Emmanuelle


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Anteontem fiz um zapping para acompanhar o cigarro antes de me deitar. E dei com este “Emmanuelle” a começar na CMTV. Nunca o vira e não pude resistir. Assim, nestes meus 56 anos estreei-me a ver o mítico filme. E logo nesta mesma sala, casa onde cresci, assim a ainda mais me lembrar quando há 45 anos meus pais e seus amigos debatiam o filme – ao qual agregavam o então célebre “La Grande Bouffe”, coisa diferente é certo, mas mesclável nos debates naqueles tempos pós-censura.

Enfim. Só para dizer que ainda bem que fiquei a ver, até às 4 da manhã!!! É que este “Emmanuelle” é (e decerto que já o era na época) muito mau. Mesmo muito mau, e sob todos os pontos por que se lhe queira pegar. Pior, bastante pior, do que eu imaginava.

É quase inacreditável o impacto que teve, que tenha havido tempos e gentes tão cândidos (e não falo de sexualidade) na geração anterior. É mesmo quase tão inacreditável como haja hoje quem pense da mesma maneira, na adoração do “espantar o burguesote” ou de uma qualquer “pureza moral”. Mas, de facto, nesta terra de grupelhos e abespinhados não faltam motivos para que os nossos filhos se venham a rir de nós, como sorri eu a estas minha memórias. Daqui a uns anitos, quando virem o mundo.

Adenda (intimista): reajo ao “Emmanuelle” e constato (mais uma vez) que estou igualzinho ao meu pai António. Mas ele, seu mérito, logo naquela altura.

23 comentários em “Emmanuelle”

  1. Estou em crer que a moça da capa pensava o mesmo que o jpt. Fico com a impressão que ela no intervalo da rodagem preferia rezar o terço. Aquele colar com contas é uma mensagem subliminar para dizer que o tempo seria mais bem empregue.
    Pela posição dos dedos na conta do colar, dá-me a sensação que os intervalos eram longos e mais bem utilizados.

  2. Meu caro: já vi o filme e li o livro.
    Acredita: o livro é muito pior. De um pedantismo porno-chic de que só os franceses são capazes. Cobrem-se de ridículo e nem percebem.

    1. “De um pedantismo porno-chic de que só os franceses são capazes. Cobrem-se de ridículo e nem percebem.”

      Les français sont cons mais ça c’est pas grave. Vraiment grave c’est qu’ils ne le savent pas.
      (dito por um saudoso parente doutorado em França mas não sei se é original)

  3. «Aos domingos, como já referi, o país está imerso num estado de não-existência e não dá sinais de vida. Hoje, porém, influenciado por um pressentimento incompreensível, o comandante Farrusco tem andado à procura do seu motorista, António, desde manhã, e António acaba por aparecer sozinho, sonolento e quase desfalecido de exaustão. Farrusco ordena-lhe que se sente ao volante e, no mesmo jipe Toyota em que regressei de Pereira d’Eça, vão estrada fora, pelo mato. Pouco depois, avistam qualquer coisa por entre os raios de sol, que quase poderia ser um fantasma, mas que rapidamente ganha contornos e se revela como uma coluna alargada de blindados, sobre os quais paira um helicóptero bojudo, quase imóvel. Mais um instante e soa o matraquear nervoso das metralhadoras. Farrusco fica gravemente ferido, com os pulmões trespassados. António é atingido na perna, mas não perde os sentidos. Faz inversão de marcha e precipita-se na direcção oposta com o seu comandante em estado grave.
    A coluna avança para o lado de Pereira d’Eça. Os soldados vão escondidos dentro dos veículos, mas deve estar quente e abafado, porque — contrariando as ordens — aqui e ali, num número cada vez maior de veículos blindados
    de transporte de pessoal, abre-se a escotilha e aparece um rosto jovem e moreno.
    E em Luanda? O que há para fazer ao domingo na nossa cidade abandonada, cuja sentença — como vem a saber-se — já foi decidida? Pode-se dormir até ao meio-dia.
    Pode abrir-se a torneira e verificar — ah! —, no caso de haver água. Pode uma pessoa pôr-se em frente ao espelho a pensar: tantas cãs que já tenho na barba.
    Pode uma pessoa sentar-se diante de um prato com um pedaço de peixe nojento e uma colher de arroz frio.
    Pode-se andar, transpirando de fraqueza e do esforço, pela Rua de Luís de Camões, em direcção ao aeroporto, ou descer até à baía.
    No entanto, isto não é tudo — também se pode ir ao cinema! E verdade, porque ainda temos um cine- teatro, apenas um, é certo, mas é panorâmico e ao ar livre e, ainda por cima, grátis. O cineteatro fica na zona norte da cidade, perto da frente de combate. O proprietário fugiu para Lisboa, mas o projeccionista ficou, assim como tuna cópia do famoso filme pornográfico Emmanuelle. O projeccionista mostra-o em sessões contínuas, umas atrás das outras, grátis para todos, e há sempre multidões de miúdos e de soldados que chegam da frente, a lotação está sempre esgotada, há atropelos e alvoroço e uma boa disposição indescritíveis. Para realçar o efeito, o projeccionista interrompe a projecção nos momentos mais escaldantes.
    A rapariga está nua — interrupção. Ele possui-a no avião — interrupção. Ela possui-a na margem do rio — interrupção. O velhote possui-a — interrupção. O pugilista possui-a — interrupção. Se ele a possui numa posição absurda — risos e bravos da audiência. Se a possui numa posição de exagerada sofisticação, a audiência fica calada e analisa as imagens. Há tanta boa disposição e algazarra, que se toma difícil ouvir o eco pesado e distante da artilharia na frente vizinha. E, claro, não há maneira — não por causa de Emmanuell, mas devido à grande distância — de ouvir o rugido dos motores da coluna blindada que se desloca ao longo da estrada.»

