O falecimento hoje de Soares Carneiro, que os jornais apenas recordaram como o candidato presidencial de Sá Carneiro, constitui motivo para recordar os erros políticos que se pode ter na escolha dos candidatos às eleições presidenciais. Sá Carneiro era um político talentoso, mas cometeu um erro monumental quando escolheu Soares Carneiro como candidato, que nunca teria a mínima possibilidade de ser eleito. Consta que, depois de escolhido, o mesmo decidiu ir visitar Ramalho Eanes ao palácio de Belém para o avisar de que se iria candidatar contra ele. À saída cruza-se com Sousa e Castro, que também ia visitar Eanes. Eanes pergunta então a Sousa e Castro se já sabia quem era o candidato presidencial da AD. Sousa e Castro responde: “Não faço a mínima ideia, meu General”. Eanes diz-lhe então: “Pois olhe que acabou de sair daqui agora”. Sousa e Castro, perplexo, responde: “Então o meu General já está reeleito, como é por de mais evidente!”. Era de facto evidente para todos excepto para Sá Carneiro, que respondia a quem o criticava pela sua escolha que de um mau candidato iria fazer um bom Presidente. O problema é que numa eleição presidencial por sufrágio universal não se vota por recomendação partidária. E só pode ser um bom Presidente aquele que conseguir ser eleito para o cargo.
Passos Coelho ignorou esta verdade elementar e resolveu fazer aprovar uma moção no PSD contra a candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa, num claro intuito de lançar Durão Barroso. A razão era a de temer a imprevisibilidade dos jogos políticos de Marcelo em Belém enquanto que Durão Barroso lhe daria a mesma tranquilidade que hoje lhe dá Cavaco Silva, que até foi capaz de dar seguimento ao mais disparatado referendo alguma vez proposto. A estratégia só peca por um pequeno pormenor não despiciendo: É que depois da sua saída precipitada para Bruxelas e dos desastrosos mandatos à frente da Comissão Europeia, Durão Barroso não tem qualquer hipótese de ganhar uma eleição presidencial nos tempos mais próximos.
Perante o ataque de Passos Coelho, Marcelo decidiu imediatamente pôr as cartas na mesa, anunciando a sua retirada da corrida e denunciando o óbvio: que Passos Coelho queria apoiar Durão Barroso. Lançado para o olho do furacão antes da altura que esperava, Durão percebeu que ia ser transformado no Soares Carneiro de Passos Coelho, pelo que fugiu a sete pés desse destino. Pelo contrário, Santana Lopes multiplicou ataques a Marcelo demonstrando que ainda não desistiu do seu velho sonho de ser candidato presidencial. Só que, depois do seu desastrado governo, as hipóteses de Santana ganhar ainda são menores do que as de Durão Barroso, para além de em Belém Santana Lopes ainda ser provavelmente mais imprevisível do que Marcelo Rebelo de Sousa.
Passos Coelho ficou assim de um momento para o outro sem candidato presidencial para o PSD, e com uma ridícula moção que no Congresso vai cair no vazio. Não admira por isso que tenha vindo a correr dar o dito por não dito, dizendo para quem quiser acreditar que nunca pensou em Marcelo Rebelo de Sousa quando falou num candidato “catavento de opiniões erráticas em função da mera mediatização gerada em torno do fenómeno político“. Já Marcelo assumiu a divergência, anunciando que nem sequer vai ao Congresso, deixando Passos lá a falar sozinho. Marcelo colocou-se assim claramente ao lado da oposição interna a Passos Coelho, e tudo fará para o derrubar, contando que uma nova liderança do PSD lhe dê o apoio que exigiu para as presidenciais.
Temos então o seguinte resultado prático desta brilhante manobra de Passos Coelho: enquanto o PSD tritura sucessivos candidatos, António Costa iniciou já a campanha. Ou não foi isso o Prós & Contras de ontem?


Quando diz que “Cavaco Silva, que até foi capaz de dar seguimento ao mais disparatado referendo alguma vez proposto” parece que não teve presente o estabelecido no art.º 26.º da Lei-quadro do Referendo, que reza assim: Iniciativa – Nos oito dias subsequentes à publicação da resolução da Assembleia da República ou do Conselho de Ministros, o Presidente da República submete ao Tribunal Constitucional a proposta de referendo, para efeitos de fiscalização preventiva da constitucionalidade e da legalidade, incluindo a apreciação dos requisitos relativos ao respectivo universo eleitoral.
Também a pode rejeitar liminarmente, nem sequer incomodando o Tribunal Constitucional com o assunto.
“É que depois da sua saída precipitada para Bruxelas e dos desastrosos mandatos à frente da Comissão Europeia, Durão Barroso não tem qualquer hipótese de ganhar uma eleição presidencial nos tempos mais próximos.”
Este nem nascendo dez vezes, para lembrar a tirada do Jesus (o Jorge, não o Cristo).
“… O problema é que numa eleição presidencial por sufrágio universal não se vota por recomendação partidária…”.
É verdade, mas entretanto, de então para cá, foi incutido no espírito do eleitorado uma cultura sobre as “vantagens” para a esquerda de um Presidente de esquerda … e vice-versa, em relação à direita. Óbvio, mas.
Destruiu-se a noção, mérito e vantagens do árbitro de origem não partidária.
Assistiu-se nos exercícios de PRs no passado, com diferentes origens partidárias, a exemplos, mais ou menos subtis , de arbitragens coloridas. Claro que foram apenas motivo para os tradicionais, óbvios, desopilantes, exercícios de “escárnio e maldizer”.
É inegável por definição. O titular julga uma situação baseado na sua própria formação política. Nem o próprio acredita na imaculada origem das suas decisões presidenciais….
Merecemos, temos necessidade de, candidatos a PR completamente apartidários. Só que, concordo, o jogo está demasiado, demasiado, sombrio.
…Ps . Claro que 2 mandatos é um disparate. O primeiro mandato é inoperante. Tenta-se agradar a Gregos, a Troianos … e ao lojista da esquina. Ridículo.
Mas 7 anos !. Ó homem ! Quatro ou cinco anos dá perfeitamente para ir várias vezes pavonear-se até à China, com uns mergulhitos nas Seychelles durante a viagem de regresso. Poupe-nos.
Sem entrar no essencial da questão de que trata neste postal, acho de muito mau gosto comparar um caso de carreirismo, por legítimo que seja, ao de um soldado que hoje morreu, homem de grande verticalidade e espírito de serviço que, tendo exercido um seu direito, de cidadão, de se candidatar para prosseguir um projeto político, soube aceitar sem alarde o resultado eleitoral e merece por isso um pouco mais de respeito.
José Neto
Uma ligeiríssima dose de péssimo gosto (quase nada, nem se dá por ela) é misturar a morte de Soares Carneiro (em quem não votei), no próprio dia em que aconteceu, com as peripécias da candidatura presidencial do actual PSD.
Estamos a fazer um estudo sobre as Eleições Europeias e precisámos da sua colaboração. Dedique, por favor, alguns minutos do seu tempo para preencher o seguinte questionário. As suas respostas são anónimas e confidenciais. 7M8Y2S9H
Link do Inquérito :
http://www.survio.com/survey/d/Q0P5U5N9S