Leio no jornal que o número de mulheres que repetem abortos tem aumentado desde que entrou em vigor a lei que discriminalizou a IVG e fico curiosa. Pergunto-me como foi possível estabelecer esta relação de causa-efeito e interesso-me pela suposta notícia. Mas uns parágrafos adiante percebo que se trata afinal da divulgação de um estudo da Federação Portuguesa para a Vida, que na sua luta contra a lei que discriminaliza a Interrupção Voluntária da Gravidez não desiste de a apontar como principal causa do aumento do número de abortos.
Baseada em estatísticas da D.G. Saúde e do INE o que a F.P.V. pôde apurar foi que nos últimos cinco anos (como se sabe não há dados relativos a anos anteriores, pois só depois que a lei entrou em vigor foi possível fazer estes registos) houve um aumento de mulheres reincidentes. Pois. Havendo reincidentes é natural que à medida que o tempo passe essa contabilidade aumente.
O que ficará sempre por saber é se antes da vigência da lei havia menos reincidências em igual período. Isso é que era! Mas na impossibilidade de demonstrar o que deseja, a F.P.V. não se detém e insiste em vincular as estatísticas que lhe convém à lei (curiosamente os únicos dados que é possível cruzar relativamente a períodos antes e depois da vigência da lei, os que referem o número de mulheres que recorrem ao hospital na sequência de complicações provocadas por abortos clandestinos, não são citados, merecendo apenas o comentário de que “baixaram consideravelmente”).
Como se sabe, propaganda é assim mesmo, nunca joga limpo, porque serve um propósito, uma agenda, o que me chateia é vê-la mal disfarçada de notícia de jornal. Ainda por cima num jornal dito de referência.

Muito bem, Teresa!
Detesto as hipocrisias relacionadas com este tema. Também já me tinha perguntado como é que se pode saber que aumentaram certos casos se antes não se faziam estatísticas. E todos os dias chegavam aos hospitais mulheres com complicações provocadas por abortos clandestinos.
Interessa é saber se há reincidência agora, o que indicaria que a lei não estaria a ser cumprida, com a transformação do aborto em método de contracepção (o que parece, ninguém defende) – pago por todos nós, num país falido e com problemas demográficos por baixa natalidade.
Por exemplo, haveria todo o interesse em saber se as mulheres que abortam os seus filhos são conduzidas para a consulta de saúde reprodutiva/planeamento familiar prevista na alínea b do nº 3 do artº 19º da Portaria 741-A/2007? E vão ou faltam? Além da questão da vida, são dinheiros públicos que estão em jogo.