As notícias da morte do jornalismo são provavelmente muito exageradas. Por estes dias assistimos ao triunfo do jornalismo clássico – aquele que permanece teimosamente como vigilante do poder – nas informações em cascata que são difundidas pelo El Mundo sobre o chamado caso Bárcenas. Um caso que está a abalar de alto a baixo o partido do Governo em Espanha, o PP, e já atingiu pessoalmente o primeiro-ministro, Mariano Rajoy.
A revelação de que o líder do executivo espanhol manteve até Março uma intensa troca de mensagens telefónicas com Luis Bárcenas, o antigo tesoureiro do partido que durante 20 anos acumulou uma imensa fortuna pessoal enquanto ia distribuindo sobresueldos (isto é, pagamentos paralelos) a diversos dirigentes partidários, com destaque para o próprio Rajoy, provocou um terramoto político que levou já ao corte das relações institucionais entre o PP e o PSOE, principal força da oposição.
O caso agrava-se por Bárcenas estar detido por fortes indícios de fraude fiscal e branqueamento de capitais, entre outros ilícitos. As suspeitas de financiamento ilegal do PP que pairam sobre este processo poderão apressar o fim da legislatura em Espanha ou pelo menos a carreira política de Rajoy, ex-vice-primeiro-ministro de José María Aznar e seu herdeiro como líder dos conservadores.
Que tudo isto aconteça graças à investigação do El Mundo, um diário cuja linha editorial é próxima do partido do Governo (e que já havia perturbado o poder socialista, com Felipe González, ao divulgar os escândalos Filesa e GAL, e com Zapatero, ao tornar públicas as actas das conversações secretas entre representantes da Moncloa e a cúpula da ETA), constitui uma vitória do jornalismo. O que teima em permanecer vivo, por mais certidões de óbito que lhe sejam decretadas. O que demonstra ser um legítimo seguidor do histórico Washington Post, que fez tremer e cair um presidente norte-americano, o político mais poderoso do planeta.
O que não se rende, o que não se verga, o que não se cala.


Bom dia,
este post está em destaque na área de Opinião do SAPO.
Cumprimentos,
Ana Barrela – Portal SAPO
Obrigado pelo destaque e pelo aviso, Ana.
Disseste tudo, Pedro.