Efeito do debate?


José Maria Gui Pimentel,

Estava curioso para ver esta sondagem, a 5ª das 8 programadas pelo Público. É certo que parte da amostra foi recolhida antes do debate. É também certo que se trata de uma sondagem, com todas as suas limitações. Mas creio que não será abusivo dizer que sugere o efeito do debate de sexta-feira. As evoluções do PS e do CDS parecem-me, assim, naturais. Já as perdas do BE e, sobretudo, desse paradigma da constância que é o PCP parecem-me reflexo de alguma volatilidade inerente à amostra (que suponho ser variável). Até porque Louçã teve um bom desempenho nos debates, e esteve bem no final da pré-campanha, por exemplo, ao levantar o tema da reestruturação da dívida (que, de resto, é uma sugestão bastante razoável, ao contrário do que Sócrates quer fazer parecer). 

4 comentários em “Efeito do debate?”

  1. Parece-me que existem alguns dados curiosos e que merecem uma reflexão mais aprofundada.

    Tenho para mim que a CDU é a força política com o eleitorado mais estável, mas que tem vindo progressivamente a perder algum eleitorado ao longo do tempo. Nessa medida, poderia ser compreensível uma descida pouco sensível do seu resultado eleitoral, mas não uma descida sensível. Neste último caso, merece reflexão.
    Os partidos do chamado “arco da governação” (o PSD e o PS, bem como o CDS como partido complementar para a constituição de uma maioria) são os que normalmente disputam o “eleitorado oscilante” (o eleitorado que, não tendo um fervor “clubístico” por qualquer daqueles partidos, vai simpatizando mais com qualquer deles de acordo com as circunstâncias, mas que admite votar em qualquer deles – principalmente no PSD ou no PS). É este o eleitorado que acaba por decidir os resultados eleitorais, oscilantes entre o PSD e o PS.
    O BE constitui uma realidade política mais recente, que parece ter surgido como uma derivação do fenómeno PRD (e como evolução do MDP/CDE), embora com vocação menos efémera e com natureza menos conjuntural. Em vez de se posicionar como um partido “consensual” de esquerda (à procura de consensos, ou mesmo como ponte entre as forças políticas pré-existentes), tem-se vindo a afirmar como um partido “do contra”, assumidamente de esquerda (isto é, próximo do PCP em termos de espectro político), com um eleitorado tipicamente urbano. Nessa medida, parece ser o reverso do PCP, ou se preferirmos, um PCP da cidade, um PCP dos não operários (dos funcionários públicos e da classe média semi-aburguesada, ligada ao trabalhadores do comércio ou dos serviços, e a uma certa faixa de eleitorado mais “intelectual”). Parece partir de uma base eleitoral reduzida, dos antigos “não alinhados” pelos partidos tradicionalmente existentes (os surgidos no pós 25 de Abril) e que pretende ir cativando eleitorado à sua direita (aos desiludidos pelas políticas tipicamente de direita que são normalmente levadas a cabo pelo PS) e à sua esquerda (ao PCP – aos que começam a não se rever no aparente imobilismo deste, que historicamente poderá estar condenado à sua quase extinção).

    A ser assim (e não tenho a certeza que o seja), seria normal que, na actual conjuntura política, o PS, por ser o partido que conduziu o país ao caos financeiro que vivemos, perdesse para todos. E, nessa medida, que as suas perdas fossem assinaláveis, não devendo exceder a pior votação que já teve (o que sucedeu nas eleições legislativas de 1985, nas quais obteve pouco mais de 20%). Porém, não é nesse sentido que apontam as sondagens.

    É de salientar o fenómeno PRD, como o mais sintomático do tal “eleitorado oscilante” e do verdadeiro capital desse eleitorado.
    Antes do PRD (eleições de 1983) o PS teve 36% e o PSD 27%. Apenas 2 anos depois (nas eleições de 1985) o PS teve 20%, o PSD 29% e o PRD 17%. Sendo de concluir que o fenómeno PRD se repercutiu quase exclusivamente na votação do PS (até pq naquelas duas eleições a soma da votação do PSD e do CDS se manteve praticamente inalterada, situando-se à volta dos 40%).
    Na eleição seguinte (1987), o PRD foi dizimado (passou para menos de 5%), o PS teve uma subida muito ligeira (subiu 2%, para 22%), o CDS passou para metade (de quase 10% passou para cerca de 4,5%) e o PSD subiu em flecha, de quase 30% para mais de 50%). Ou seja, o tal “eleitorado oscilante” que inicialmente saiu do PS (em 1985) acabou por ir parar ao PSD (em 1987), sendo certo que nas eleições seguintes (em 1991) o PRD desapareceu do panorama eleitoral.
    Nas eleições de 1991 o PSD e o CDS praticamente mantiveram as mesmas votações (50% e 4,5%, respectivamente), enquanto o PS subiu de 22% para 29%, quer à custa do PRD que entretanto desapareceu (na eleição anterior tinha tido cerca de 5%) quer à custa da CDU (PCP e PEV), que desceu de 15,5% para 8,8% (a diferença explica-se pelo PSN, que obteve 1,7%).
    A partir de então a CDU tem mantido a votação em torno dos 7%/8%, o CDS tem recuperado até aos 10,5% das últimas eleições (2009), apareceu o BE nas eleições de 1999 (com 2,5%), que tem crescido até aos quase 10% das últimas eleições (2009). O PS tem mantido votações na casa dos 30%/40% e o PSD na casa dos 20%/30% (tendo chegado aos 40% em 2002, com mais 2,5% q PS)