    In: KAPUSCINSKI, Ryszard – Mais um dia de vida : Angola 1975. 2.ª ed. Lisboa : Tinta-da-china, 2015. pp. 124 -126

    1. Peço desculpa pela gralha:
      “O proprietário fugiu para Lisboa, mas o projeccionista ficou, assim como tuna cópia do famoso filme pornográfico Emmanuelle.”

      isto é

      “O proprietário fugiu para Lisboa, mas o projeccionista ficou, assim como uma cópia do famoso filme pornográfico Emmanuelle.”

  4. Nunca li o livro, o filme é realmente muito fraco, mas como se diz agora “é necessário enquadrar”: Em 1974 o interesse era ver Sylvia Kristel “descascada” 🙂

    Pedro

  5. Na altura devia ser complicado aceder a maminhas ao léu ou ver moçoilas em actividades de auto-satisfação. Qualquer coisa era um happening, se na altura os houvesse.
    Lembro-me do pessoal andar doido à cata de vhs do Porky’s, uma peça proibida, víamos aquilo como se do melhor e mais raro filme do mundo se tratasse.

  6. Lembro-me perfeitamente de quando, em Luanda, ele apareceu nos cartazes de um cinema: eu tinha 13 anos e ele foi o responsável por uma das primeiras noites em que os meus pais até me atribuíram a responsabilidade de ser o “dono da casa”, o que até se enquadrava com os tempos que corriam… Portugal (e claro, as suas colónias) respirava(m), finalmente, com quase uma década de atraso em relação ao “decadente” Ocidente, uma liberdade pública de costumes que lhe(s) permitia, por exemplo, ver finalmente o “escandaloso” Último Tango em Paris ou até o “subversivo” Easy Rider, sem “soluços” provocados pelos cortes da censura oficial. Por algum motivo que não posso descortinar qual terá sido, Emmanuelle foi um desses poucos filmes-transgressão que não terei visto no período em que ele até deveria ter sido visto. Vi-o uma década depois, para aí em 1985 (ou 1986?) e, mesmo nessa altura, achei-o um filme fundamental para perceber a época em que ele apareceu, mais “escandaloso” do que o Último Tango em Paris mas muito mais “púdico” do que, por exemplo, o Garganta Funda (ou até o, realizado por outra abordagem estética de “transgressão”, O Império dos Sentidos), mas lá está, uma década depois até era apenas o que na altura (anos 80), já era convencionado chamar-se de um “soft porno”, a par de outras brejeirices menos mediáticas.
    Hoje, julgo eu, quase que até poderia ser recomendável para qualquer adolescente de 15 anos, por todos os pais que sabem que os seus adolescentes têm uma vida própria e que até proibir fantasias sexuais, não os impedirá de as fantasiar: sejamos sinceros, antes verem repetidamente o Emmanuelle do que qualquer meia de hora da habitual pornografia que eles encontram disponível em cada clique que fazem quando tentam “sacar” aquela música que estão a ouvir neste momento.

    Mas o que acho, definitivamente, interessante neste “post” é, hoje, confirmar como o filme ainda consegue tornar os mais convictos e empedernidos politicamente incorrectos em neo-politicamente correctos: «(…) este “Emmanuelle” é (e decerto que já o era na época) muito mau. Mesmo muito mau, e sob todos os pontos por que se lhe queira pegar. Pior, bastante pior, do que eu imaginava» ou o outro que lhe responde ajudando-o no seu julgamento “moral”, com um toque “qb” pseudo-intelectual-xenófobo, que até a sua “origem” é “muito pior”: «Acredita: o livro é muito pior. De um pedantismo porno-chic de que só os franceses são capazes. Cobrem-se de ridículo e nem percebem.»

    «pedantismo porno-chic»? Não, nenhum dos 2 até se está a referir à, de facto, epopeia “pedante porno-chic” esclavagista que serviu de argumento de E Tudo o Vento Levou ou às “cauboiadas” do genial John Ford, onde os “índios” eram – em 99% dos contratados – apenas imigrantes brancos, “bronzeados” e com perucas que terminavam em tranças e que, como qualquer “bom selvagem”, ululavam como “selvagens maus”… mas lá está, são apenas “obras de arte” típicas daquele período de ignorância que eles até se recusam a reconhecer esse mínimo!

