Efemérides históricas ao tempo da formação de Portugal (4)


Cristina Torrão,

Faz hoje 872 anos que chegou à cidade do Porto a armada de Cruzados que haveria de ajudar D. Afonso Henriques a conquistar Lisboa.

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Foto © Horst Neumann

Esta minha paixão pela História Medieval leva-me, muitas vezes, a desejar viajar no tempo. E, tendo eu vivido quase duas décadas muito importantes da minha vida (dos 10 aos 27 anos) em Vila Nova de Gaia, perto da Igreja da Serra do Pilar, de onde se tem uma vista extraordinária sobre o rio Douro e a cidade velha do Porto (e de onde foi tirada a fotografia acima), o dia 16 de Junho de 1147 seria um dos meus momentos de eleição. Mas, mesmo sem viajar, não será difícil imaginar a sensação que terá sido a chegada à Ribeira do Porto das 150 a 200 embarcações que constituíam a frota dos Cruzados.

Calcula-se que o contingente contasse cerca de 10.000 homens, distribuídos por várias nacionalidades, não havendo, assim, um líder único. Germânicos e Flamengos rondariam os 5.500 efectivos, capitaneados, respectivamente, pelo conde Arnoldo de Aerschot, um lotaríngio, sobrinho de Godofredo de Bulhão (que fundara o reino de Jerusalém na sequência da Primeira Cruzada) e por Cristiano, senhor de Gistelles, habitualmente apontado como um vassalo do conde Thierry da Flandres. Incluído neste grupo, estariam os contingentes do condado de Boulonge, igualmente vassalo do conde da Flandres.

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Embarcação do tipo coga, característica do Norte da Europa

Os ingleses totalizavam perto de 4.500 homens, divididos em quatro grandes grupos, cada um deles sob o comando de um «condestável». Hervey de Glanville (que teria algum ascendente sobre os outros comandantes) liderava as forças do condado de Norfolk, Simão de Dover liderava os combatentes do Suffolk, André de Londres estava à frente das forças da capital do reino e Saher de Archell liderava um grupo de escoceses e franceses.

A armada transportava ainda vários clérigos, sendo os mais conhecidos Gilberto de Hastings (o inglês que viria a ser escolhido por D. Afonso Henriques para primeiro bispo de Lisboa), o presbítero Raul e os germânicos Winando, Arnulfo e Duodequino de Lahnstein. Os relatos e as cartas destes últimos quatro clérigos constituem as fontes mais importantes sobre o decorrer do cerco de Lisboa.

Não é igualmente de excluir a presença de mulheres, fossem esposas ou companheiras de alguns dos homens, fossem prostitutas, como era habitual nos exércitos medievais.

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Imagem que em tempos usei no meu blogue, sem indicação de origem, mas, como está assinada, resolvi usá-la novamente.

Os representantes dos Cruzados foram recebidos pelo bispo do Porto, D. Pedro de Pitões, que, no dia seguinte, 17 de Junho, fez a sua pregação no terreiro junto à Sé, a fim de os convencer a ajudarem D. Afonso Henriques no seu empreendimento. Nada ficou decidido, mas os estrangeiros anuíram em viajar até Lisboa, a fim de ouvirem o que o rei português tinha para lhes dizer.

A frota partiria a 27 de Junho em direção a Lisboa, ou Lušbuna, mas os Cruzados não foram os únicos a viajar. Na verdade, deve ter-se verificado um verdadeiro êxodo, a partir do Norte do reino. O exército de D. Afonso Henriques contava cerca de 3.000 efectivos, o que, juntando aos 10.000 Cruzados, perfaz 13.000 combatentes. Já vimos, porém, que a frota transportava mais gente. Além disso, calcula-se que, no cerco a Lisboa, se encontravam cerca de 30.000 pessoas, do lado cristão, indiciando que muito povo decidiu rumar a Sul, considerando-se peregrinos em missão de fé. Na verdade, muita gente iria na esperança de uma vida melhor, confiando nas riquezas arrebanhadas aos pagãos e nas terras que D. Afonso Henriques haveria de distribuir, a fim de segurar a conquista.

Penso que este é um momento crucial para a coesão do reino acabado de formar. Estamos efectivamente a falar dos primeiros portugueses da História. D. Afonso Henriques conseguiu mobilizar todo o povo no mesmo objectivo, gente vinda desde a margem esquerda do rio Minho e da região transmontana, passando pelo Porto e pela região duriense até às terras à volta do rio Mondego. Portugal deixava de ser apenas Braga, Guimarães, Porto, Lamego, Viseu e Coimbra, para passar também a ser Leiria, Santarém, Lisboa e Sintra (havia cerca de dez anos que D. Afonso Henriques mandara construir o castelo de Leiria, mas, até 1147, situava-se em pleno território de fronteira indefinida).

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Nota: quem se interessar por este tema, não encontra melhor leitura do que este livro de autoria do Professor Miguel Gomes Martins, do qual tirei muitas das informações publicadas neste texto. 1147 A Conquista de Lisboa – Na Rota da Segunda Cruzada contém tudo o que, até ao momento, é conhecido sobre o Cerco e a Conquista de Lisboa, dando ainda um retrato da situação europeia da época e o papel das conquistas portuguesas nesse contexto.