  2. CONTINUAÇÃO…

    Esta evolução das votações permite concluir o seguinte:
    1- O PRD provocou uma ruptura, tendo conseguido captar em 1985 quase 18% da votação, essencialmente à custa do PS (que desceu 16%), tendo a CDU descido 2,5%;
    2- Esse eleitorado foi-se deslocando para a direita, tendo o PSD conseguido em 1987 50% (mais 20% que na eleição anterior), que manteve em 1991;
    3- A partir de então (de 1995) esse eleitorado voltou a deslocar-se para a esquerda, para o PS, que passou a ter maior votação que o PSD, com excepção da eleição de 2002 (na qual perdeu para o PSD por apenas 2,5%).
    4- A partir de 1991 a CDU tem tido votações abaixo dos 9%; o CDS tem vindo a recuperar desde os 4,5% até aos 10,5% de 2009; e o BE, surgido em 1999 com 2,5% tem crescido até aos quase 10% de 2009.
    5- Ou seja, parece ter havido deslocação do eleitorado do PSD para a direita (para o CDS) e do PS para a esquerda (para o BE), mantendo-se a CDU estável (com pequenas oscilações); o PSD e o PS continuam a partilhar o eleitorado oscilante criado pelo fenómeno PRD, que inicialmente penalizou o PS e que posteriormente tem penalizado o PSD.

    Uma vez que a queda da CDU foi anterior ao aparecimento do BE e tem mantido mais ou menos estável a sua votação, é de concluir que o BE não “invadiu” o eleitorado da CDU. Ao contrário do que sucedeu com o PRD, o BE não parece ser um fenómeno conjuntural mas sim estrutural, invadindo o eleitorado do PS, à semelhança do que sucede entre o CDS e o PSD.

    Com o desgaste governativo do PS, a estatística apontaria para um juízo de prognose de deslocação de uma parte do eleitorado do PS para o BE e da parte “oscilante” do eleitorado que tem votado no PS para o PSD.
    Todavia, as sondagens apontam no sentido de o PS não perder eleitorado para o BE (antes pelo contrário) e de a deslocação do tal eleitorado oscilante para o PSD não ocorrer em massa. Três razões conjunturais poderão constituir a explicação desta “disfunção”: o mau resultado do “matrimónio forçado” entre o PS e o BE nas últimas eleições presidenciais; o facto de se ter vindo a apelar à formação de uma maioria e, preferencialmente, que essa maioria saia do chamado bloco central (PS/PSD e, eventualmente, tb CDS), impedindo o “desperdício” do voto à esquerda do PS; e o facto de o BE (assim como a CDU) terem recusado a ajuda externa e o cumprimento do compromisso assumido com a “troika” (esta talvez seja a principal razão, senão mesmo a única).

    Nesta conjuntura sairão penalizados os partidos que não se dispõem a cumprir o acordado com a “troika” (a CDU e o BE – mas mais este, cujo eleitorado é mais volátil), fazendo o eleitorado deslocar-se para a direita, servindo o PS de tampão à esquerda (perde eleitorado para a direita, que parcialmente compensará com o eleitorado que por aquela via conquistará à esquerda).

    Vaticino, portanto, que o PS não ganhará as eleições, sendo provável que seja o PSD a ganhá-las, embora não consiga a maioria absoluta (mas que esta será alcançável em coligação com o CDS – tal como apontam as sondagens).
    O PS não sofrerá a derrota que merece, quer por causa da transferência de votos dos partidos à sua esquerda, quer por a liderança do PSD não inspirar a confiança suficiente para captar a maior parte do “eleitorado oscilante” que em tempos já foi seu.

    1. Gostei muito dessa sua análise, Alberto.

      Concordo quase por inteiro. Acrescentaria apenas um pormenor. Ficou por mencionar uma diferença importante entre o PCP e o BE : a idade dos seus votantes. O BE vive muito dos jovens, ao passo que o PCP se alimenta das camadas mais idosas.

      Quanto ao eleitorado oscilante (muito interessante a análise do fenómeno PRD ), este de facto parece existir e ser significativo, provocando oscilações entre as votações nos maiores partidos maiores do que noutros países europeus.

      O reverso da medalha deste eleitorado não só alternante como instável é a instabilidade crónica que o sistema evidencia desde o 25 de Abril.

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