
Arturo Pérez-Reverte é um dos meus escritores espanhóis preferidos, entre os contemporâneos – a par de Javier Marías e Antonio Muñoz Molina. Autor prolífico, com uma longa tarimba de repórter de guerra, não padece de angústias existenciais nem enfrenta o dilema da ausência de ideias ao ser colocado perante a folha em branco: boas ideias nunca lhe faltam. Por isso ele é também um dos meus cronistas de eleição. Desde logo por se demarcar em absoluto da cartilha politicamente correcta, por negar vénias e salamaleques às bempensâncias de aluguer, por escrever sem reticências aquilo que realmente pensa. E por nunca mandar recados por terceiros nem se refugiar em entrelinhas. Ao contrários de tantos outros, também por cá.
Não esconde a nostalgia de um tempo em que ainda era possível encontrar homens verdadeiramente livres – gente que não se circunscrevia às engrenagens da trituração & consumo nem se deixava manipular por algoritmos. O que não admira: se existe hoje alguém a quem possamos considerar um homem livre, é precisamente o autor d’ A Tábua de Flandres. Que no próximo mês terá mais um livro seu lançado em português: o romance Cães Maus Não Dançam, publicado originalmente em 2018.
Acabo de ler uma excelente entrevista dele à revista do Expresso, muito bem conduzida pela jornalista Luciana Leiderfarb. Merece destaque, merece elogio. E merece ser citada. É o que farei nos parágrafos seguintes: eis Pérez Reverte em discurso directo. Com a devida vénia à autora da entrevista e àquele semanário que saía ao sábado mas passou a sair à sexta-feira.
«O ser humano é a soma daquilo que viveu e do que leu.»
«É impossível digerir bem o resultado da vida se não houver livros que o permitam.»
«A vida como repórter tirou-me ou diminuiu muitas palavras que antes eram importantes, como pátria, religião, Deus. Deixou-me poucas palavras, e entre elas está dignidade, respeito, honra, lealdade. Os cães são isso tudo, sobretudo leais. E a maior virtude do ser humano é a lealdade.»
«Numa luta entre cães, quando um deles se rende, oferece o pescoço ao vencedor e este deixa-o viver. Se o venceu, não o mata. O ser humano é o único que mata aquele que se rendeu. Isso vi-o com os meus olhos, ninguém me contou.»
«Houve um tempo em que havia homens livres. Havia desertos, estepes, bosques, campos, lugares onde o ser humano podia ser dono de si mesmo. Hoje, a televisão por satélite, o telemóvel, as telecomunicações, a internet, mataram o homem livre.»
«A tecnologia cria uma armadilha. Não mata o homem, mas encerra-o. Mete-o num campo de concentração tecnológico levando-o a acreditar que é livre quando não é. O homem perdeu a liberdade no momento em que o mundo se converteu num lugar controlável tecnologicamente.»
«O cão tem sentimentos extremamente refinados, elevados. É sensível ao amor, ao calor, à companhia, à bondade, à maldade. Não há cães maus, há homens maus.»
«O homem peca contra a natureza. Estamos continuamente a cometer pecados contra ela. Se existisse uma moral cósmica, estaríamos em pecado mortal, porque usamos a natureza e a abandonamos. Usamo-la como usamos os cães. A Humanidade vive em pecado mortal há muitos séculos.»
«O mundo é um lugar perigoso e hostil, onde o mal é frequente, onde a ambição, a luxúria e a crueldade são constantes e por vezes não são só características humanas, mas regras cósmicas – porque também o cosmos é cruel, aí estão os tsunâmis, os terramotos, as inundações.»
«Há uma frase que uso há muito tempo: se juntar um malvado com mil estúpidos, terá mil e um malvados. O mal é contagioso, mas, se não houvesse tantos estúpidos, os malvados não teriam tanto poder.»
«Hoje em dia todo o escritor, desde o maior génio da literatura ao medíocre junta-letras, tem sobre si a guilhotina terrível da estupidez.»
«Se tivesse que dividir o mundo em dois grandes núcleos de pessoas, não seria entre bons e maus. Seria entre os que sabem que vão morrer e os que não o sabem. As pessoas que sabem que vão morrer são melhores – são realmente humanas.»
