E vão dez


Pedro Correia,

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Nada em concreto me revela tanto como é voraz a passagem do tempo como assinalar que se cumprem hoje dez anos da existência deste blogue. O DELITO DE OPINIÃO nasceu a 5 de Janeiro de 2009 com a intenção expressa de congregar no mesmo projecto algumas das melhores penas que abundavam na blogosfera generalista, então ainda em fase de expansão. Pelo menos à luz do meu critério de leitor.

A minha ideia – e não é por acaso que o blogue tem este nome, que logo me ocorreu – era reunir pessoas de proveniências diversas (até geográficas), idades diferentes, profissões variadas, com as mais díspares experiências de vida mas com dois traços em comum: o gosto pela escrita e a apetência pelo debate.

Reunida a equipa em poucas semanas, lançámos o projecto, que deixou de ser meu e se tornou numa plataforma de partilha de ideias e opiniões, aberta à participação dos leitores, atenta ao país e ao mundo. Uma plataforma administrada por todos, sem excepção, a partir de uma carta de princípios divulgada no primeiro dia e com uma regra dominante: aqui não há autores anónimos, cada um assume aquilo que escreve.

 

Os tempos mudaram, sucederam-se ciclos políticos, o País entrou em recessão e saiu dela, a blogosfera foi-se especializando em nichos temáticos, com vários dos seus protagonistas transitando para as colunas da imprensa ou instalando-se em palcos televisivos. Mas este blogue permaneceu, com a sua identidade própria, fiel às metas enunciadas no dia do lançamento. Da nossa parte esperam-se opiniões fortes, uma atmosfera plural, diversidade temática e a porta sempre aberta aos leitores. A tal ponto que alguns se tornaram também autores, passando a integrar a tribo delituosa.

Não foi apenas o mundo que mudou nos 3652 dias entretanto decorridos. Muitos de nós fomos mudando: aconteceram casamentos, separações, vieram filhos, as rotas profissionais foram-se alterando, não faltou quem experimentasse o desemprego. Estabeleceram-se novas relações, muitos projectos passaram do sonho à realidade. Houve tempo de luto, para chorar a morte de dois dos nossos – o João Carvalho e o Joaquim Coutinho Ribeiro.

O DELITO foi ficando. Já não apenas em formato digital, mas desde o ano passado também em livro que reúne textos de vários de nós. Uma antologia que só se tornou possível devido à entusiástica adesão dos nossos leitores, que a reservaram e pagaram por antecipação, numa prova de carinho que jamais esquecerei. Outra poderá vir a caminho, eventualmente com novos autores.

Há tanto por fazer, ideias não nos faltam.

 

De repente, passaram dez anos. O que fica do percurso iniciado em Janeiro de 2009? É ainda cedo para fazer um balanço, que em última análise, de resto, caberá a quem nos lê. Pela minha parte, já é gratificante ter alargado contactos e conhecimentos: hoje orgulho-me de que sejamos acima de tudo um grupo onde os laços de amizade perduram para além do ciclo efémero das estações. Como lembra o escritor espanhol Manuel Vicent, «a imortalidade é esse dom que os deuses depositam na memória dos amigos».

Frase magnífica, que nos pode servir de mote e lema.

0 comentários em “E vão dez”

  1. Parabéns ao DO e a todos os que para ele têm contribuído ao longo destes 10 anos.
    Foi precisamente há 10 anos que, pelas mãos do saudoso Coutinho Ribeiro, aqui cheguei.
    Que venham mais 10, com a qualidade de sempre!

  2. Parabéns ao Delito! 🎂
    Sigo-vos desde 2011, mas foi quando li um comovente texto do Pedro sobre o Fundão que resolvi comentar.
    E já lá vão centenas de comentários, sobre livros, filmes, música, rios, reis, etc. (as famosas séries do Pedro), todos com direito a resposta, imagino com que sacrifício, por vezes…
    Não conhecendo o Pedro pessoalmente, sinto que o conheço e, ridículo, até o tenho como um amigo com quem posso conversar e rir.
    E isto acontece-me apenas com duas ou três pessoas aqui na bloga.
    Vocês, aí desse lado, talvez não tenham noção do quão importantes são para algumas pessoas mais solitárias aqui deste lado.
    Mas são, são mesmo!
    E depois deste momento lamechas, resta-me agradecer-vos, e que venham mais 10!
    ⚘
    Maria

    1. É verdade, Maria. Acabo de nomeá-la membro honorário do Delito. Já escreveu mais, em comentários sempre oportunos e pertinentes, do que vários autores do próprio blogue.
      Apareça sempre, gosto muito de a ver por cá.
      A minha vénia agradecida.