  7. Já não me recordo com clareza do filme.
    Mas estou certo que a candura desses tempos contrasta com a criminalidade violenta que hoje é moeda corrente associada a sexo.

  8. Quer dizer que jpt ficou acordado até às 4 da manhã para ver até ao fim um filme que considera “muito mau, em todos os aspectos”?! Inacreditável…
    Eu, quando topo um filme mau, deixo de o ver na primeira oportunidade…

    1. A explicação é simples: (por ordem) insónias, espírito crítico e uma TV sem controlo remoto… já o Pedro Correia, depois de ter gramado com o filme ainda resolveu “mamar” o “manual de instrução”, claro, tudo apenas para confirmar, em definitivo, que não só ambos eram mesmo “muito maus, em todos os aspectos” como até que este ainda era pior que “muito mau, em todos os aspectos”.

  9. Vi o filme para aí com uns 15 virginais aninhos, e na altura pensei – “ça cést possible?”
    Não sei porquê, lembrei-me desse best-seller chamado “Helga”, que me levou inevitavelmente ao “Weekend Sex” e ao “Gina”.

    Nos dias que correm tudo não passa de uma vista de olhos sobre uns tornozelos desnudados.

  10. Adoro cinema. O filme é pior que péssimo. Mas guardo uma recordação doce desta película. Estávamos em 1975, tinha 11 anos, Emannuelle a par de Garganta Funda foram considerados um marco na afirmação da liberdade liberta pela revolução dos cravos. Estávamos na província, o porteiro do cinema, “ o Tio Varandas”, era o avô do meu melhor amigo e graças à sua generosidade e através de uma artimanha simples: éramos introduzidos no cinema 5 minutos depois de as luzes se apagarem e éramos informados da hora do intervalo por forma a sairmos 3 minutos antes do seu início e a artimanha repetia-se após o intervalo, tive o privilégio de visionar clássicos como “A Rata Borralheira”; “Branca de Neve e os Sete Matulões”; “Garganta Funda” (um clássico intemporal que não envelhece); “Um Filme Doce”; “O Império dos Sentidos”; “A Grande Farra”; “Malícia” onde debutava como musa do cinema erótico italiano, a saudosa Laura Antonelli. Fui um sortudo. Esta vasta cultura porno provocou mais tarde alguns embaraços quando descobri que ao contrário das “estrelas”, a esmagadora maioria das mulheres, não considerava particularmente excitante serem alvo de calorosas nalgadas durante uma … Tudo isto para informar que a sequela de Emannuelle consegue ser bem pior e que os livros (4 se bem me recordo são abaixo de cão mas na época papei-os todos!). Há um par de anos, por brincadeira, escrevi um romance, dediquei-o com todo o carinho ao Tio Varandas e à Linda Lovelace. E há época Sylvia Kristel tinha lugar reservado ao lado da minha actriz favorita: Bette Davis. Até fazia sentido Davis era igualmente a cabra de serviço.

    1. “e há época.. ” Pois, de facto, ele há épocas assim. Quero dizer… adolescências assim. Eu, à época, e com a mesma idade, só “papava” Júlio Dinis, Camilo Castelo Branco e Jorge Amado. No cinema: 007, Os Gladiadores, etc. Ainda bem que nunca tive tais privilégios, nem um avô tão porreiro(?!)
      Com 11 anos?! Estou completamente atarantado, porque não dizer, profundamente chocado com tamanha leviandade. E, já agora, com a falta de vergonha que a sua confissão, neste blogue, demonstra .

      1. Tu devias de ser era um menino do coro da igreja católica.
        Pois eu com 11 anos já via as revistas da Playboy, Penthouse,e da gina que era coisa mais de trolha.
        Com 14 anos em 1984 vi o meu primeiro filme hard-core cassete pirata VHS, “o barco do amor” um cruzeiro do sexo com excelentes cenas, posso dizer até uma verdadeira bíblia do sexo.
        Era o que fazia ter um amigo com um irmão mais velho as escondidas nós víamos tudo.

        1. Esta psicomania de considerar aqueles que se preocupam com o equilíbrio emocional duma criança uns ratos de sacristia dá-me vontade de rir à gargalhada. Não, não era menino de coro,
          nem sequer católico: fui educado por agnósticos liberais. Mas liberdade não é ‘vale tudo’
          Parabéns ‘o modernaço.
          Mas, toma atenção: psicologia não é religião! Infelizmente, a maioria das pessoas nem se dão conta dos males de que padecem – o que é simplesmente lamentável.
          P.S. “Tu devias de ser era…” revela a sua
          elevada literacia e o seu avançado nível intelectual – envergonha qualquer analfabeto, quanto mais um trolha!

          1. Não fiques mais atarantado!!!
            Toma o teu xanax e vai lá papar os teu livrinhos que te elevaram o espírito para uma consciência moral superior.

            Pois …

            Eu hoje fruto de tanto pecado na adolescência, já sou uma alma errante e frequentador assíduo de bordéis….

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