«Vivi uma vida inteira a acumular possíveis “últimas vezes”. Isso deu-me uma forma de olhar o mundo que não pode ser igual à de uma pessoa que não teve esse tipo de experiência. Não é uma queixa: gosto dessa espécie de melancolia, de me sentir incerto. Gosto de ter 70 anos (vou fazer este ano) e continuar a acreditar que no fim da madrugada cinzenta pode não haver nada, pode não haver outra noite. Desse modo vivo organizado, tenho tudo preparado.»
«A escrever ainda posso ser jovem, seduzir mulheres, lutar contra inimigos, bater-me em duelo, viver guerras. Acordo com a ilusão de ser capaz de contar bem aquilo que estou a contar. É um motivo excelente para viver e para envelhecer com dignidade.»

Muito bom!
Se bem que acho passível de discussão essa ideia de que já não há homens nem mulheres livres. Mas concordo com o resto a 100%.
Nunca li este autor. Agora, fiquei curiosa.
Este livro dele prestes a ser posto à venda em Portugal justifica leitura atenta. É escrito na perspectiva dum cão. Em vez de ser o homem a avaliar o cão, é o cão a avaliar o homem.
Outro excerto da entrevista:
«Ver um cão abandonado estremece-me a alma, apetece-me acolhê-los a todos. Um cão que cresceu num lar, numa casa, e de repente se vê na rua perdido, afastado, à procura dos donos, sabe o que é isso? Uma vez, numa bomba de gasolina, vi uma cadela abandonada que, de cada vez que vinha um carro, se aproximava para ver se ali estavam os donos. Fez isto durante cinco anos.»
Também já me lembrei de escrever algo do género, mas não tenho suficiente habilidade literária. O que é mais uma razão para adquirir esse livro.
É duro sentir assim com os animais. Sei o que é isso.
Não os ponho à frente, nem sequer ao lado, das pessoas, mas não penso que estejam tão longe de nós como é habitualmente considerado.
Não há como tentar, Cristina. Felizmente há cada vez mais gente interessada, , um pouco por toda a parte, neste tema da relação entre as pessoas e os animais de companhia. Direi que é hoje um dos raros temas com verdadeiro alcance universal – a par da nossa relação com o meio ambiente, aliás indissociável do anterior.
Às segundas, pontual e obrigatoriamente : Arturo Pérez Reverte, Patente de Corso, Zenda. ( El Semanal ).
JSP
Também nunca falho. Desperta imensos ódios – e está-se completamente nas tintas.
Não conhecia o escritor, mas como me identifiquei com o excerto dessa entrevista vou procurar conhecer.
Obrigado.
Recomendo vivamente. Acredito que vai gostar.
Boa tarde Pedro Correia
Também li e apreciei positivamente a entrevista.
Quanto a sermos livres, é tema sobre o qual se pode dissertar/ conversar sem nunca chegar ao fim.
Pessoalmente, sempre me senti um homem livre e continuo a sentir-me livre, mau grado algumas grilhetas em sociedade. Cedo paguei alguma coisa por ter o nariz empinado a a coluna vertebral direita e no lugar. Ao longo da carreira me quiseram vergar por três vezes, mas não ganharam. Cá continuo, e a coluna bem direita, ainda que ás vezes as S1 e S2 me lembrem que existem. Saúde.
António Cabral
Muito bem, caro António Cabral.
O meu respeito e a minha homenagem.
Gosto imenso dele. Adoro quando se põe a filosofar. A diaba do Club de Dumas , por exemplo , pôs-me a pensar seriamente , é verdade , sobre o conhecimento e outras coisas.
Tem-me acontecido o mesmo.
«A tecnologia cria uma armadilha. Não mata o homem, mas encerra-o. Mete-o num campo de concentração tecnológico levando-o a acreditar que é livre quando não é. O homem perdeu a liberdade no momento em que o mundo se converteu num lugar controlável tecnologicamente.»
lá está ele , com verdades como punhos. comentei antes de ler a entrevista , tanto me entusiasma e agora quero dizer mais uma coisa , detesto , ainda que a use , o menos possível, a tecnologia , exactamente por sentir que é Orwell aplicado. uso dinheiro vivo , tenho um telemóvel da pré história , tenho um pc que só uso em casa. e chega -:)
Eheh… somos quase almas gémeas.