      1. E que bela prenda me deu, Pedro, neste dia de ouro, incenso e mirra.
        Completamente inesperada e, por isso, ainda mais apreciada e agradecida.
        Tempos houve em que eu gostava de surpreender os amigos neste dia de oferendas; geralmente ficavam aflitos, nunca tinham nada para retribuir. E era disso que eu gostava, bastava-me a surpresa e a alegria deles.
        Hoje fui eu a “apanhada”
        Muito obrigada, Pedro, vou tentar manter-me à altura da nomeação.
        ⚘
        Maria

          1. Humm… entendi. 👑
            O Pedro é exímio com as palavras, ou não fosse do mesmo signo de alguns dos melhores artífices da arte de bem trabalhar as palavras (e as sete notas).
            Sem precisar de googlar, lembro-me de uns quantos, um deles foi galardoado com o prémio máximo para essa arte, gerando enorme alarido, até aqui no DO.
            ⚘
            Maria

    1. Obrigado, meu caro José Manuel. Você, como já escrevi, é um dos nossos melhores parceiros blogosféricos. Capaz de ser muito bairrista, em defesa dos interesses legítimos da sua Vizela, e alcançar audiência nacional ao mesmo tempo. Nada fácil, de certeza.
      Quanto a comentadores “da esquerda marxista”, que venham mais. Pela minha parte, gosto sempre de dialogar com quem pensa de maneira diferente. E aprendo sempre alguma coisa nesta saudável dialéctica de confronto de perspectivas.
      Um abraço – e votos de bom ano.

  3. Junto-me à festa.
    Mas o que mais admiro e respeito e celebro é quem, todos os dias de tantos anos, torna tudo isto possível.
    Não sei se com algum proveito próprio.
    O meu é indiscutível.
    Bem haja(m)!
    João de Brito

    1. Proveito pela minha parte, meu caro, só o de dialogar diariamente com pessoas que nunca conheci e provavelmente nunca conhecerei mas que me merecem respeito, consideração e até estima. Porque todos os dias me ensinam alguma coisa. Começando por pessoas que têm um pensamento muito diferente do meu.

    1. Muito obrigado, Maria Dulce. Você também é membro honorário do DELITO. Por já ter contribuído com tantos e tão bons comentários.
      Desejo-lhe um 2019 doce, caloroso e feliz.

  4. Parabéns ao Delito de Opinião pelos 10 anos e pela qualidade rara da pluralidade.

    O que parece fácil e um dado adquirido, não é. Supomos que vivemos num regime plural e o certo é que não vivemos. O que acontece por ser difícil controlar os nossos ímpetos totalitários, as nossas mesquinhas guerras e a sede de nos impormos aos demais. E, sobretudo, por cada um de nós não saber reconhecê-los e controlá-los. Quando muito vivemos numa aparência de democracia.

    Aqui, no Delito de Opinião, ao contrário do costume, a arte da contenção e da tolerância vence. Há anos que entrámos aqui e lemos o que não gostamos e não concordamos, o que nos é absolutamente indiferente, o que nos diz mais do que tudo, o que prezamos, o que gostamos e o que concordamos em absoluto, seja pelos autores seja pelos comentadores. É obra.

    Muitos parabéns.

      1. Caro Pedro Correia,

        Se assinasse, continuaria a não saber quem sou, por ser uma comum mortal desconhecida. Tem sido uma questão de comodidade (sim, uma espécie de metáfora para cobardia). Não é uma questão de me esconder, é simples vontade de não me exibir.

        Fui lendo o DO desde início, creio. Mais assiduamente nos últimos meses, em que deixei alguns comentário anónimos. É uma casa onde dá gosto vir e, mais uma vez, parabéns pelo trabalho, dedicação e respeito pelos outros e pela opinião dos outros. Uma característica rara que ‘invejo’ de forma saudável.

        Isabel

        1. Muito lhe agradeço estas suas palavras tão simpáticas e tão gentis, Isabel. A articulação permanente com os leitores foi um dos motivos que me levaram a fundar o blogue e é uma das razões que me levam a escrever aqui dia após dia. Quem corre por gosto não cansa.
          Apareça sempre: esta casa também é sua.

