
Solingen, perto de Colónia, na Alemanha, era em 1970 uma pequena cidade conhecida como a “Cidade das Lâminas”, fama que granjeou pelos artefactos em aço que produzia, com um sem número de aplicações várias. Übenstrasse era o Restelo lá do sítio: casinhas graciosas, com jardinzinhos mimosos e floridos, baloiços, gnomos e casas para pássaros. A Line , formada em Germânicas, trabalhava no seu mestrado e também como au pair. Por essa altura, a Frau Engelhardt estava num cruzeiro e assim, com seu consentimento, ocupámos as premissas.
Sempre dados a ambientalismos, os alemães faziam limpezas periódicas à canalização urbana, alturas essas em que o depósito de água constante em cada casa e sempre higienizado, era cheio por camiões-cisterna para se poder proceder às desinfecções das condutas sem afectar a população que era avisada atempadamente e também relembrada telefonicamente pelos respectivos serviços no próprio dia, cedo pela manhã.
Pois que nós fluentes poliglotas, que de alemão só sabíamos dizer ja e aufwiedersehen, depois de não conseguirmos decifrar o teor do primeiro telefonema, resolvemos algumas ligações depois e por unanimidade, deixar o telefone fora do descanso. Só quando a mãe reparou que a água estava apenas a gotejar na torneira é que começámos a associar as ideias, mas já era muito tarde.
Eu, o pai, o mano e a tia propusemo-nos ir ao supermercado e trazer garrafões de água, enquanto a mãe ficava a tratar do menino. Lá partimos com uma lista de produtos encabeçada pela desejada água, rumo ao supermercado. Claro está que cirandando por ruas quase iguais, perdemo-nos em todas as esquinas. Chegados junto a uma escola, era ver a Tia Eugénia com o dicionário na mão a chamar os meninos, ao mesmo tempo que apontava “Kartoffel” no dicionário e vocalizava “Hum? Hum?” O meu pai sorria, divertido. O meu irmão ria também. Eu fazia de conta que não era dali…
A verdade é que a Tia se fez entender muito bem e que nos levaram a um mercadinho no meio de gargalhadas e cantorias. Aquela rapaziada… foi um fartote de risota.
Cada um com um saco de papel e um garrafão na mão ao melhor estilo português, regressámos a casa, voltámos perder-nos uma e outra vez, mas não nos passou pela cabeça o quadro que encontrámos à chegada.
A grande questão é que, como em tudo na vida, só sentimos realmente a falta de algo simples e que consideramos básico no nosso dia a dia quando esse algo de repente nos falta: a mãe estava morta de sede e não havia gota de água em casa. O pai antes de sairmos, propôs que tomasse dois golos de cerveja. Assim fez.
A imagem ficou gravada a fogo na nossa memória colectiva: o bebé chorava a plenos pulmões e a mãe também, meio sentada meia de gatas, no fundo da escadaria, sem conseguir encontrar maneira nem força para a subir… O susto foi grande até termos identificado o culpado, uma garrafa vazia de Beck’s junto aos lava-loiças, da qual, segundo a mãe, tomou dois ou três golos apenas, tendo a restante birra sido “entornada” pelo Satchmo, o Cocker Spaniel negro da Frau Engelhardt.
No fim do dia, já recomposta do susto, a mãe foi presenteada por todos com o seu próprio garrafão de cinco litros de água e… seis garrafas de cerveja. A relação da mãe com a cerveja nunca mais foi pacífica, mas honestamente, o Satchmo era mesmo bom de birra.

Peço-lhe para não perder a embalagem e que parta para as peripécias dos outros dias.
Obrigado por partilhar connosco essas suas memórias.
Quem agradece por me ler sou eu, Tiro ao Alvo.
Festas Felizes
Tudo de bom.
Beijinho, Pedro.