Não conheço, este fim de semana vou procurar.
Arrisco dizer que é um escritor que faz bastante o seu género.
Como diz a Clarisse, gosto daqueles escritores que esmagam as palavras nas entrelinhas.
Fico ainda mais convicto de que lhe estou a fazer uma boa recomendação.
“Sabe qual é o problema? Encontramo-nos na última de três gerações que a História tem o capricho de repetir de quando em quando. A primeira precisa de um Deus, e inventa-o. A segunda ergue templos a esse Deus e tenta imitá-lo. E a terceira utiliza o mármore desses templos para construir prostíbulos onde adorar a sua própria cobiça, a sua luxúria e a sua baixeza. E é assim que aos deuses e aos heróis sucedem sempre, inevitavelmente, os medíocres, os cobardes e os imbecis”
De O Mestre de Esgrima, também em filme com o nosso Joaquim de Almeida.
Perez-Reverte é o meu escritor espanhol de eleição, como já tive oportunidade de referir aqui no Delito. Excelente texto, Pedro. Obrigada.
Excelente citação que aqui nos traz, caríssima colega. Aprecio muito esta sintonia de gostos.
Pensamento sagaz e crítico sobre a humanidade contemporânea. Chapeau!
Sem dúvida. Concordo com a sua definição.
Capitão Alatriste
Isso. Até com direito a verbete na Wikipédia. latriste
https://en.wikipedia.org/wiki/Captain_A
Meu caro Pedro Correia, corro o risco de aconselhar dois livros a quem estará farto de os conhecer, mas estes li-os há anos e estão sempre a vir-me à cabeça: As Benevolentes e A Vida e o Destino. (Mais uma vez, se não os leu) aproveite agora durante o confinamento, e leia os dois ao mesmo tempo. Não é apenas para o talento de ambos os autores para nos darem personagens vivos em duas pinceladas, ou a capacidade de nos emergirem nas situações como se lá estivéssemos, mas também pelos cruéis paralelos das máquinas nazis e comunista. Se já leu, como é provável, fica só como troca de impressões entre quem gosta de livros. Um abraço, José Mendonça da Cruz
Muito obrigado pelas sugestões, caro vizinho. São dois livros que nunca li. “Vida e Destino”, sobretudo, figura há tempos nas minhas prioridades na medida em que tenho a ambição de elaborar a lista dos 100 Melhores Romances do Século XX – ano por ano, sem falhar um.
(Uma lista que, afinal, são duas. Porque tenho uma só para autores portugueses e outra só autores estrangeiros.)
Lista que já quase completei, com a ressalva de que se trata sempre de algo incompleto e muito subjectivo na medida em que nenhum de nós jamais conseguirá ler todos os romances muito bons publicados entre 1901 e 2000.
Darei prioridade ao livro de Grossman. Só espero encontrar uma edição não conspurcada pelo miserável acordês.
Um abraço grato, com votos de boa saúde.
Autor muito cá de casa, como uma série de outros aqui “do lado”, alguns deles quase desconhecidos aqui, perda nossa.
Mas eu sou parcial, já o disse, Antolin…
Abraço
E faz muito bem em manter-se assim parcial, caro Fernando. No melhor sentido do termo.
Forte abraço.
Também adorei ler esta entrevista. Livros dele? Recomendo “O Pintor de Batalhas”. Tão bom, mas tão bom! Lê-se de um trago.
Esse livro não conheço, Teresa. Mas espero conhecê-lo em breve.
Portugal não poderia importar escritores de Espanha?
Não poderão os escritores de Espanha ajudar os de Portugal , assim como os alemães vieram?
Era tão bom… sempre avançávamos .
Pode – e deve.
Aliás há vários escritores que têm casa em Portugal. Antonio Muñoz Molina, por exemplo, que tem um livro recém-lançado entre nós quase todo ambientado em Lisboa.