Efeitos perversos da cultura azul cueca


Teresa Ribeiro,

Ela está reformada, agora não faz nada. Como a reforma é curta, dispensou a mulher a dias, de modo que para se ocupar limpa e arruma a casa, faz as compras, o almoço, o jantar e apoia a filha, que trabalha muito, ajudando as netas a fazer os trabalhos da escola e acompanhando-as ao ballet.

Ele também se reformou. Agora passa o tempo a dormir e a ver televisão. Ainda apareceu algumas vezes nos jantares de confraternização que os colegas organizam todos os meses, mas depois chateou-se. As piadas eram sempre as mesmas, as recordações partilhadas iguais. A verdade é que já não lhe apetece sair de casa. Os médicos diagnosticaram-lhe há pouco tempo uma depressão.

0 comentários em “Efeitos perversos da cultura azul cueca”


  1. Aqui se vê que os maiores malefícios de uma educação machista acabam por calhar aos homens.

    Isto lembra-me um reformado que conheci há muitos anos. Era pai de um colega de trabalho e, depois de enviuvar, casara de novo, com mais de sessenta anos. Uma vez, ao falar disso, vira-se para mim e diz: pois, eu tinha de arranjar alguém que me fizesse o almoço e lavasse a roupa, senão, como era?
    Ele disse aquilo todo convencido da sua superioridade. Eu só pensei: ser homem é pior do que ter uma deficiência. Acho triste, quando um ser vivo adulto e saudável não é auto-suficiente.

    Outra história, também verídica, bem parecida com a narrada:
    Um homem é atirado para uma reforma antecipada, por imposição da entidade patronal. Não gosta de sair (muitos homens são bichos do mato) e fica em casa, sem saber o que fazer. Os filhos já foram à sua vida e ele afunda-se cada vez mais no sofá. Um dia, a esposa atreve-se a sugerir: podias ajudar-me a tratar do jardim… Ele reage indignado, dizendo que não era trabalho para ele. Nunca na sua vida tinha tratado de rosas e não era agora que ia começar!
    Mas aquilo ia de mal a pior, ele cada vez mais deprimido. E, um dia, em desespero de causa, resolveu arrancar umas ervas daninhas. Entusiasmado com a nova tarefa, dedicou-se tanto ao jardim, que passava os dias lá enfiado e chegou ao ponto de proibir a mulher de o fazer, pois aquilo só andava bem se fosse ele o jardineiro!
    Ela não barafustou. Ele deixara enfim o sofá, mantinha-se ocupado. E ela arranjara mais tempo para os cozinhados e as tarefas domésticas.

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