Eis-me ainda a perguntar porquê


Pedro Correia,

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Faz hoje dez anos, fomos sacudidos pela notícia trágica: a Maria José Margarido morrera num acidente de aviação durante umas férias no Chile, quando o bimotor em que viajava acompanhada por três amigos – dois deles também jornalistas – e uma guia local se despenhou numa região montanhosa.

Mergulhámos num mutismo dolorido. Sobre a ruidosa redacção, sempre fervilhante de conversas cruzadas e estridentes toques de telefone, caiu um manto de silêncio incrédulo e assombrado. Todos olhávamos para a secretária da nossa colega que ainda há dias ali estava, na flor da juventude e um sem-fim de sonhos por realizar. Parecia apenas ausente por breves instantes: ninguém diria que partira numa viagem sem regresso.

A Maria José, especializada em temas sociais, era uma das mais competentes jornalistas da sua geração. Deixou centenas de artigos no Diário de Notícias – onde a vi entrar, tímida estagiária – como  testemunhos  inapagáveis  do seu mérito profissional. Sempre com uma escrita cuidada, meticulosa, muito acima da mediania. Tão discreta como perspicaz, parecia quase pedir desculpa pelo seu talento.

Tinha uma beleza serena e um brilho inquieto que por vezes lhe vislumbrava num olhar fugaz. No último postal que escreveu no blogue Respirar um Novo Ar, com o pseudónimo Celta, deixou esta frase: “Nunca estive fisicamente em Lisboa, não.” Jamais cessarei de me interrogar se aqueles que partem demasiado cedo serão de algum modo tocados pela misteriosa premonição do fim.

Hei-de lembrar-me sempre dela, eternamente jovem. E do silêncio interminável em que o seu imprevisto desaparecimento nos envolveu naquela fatídica tarde, contemplando a cadeira onde ela nunca mais se sentaria.

Já passaram dez anos. Eis-me de novo a perguntar porquê, eis-de me novo sem resposta alguma.

 

Leitura complementar: A morte e o lixo, do Pedro Mexia.

2 comentários em “Eis-me ainda a perguntar porquê”

  1. Cair na queda de um avião de turismo no sul do Chile é um acontecimento elaborado, bom para pessoas sofisticadas e com pecúlio, que passam férias de dar nas vistas.

    A mim uma morte que muito me impressionou foi no verão passado, de uma senhora de meia idade, com marido e dois filhos, que se afogou ao tomar um inocente banho no Guadiana. Uma morte claramente menos sofisticada do que a da queda do avião.

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