  5. Boa noite Pedro Correia.
    Na sua pessoa cumprimento-o a si e aos restantes “Delituosos”.
    De repente passaram 10 anos e eu continuo um fiel seguidor, diário.
    O “DO” é também um estímulo para tentar melhorar o que partilho no meu blogue.
    Parabéns.
    António Cabral

  6. Parabéns ao Delito, que, nascido precisamente um mês antes do meu modesto e solitário Duas ou Três Coisas, provou que a pertinácia e o empenhamento podem criar e manter um blogue a muitas vozes e com muitos ouvidos. Que venham muitos mais anos “delituosos”. Um abraço especial ao Pedro Correia.

    1. Muito obrigado, meu caro Francisco (permita-me tratá-lo assim).
      Grato a dobrar, aliás, por lembrar o prefácio que em 2018 escreveu de propósito para o nosso livro.
      Como já lhe disse, espero ver os textos do seu blogue também reunidos em antologia literária. Há histórias deliciosas que bem merecem ser transpostas de blogue para livro – várias das quais tenho destacado aqui, enquanto seu leitor atento.
      Um abraço, desejando-lhe um excelente 2019.

  7. Muitos parabéns ao Delito e sobretudo a todos os que desde esse primeiro dia de inícios de 2009 (um ano particularmente agridoce para mim) têm tratado dele, nunca descurando qualquer paragem, e fazendo dele uma marca da blogosfera lusa. Cumprimentos especiais ao Pedro, com particular evocação do João Carvalho e do JJ Coutinho Ribeiro. Que venham mais dez!

    1. Caro João Pedro, foste um bom reforço para o DELITO. E gostei muito de conhecer-te desde então. Já gostava de ler-te há vários anos.
      Este é, creio, o primeiro dos segredos para o sucesso do nosso blogue: gostarmos de nos ler.
      Tão simples, afinal. Para quê complicar o que é simples?

      Abraço amigo. E votos de um excelente ano (excepto no capítulo futebolístico).

  8. Parabéns ao Delito e aos delituosos. Desta vez por mais um aniversário, o primeiro verdadeiramente redondo. Que cá estejamos todos para os 25, ditos de prata, que vêm já aí.

    1. Meu caro Eduardo: já vêm de longe os seus comentários e as suas palavras de incentivo. Muito lhe agradeço, sempre reconhecido.
      Forte abraço, com votos de um excelente 2019.

  9. Muitos parabéns ao Delito de Opinião, em especial ao Pedro Correia. E muito obrigado, mais uma vez, por me terem dado a honra de «progredir» da categoria de diário e fiel leitor e ocasional comentador para a de autor convidado.

    Por curiosidade, aproveito para assinalar que, também neste mês (no dia 20), um blog meu fará igualmente dez anos – é o Obamatório. E, claro, não é o mais antigo que tenho…

    1. Grato pelos votos de saudação que aqui nos deixa, Octávio. Vai sendo tempo também de pensar numa colectânea de textos do seu blogue, em forma de livro.
      Concordemos ou discordemos, os seus acutilantes comentários têm contribuído para o debate de ideias no DELITO. É isso que se pretende, antes de mais nada.
      Bom ano. Havemos seguramente de debater bastante em 2019.

      1. Pedro, essa colectânea de textos (devidamente actualizados e adaptados) do Obamatório já está pronta há bastante tempo, mas, até agora, nenhuma das editoras que contactei mostrou-se interessada em publicá-la, como referi aqui…

        https://obamatorio.blogspot.com/2018/08/para-quando-o-livro-do-obamatorio.html

        … Também porque há quem prefira a conformidade ideológica à diversidade intelectual… e ao sucesso comercial.

          1. Eu sei que sim, Pedro, e é uma solução que considero seriamente. Porém, ainda não se proporcionou estabelecer contacto com os responsáveis da E-Primatur-BookBuilders.

  10. Não deixo abraços porque abraços encerram e desejo o DO com os braços abertos como até aqui.

    Não deixo beijos pois beijos silenciam e quero-me desamordaçadamente visitando o desassombrado DO.

    Assim, brindo à longevidade, ao objectivo continuamente renovado e cumprido, à qualidade e à assertividade. Estes são daqueles brindes que embebedam, sim, mas de satisfação e cujo alto grau não tem contra-indicações.

    Fora de horas mas não fora de prazo: Parabéns, DO!

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