0 comentários em “Efemérides históricas ao tempo da formação de Portugal (4)”

  1. A conquista de Lisboa aos Mouros- relato de um cruzado, é um livro fascinante como testemunho de alguém que participou na conquista, ao que diz. É um testemunho de alguém que relata os factos, sem sequer tomar grande partido por um dos lados. A descrição do esforço dos cruzados alemães para derrubarem uma das portas e assim serem os primeiros a entrar é notável. Não deixa contudo de se apiedar dos cercados e do sofrimento que o cerco que durou meses lhes causou.

    1. Obrigada pelo seu comentário.

      Eu não quis alongar o post, falando dos cercados, pois a minha intenção foi apenas assinalar a data da chegada dos cruzados e mencionar a romaria que se terá dado no sentido Norte-Sul. Mas o livro que indiquei, além de excelentes informações sobre a Lisboa moura, fala também da situação e da miséria dos sitiados.

      Os relatos dos cruzados são, ainda hoje, a melhor fonte de informações sobre este empreendimento (as cartas dos clérigos germânicos mencionados encontram-se hoje em arquivos alemães). As fontes portuguesas são muito escassas. Ou ninguém se deu ao trabalho de registar os acontecimentos, ou se perderam esses documentos.

  2. Não entendo uma coisa. D. Afonso tinha 3000 guerreiros, os cruzados 10000, mas 30000 pessoas rumaram a sul. As outras 17000, o que foram fazer durante o tempo que o cerco durou? Apanhar sol? Combater por conta própria? E quem as alimentava, quem lhes pagava para irem para sul? O cerco durou muito tempo (creio que dois meses), creio que alimentar pessoas que só estavam ali por estar não deverá ter sido fácil de aceitar.

    1. Ora bem, vou tentar dar pistas, pois, num comentário, é difícil explicar tudo.

      Parte da resposta às suas perguntas está no post: os cruzados eram 10.000 guerreiros, mas, com eles, viajaram também clérigos e mulheres, talvez até crianças (como era habitual), pelo que temos de acrescentar mais alguns milhares. Na verdade, não se sabe bem o tamanho do exército português, entre 3.000 e 5.000 (eu devia ter referido este aspecto, “mea culpa”). A este número, temos de acrescentar as habituais mulheres. Digamos que eram, ao todo, 6.000 e que na armada dos cruzados viajaram 14.000 pessoas. Temos então já 20.000 pessoas.

      Eu não quis alongar mais o post, mas, ainda assim, referi: «muito povo decidiu rumar a Sul, considerando-se peregrinos em missão de fé. Na verdade, muita gente iria na esperança de uma vida melhor, confiando nas riquezas arrebanhadas aos pagãos e nas terras que D. Afonso Henriques haveria de distribuir, a fim de segurar a conquista» – a romagem a Lisboa, para combater os pagãos, atraiu muita gente, pois, como se sabe, na Idade Média havia muita miséria. Muito povo nada tinha a perder, principalmente, trabalhadores sazonais. Calcula-se que famílias inteiras tenham rumado a Sul, assim como jograis, soldadeiras (e outros artistas), mercadores e prostitutas, etc. Era habitual, nesta época, os exércitos serem acompanhados de muita gente. Neste caso, seria ainda mais do que o costume. Por um lado, havia a crença de que os mouros eram riquíssimos e haveria tesouros a distribuir; por outro, esta suposição bem mais real, era certo e sabido que o rei distribuiria terras, a fim de segurar as conquistas (como o fez realmente; muitos dos estrangeiros, bem recompensados, também resolveram ficar). E muita gente deve ter ficado em Lisboa, nas casas vazias de mouros e judeus, que tiveram de se aquartelar fora de muros. Claro que, para muita gente, a empresa não deu os resultados esperados, pelo que terá regressado ao Norte.

      Quanto à alimentação: havia quem levasse consigo animais que possuía: galinhas e coelhos em gaiolas, cabras e ovelhas acompanhavam o corso. Também se podia caçar e, sobretudo, pescar, os relatos dos cruzados referem haver, no Tejo, mais peixe do que o que se podia comer. Além disso, foram encontrados armazéns subterrâneos nos arrabaldes lisboetas abandonados, onde mouros e moçárabes guardavam, pelo menos, cereal, azeite e figos secos. Também muitas aldeias nos arredores foram abandonadas, à chegada dos cruzados, que as saqueavam, além de o fazer a pomares e outras culturas. Havia muitos campos e searas à volta de Lisboa.

      É claro que, se o cerco se prolongasse pelo Inverno, poderia haver problemas no sustento de tanta gente, o que também não era raro. Muitos cercos eram levantados por causa de fomes e epidemias que se espalhavam entre os sitiantes (as condições de higiene não eram as melhores).

      Pode aprofundar toda esta informação no livro que indiquei.

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