Há quem diga que partir também é uma forma de chegar. Chegar a outro lado, a outra gente, a outro mundo. Parafraseando o Pedro Correia, por vezes é receber “um passaporte para a eternidade”. Eu diria que também para a Eternidade, em especial quando se conhece alguém muito especial.
Há quem consiga ganhar esse passaporte ainda em terra, logo quando a vida transborda entre duas palavras, entre uma chávena de café e um duchaise (ou duchesse se quiserem), num olhar que é ao mesmo tempo tímido, maroto e cúmplice.
Durante meses a fio nunca ninguém lhe ouviu um ai. Um simples queixume. E por cada dia que passava admirávamos mais a sua tenacidade. A sua vontade em subir e descer aquelas escadas para poder ir tomar um café à Oceânia. De cada vez que sentia uma ligeira melhoria aperaltava-se e saía. No meu íntimo, eu sabia que eram momentos fugazes e que seriam cada vez mais passageiros. Os pastéis de massa tenra que fizeram as minhas delícias quando a conheci ficavam cada dia mais distantes. Mas não o seu sabor.
Quando cedo soube do fim, que todos sabíamos que chegaria em qualquer instante, para seu descanso e nossa tristeza, senti uma vez mais aquele olhar doce e terno. E recordei emocionado as últimas palavras que lhe ouvi, a ela que nunca entrara num estádio e que sabia que dificilmente me voltaria a ver: “A que horas joga o Benfica?” E a seguir acrescentou: “A ver o que os rapazes fazem.” E os rapazes fizeram.
Depois, sorrateiramente, como quem sabia a hora que lhe estava destinada, foi-se serenamente afastando. O brilho esbateu-se nos seus olhos. Lágrimas nunca ninguém as viu.
Deixou um vazio grande. Ela sabia que ia deixar. A mim, que sou gente como os outros também. E eu não ficaria de bem com a minha consciência se não vos dissesse o quanto gostei de conhecê-la. O quanto lhe estou agradecido pelo vazio que em mim deixou. Não serei hoje um homem melhor, nem um cidadão mais militante ou melhor companheiro. Apenas vejo com outros olhos.
É uma sorte encontrar alguém que nos faz ver com outros olhos. Ela foi capaz de fazê-lo. Sem qualquer esforço, bastando-lhe ser como era. Contrariou todas as ideias feitas. Todos os estereótipos absurdos e imbecis da nossa sociedade. Ainda bem que assim foi. E que me deixou a T..
Foi a antítese da sogra.
Quando voltar a encontrar a M.C. convido-a para um café e um duchaise. Na Oceânia. Pago eu.


Lamento. Mais a mais por te ter inspirado desta maneira. E acrescento a minha amizade de sempre, que se estende a tua Mulher.
Inclino-me perante a profunda sensibilidade da tua prosa e do motivo que a inspirou, Sérgio. Daqui vai um sentido e forte abraço.
Não estando por dentro do contexto do texto, digo apenas que está lindo…
Estou sem palavras e as lágrimas escorrem… não de dor mas de saudade. A M.C. é mesmo como descreveste. Sempre especial para quem a conheceu.
Beijinho, Sérgio (extensivo a T.) Gostei muito do teu texto.
um dos mais belos momentos que pude ler nas minhas viagens pela bloga.
Que homenagem tão bonita e que texto tão bonito, Sérgio. Um beijinho
Lindo, Sérgio. O texto e o sentimento que o inspirou. Um beijo, para ti e para a T.
Um abraço para todos vós, conhecidos e desconhecidos.
Só hoje li… Bela homenagem.
Um enorme beijinho