Se forem despachadinhos, os funcionários dos partidos políticos, de quem, como se sabe, dependemos todos, poderão ser vacinados contra a gripe A já na primeira fase, antes mesmo das crianças. Se isto não é vergonhoso, não sei o que lhe chame.
E vacinas contra a pouca vergonha, não há?
Teresa Ribeiro,

Mas a Teresa está assim ansiosa por vacinar as crianças?
Eu não estou. Tenho dois filhos (um dos quais é asmático) e não tenho nenhum desejo especial de que eles sejam vacinados. Por mim, os funcionários que quiserem podem-lhes passar à frente.
Luís, se as vacinas têm ou não contraindicações é uma outra discussão. O que está aqui em causa são as prioridades das nossas autoridades políticas e de saúde relativamente à prevenção e defesa contra a gripe A. Concorda com este critério? Eticamente não o repugna nem um bocadinho?
Exactamente. Convinha que o director-geral de saúde explicasse muito bem explicadinho por que estabeleceu estes critérios inaceitáveis.
Antes, muito antes das crianças, contemplam-se os elementos «insubstituíveis» dos partidos? Meus senhores, começa a ser tempo de lembrar (e eu já andava à espera de qualquer vergonha do género) um dito popular muito antiguinho: “os cemitérios estão cheios de insubstituíveis”.
Não menos caricato é encarar a existência de gente insubstituível nos partidos. Devem ser aqueles que mudam com a mudança dos líderes. Os que andam com malas pretas também. Ainda os que angariam votos a 20 ou 30 euros. Talvez os que pagam as quotas dos militantes para estes poderem votar. E os que cultivam relações privilegiadas com investidores, empreiteiros, dirigentes de futebol, etc. Esqueci-me de alguém?
Todos, como se sabe, pedras basilares da nossa democracia! Percebe-se bem o critério.
Como se as crianças não devessem estar sempre primeiro, Teresa.
Acho espantoso que os Deputados constem nas prioridades, por exemplo. Se tivermos em conta o que faltaram na legislatura anterior uma semana em casa por causa da gripe não lhes causará mossa.
Não lhes causa mossa nem ninguém vai dar por isso, Leonor.
Não só deputados, Leonor, o que já é discutível, mas sempre são membros de um órgão de soberania. São os funcionários «insubstituíveis» dos partidos!
É a risada total. Mas que funcionários ‘insubstituíveis’?
É verdadeiramente escandaloso. Lamento que os profissionais da indignação que por aí proliferam não se escandalizem com isto. Porque motivo os 230 deputados hão-de ter prioridade nas vacinas? Vários deles recusaram este privilégio, o que muito os honra. Barack Obama fez o mesmo nos EUA. E é verdadeiramente inaceitável que as secretárias dos senhores secretários de Estado e dos senhores líderes partidários figurem também nas listas de prioridades.
As vacinas devem ter como prioridade as crianças e todas as pessoas que estão em grupos de risco.
“Porque motivo”?
Não. Por que motivo.
Os deputados? Os funcionários dos partidos, Pedro. Os funcionários.
Balhamedeus Teresa, balhamedeus. A ser assim é muito mau. Cada vez me sinto mais vacinada contra este modo de entender as coisas.
🙂
Nem mais. tem toda a razão.
De repente lembrei-me do afundamento do titanic, e das primeiras pessoas que se ” enfiaram ” nos salva vidas, porque seria?
Tendo em conta que haverá neste país 1 milhão de crianças e adolescentes, talvez muito mais, e que nesta primeira fase estamos a falar de bem poucas vacinas (alguns milhares ou dezenas de milhares, não mais), custa a ver como é que se poderia colocar “as crianças em primeiro lugar” neste caso. Quais crianças? Com tão poucas vacinas e tantas crianças, seria preciso selecionar criteriosamente as crianças – o que seria bem difícil.
Ah! Afinal, o Luís está certo. Se não houver vacinas para todas as crianças, mais vale passar aos funcionários dos partidos, que é muito mais fácil. Bem visto.
(V. nem imagina a quantidade de funcionários “insubstituíveis” que se arrastam pelos partidos maiores, mas isso é outra coisa.)