiga e geleia de marmelo caseira, garrafa do leite à mão e uns poucos de livrinhos para também devorar e actualizar a narrativa gráfica, que me iria deixar numa emocionante expectativa durante mais sete dias.

Ler sempre foi uma emoção. 

Ler BD ainda é uma emoção redobrada.

Acabámos por coleccionar todos os livros com as aventuras do Tex Willer, que muito mais tarde foram oferecidos a uma instituição quando a minha mãe mudou de casa. De algum modo, aprendi com a sua leitura a ver westerns sem ter em conta apenas o preconceito do enjoativo índio-bandido/cowboy-herói, mas sobretudo a arte da sua concepção.

Há pouco tempo um amigo emprestou-me o Signo da Serpente.

Eu ainda sei toda a história de trás para a frente, mas, como tantas outras histórias em tantos outros livros lidos e relidos, foi uma indescritível emoção voltar a ler.

8 comentários em “Emoções #5”

  1. Lembrei-me disto:
    «13 de Outubro de 1940
    Morreu ontem Tom Mix. Dou a notícia aqui para que os vindoiros saibam ao menos o nome do maior Quixote do Far-West»
    Miguel Torga Diário, Volume I

  2. Isto é o que se chama nostalgia. Os meus tempos de infância foram passados não a ler mas a fazer.
    Tinha para aí 15 anos, e se queria dinheiro tinha de o arranjar. Trabalhei para a Agência Portuguesa de Revistas e fazia de tudo um pouco. Mas o que fazia mais eram os Mundo de Aventuras; títulos, capas, alterar a escala, traduzir. Tudo feito à mão, a tinta da china, na mesa da casa de jantar dos meus pais. Os balões das legendas, alguns também eram à mão porque a letra da máquina de escrever era muito grande e não cabia.
    Velhos tempos.
    Obrigado pela recordação.

  3. A BD tem esse belo carisma.
    Há livros que já li centenas de vezes e sempre que os revisito encontro algo que jamais havia visto.
    De “coboiadas” sempre adorei o Lucky Luke especialmente na época em que Morris fazia parelha com Goscinny. Depois passei para “Comanche” e curiosamente ando a ler Tex Willer.
    A BD é uma perdição para mim.
    Bom Domingo.

    1. É realmente uma perdição José. Todos os anos releio todos os Corto Maltese . Depois vou alternando com os Passageiros do Vento, os Companheiros do Crepúsculo , o Ciclo de Cyann.
      Adoro o Pratt e o Bourgeon. Também gostava mais dos antigos Lucky Luke. O Goscinny era um fabuloso argumentista, característica bem patente também nos Astérix, que até perderam imenso com as traduções.
      O Tex Willer é muito bom. Boa leitura!
      Os meus heróis trazem com eles a áurea adolescência , renovam-na e reanimam-na.
      Bom Maio e FDS

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