Em Viagem – Parte 2


Maria Dulce Fernandes,

 

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Solingen, perto de Colónia, na Alemanha, era em 1970 uma pequena cidade conhecida como a “Cidade das Lâminas”, fama que granjeou pelos artefactos em aço que produzia, com um sem número de  aplicações várias. Übenstrasse era o Restelo lá do sítio: casinhas graciosas, com jardinzinhos mimosos e floridos, baloiços, gnomos e casas para pássaros. A Line , formada em Germânicas, trabalhava no seu mestrado e também como au pair. Por essa altura, a Frau Engelhardt  estava num cruzeiro  e assim, com seu consentimento, ocupámos as premissas. 

Sempre dados a ambientalismos, os alemães faziam limpezas periódicas à canalização urbana, alturas essas  em que o depósito de água constante em cada casa e sempre higienizado, era cheio por camiões-cisterna para se poder proceder às desinfecções das condutas sem afectar a população que era avisada atempadamente e  também relembrada telefonicamente pelos respectivos serviços  no próprio dia, cedo pela manhã. 

Pois que nós fluentes poliglotas, que de alemão só sabíamos dizer ja e aufwiedersehen, depois de não conseguirmos decifrar o teor do primeiro telefonema, resolvemos algumas ligações depois e por unanimidade,  deixar o telefone fora do descanso. Só quando a mãe reparou que a água estava  apenas a gotejar na torneira é que começámos a associar as ideias, mas já era muito tarde. 

Eu, o pai,  o mano  e a tia propusemo-nos ir ao supermercado e trazer garrafões de água, enquanto a mãe ficava a tratar do menino.  Lá partimos com uma lista de produtos encabeçada pela desejada água, rumo ao supermercado. Claro está que  cirandando por ruas quase iguais, perdemo-nos em todas as esquinas. Chegados junto a uma escola, era ver a Tia Eugénia com o dicionário na mão a chamar os meninos, ao mesmo tempo que apontava “Kartoffel” no dicionário e vocalizava “Hum? Hum?” O meu pai sorria, divertido. O meu irmão ria também. Eu fazia de conta que não era dali… 

A verdade é que a Tia se fez entender muito bem e que nos levaram a um mercadinho no meio de gargalhadas e cantorias.  Aquela rapaziada… foi um fartote de risota. 

Cada um com um saco de papel e um garrafão na mão ao melhor estilo português, regressámos a casa, voltámos perder-nos uma e outra vez, mas não nos passou pela cabeça o quadro que encontrámos à chegada. 

A grande questão é que, como em tudo na vida, só sentimos realmente a falta de algo simples e que consideramos básico no nosso dia a dia quando esse algo de repente nos falta: a mãe estava morta de sede e não havia gota de água em casa. O pai antes de sairmos, propôs que tomasse dois golos  de cerveja. Assim fez. 

A imagem ficou gravada a fogo na nossa memória colectiva: o bebé chorava a plenos pulmões e a mãe também, meio sentada meia de gatas, no fundo da escadaria, sem conseguir encontrar maneira nem força para a subir… O susto foi grande até termos identificado o culpado, uma garrafa vazia de Beck’s  junto aos lava-loiças, da qual, segundo a mãe, tomou dois ou três golos apenas, tendo  a restante birra sido “entornada” pelo Satchmo, o Cocker Spaniel negro da Frau Engelhardt.

No fim do dia, já recomposta do susto, a mãe foi presenteada por todos com o seu próprio garrafão de cinco litros de água e… seis garrafas de cerveja. A relação da mãe com a cerveja nunca mais foi pacífica, mas honestamente, o Satchmo era mesmo bom de birra.

4 comentários em “Em Viagem – Parte 2”

  1. Peço-lhe para não perder a embalagem e que parta para as peripécias dos outros dias.
    Obrigado por partilhar connosco essas suas memórias.

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