É incompreensível tanto amadorismo


Pedro Correia,

 

Ouvi há pouco o ministro da Bancarrota em declarações à TVI. Em sintonia com o chefe, foi incapaz de pedir desculpa aos portugueses pelo défice real das contas públicas, só hoje conhecido: 8,6% – mais 1,3% do que o Governo tinha anunciado, o que constitui um novo marco no longo cadastro de “inverdades” do ainda primeiro-ministro. O País está de tanga, mas o referido entrevistado da TVI, também ministro do Estado a Que Isto Chegou, garante que não moverá um dedo para pedir ajuda externa de emergência, cada vez mais imperiosa e inevitável. A entrevista destinou-se apenas a reafirmar o estilo de galo de briga a que José Sócrates habituou os portugueses: o seu braço direito na desgovernação fez gala em jogar ao braço-de-ferro com o Presidente da República. Motivo? Minutos antes, num discurso ao País, Cavaco Silva sublinhara esta evidência que só o Governo teima em negar: o Executivo “não está impedido de praticar os actos necessários à condução dos destinos do País, tanto no plano interno como no plano externo.”

No dia em que também se soube que a dívida pública portuguesa foi revista “em alta”, saltando para 92,4%, e que os juros da dívida a cinco anos dispararam para uns inéditos – e inaceitáveis – 9,52%, recordei-me das palavras arrasadoras de António Costa, proferidas há duas semanas, contra o homem que se destaca como o principal rosto da ruína financeira portuguesa: é “incompreensível” tanto “amadorismo”.

Ataturk, na guerra contra os gregos, proclamava aos seus homens: “Eu não vos ordeno que ataquem. Ordeno-vos que morram.” Por vezes parece que Sócrates ordena o mesmo a alguns dos seus ministros. Com uma diferença assinalável: o líder turco foi capaz de ganhar a guerra.

16 comentários em “É incompreensível tanto amadorismo”

  1. Não deixa também de ser assinalável o eriçamento por parte dos seguidores de Pedro na questão do pedido de ajuda divina. Querem lá ver que vai ser Pedro a pedi-la? Como ele foge da cruz…

    1. E não falei aqui no belo exemplo da mulher do ministro Alberto Martins nem no administrador dos CTT amigo do secretário de Estado Paulo Campos que aldrabou o currículo, veja lá.

      1. Por mim até podiam ir de cana, desde que Pedro Passos não os fosse visitar ou levar uns maços de tabaco…

  2. Adivinhe quem foi que disse: “O Presidente eleito com a mais baixa percentagem de sempre”, “O Presidente que não se meta onde não é chamado”, “O Presidente é para presidir e o governo é para governar”. E não se pode dar-lhes com um encharcado nas trombas?

    1. De alguém muito próximo de quem disse isso em breve se dirá o seguinte: “O primeiro-ministro que recebeu a mais baixa percentagem de sempre”; “O ex-primeiro-ministro que não se meta onde não é chamado”; “O primeiro-ministro é para governar e o ex-primeiro-ministro é para fazer oposição, se ainda tiver ânimo para isso”.

  3. Pedro, concordo com tudo menos num ponto. Já se percebeu, há muito, que é Cavaco que insiste em manter um braço-de-ferro com este governo. Tem tomado partido em quase todas as decisões e declarações e nesta matéria voltou a meter os pés pelas mãos. Como já foi referido noutros blogues, há juristas que entendem que o governo em gestão não pode pedir ajuda financeira externa. Já citaram Freitas do Amaral, porventura o maior jurista nesta matéria, que até acrescenta um outro ponto: um governo em gestão não pode decidir em determinado sentido se essa mesma proposta de decisão causou a sua queda. Ora, se a Oposição em peso rejeitou um programa de medidas extraordinárias para fazer face à crise (PEC IV), não poderá, em seu entender, decidir uma outra medida extraordinária para fazer face à crise como é pedir ajuda externa.
    Ainda não tenho uma posição clara neste sentido, pois trata-se de uma matéria complexa (apesar de ter aprendido Administrativo precisamente pelo manual de Freitas do Amaral), mas tenho reservas quanto à possibilidade de pedir a intervenção do FMI ou do Fundo Europeu. Ou seja, fica muito mal, mais uma vez, que o Presidente emita uma opinião tão clara e inequívoca acerca de uma questão juridicamente tão complexa. Lá por ter conselheiros jurídicos não quer dizer que emita juízos, como se fosse a última palavra nacional nesta área (é o Trib. Constitucional). Já o fez com o Estatuto dos Açores e voltou agora a fazê-lo. De facto, o seu enorme ego não lhe permite exercer correcta e devidamente as suas funções…
    Abraço e bom fds.

    1. Meu caro, estamos em desacordo. Este primeiro-ministro é que se especializou em governar fazendo braço-de-ferro com tudo e todos à sua volta – partidos, sindicatos, sociedade civil. Teve o raro condão de congregar contra ele a esquerda e a direita, como se viu a 23 de Março. Agora faz de Calimero depois de ter vendido em Bruxelas e Berlim um acordo que não havia e de ter garantido em Lisboa que podia alterar por completo o acordo a que já se tinha comprometido lá fora. De permeio, ignorou o Parlamento, os parceiros sociais – e o Presidente da República, violando um dever constitucional.
      Quem semeia ventos, colhe tempestades. Este aforismo popular, tão português, é totalmente apropriado na actual situação.
      Retribuo os votos de bom fim de semana. Um abraço.

      1. Pedro, como disse antes, concordo com tudo o resto. E com o que escreveu na resposta. Porém, convém ver que, ao mesmo tempo, Cavaco fez guerra a Sócrates. Temos o episódio das falsas escutas, que mais não foram que uma mentira encomendada a um jornal amigo, o episódio dos Açores (cuja posição contradiz a sua agora ao ouvir o Pres. da AR antes de aceitar a demissão do Governo), para além das constantes declarações sempre em prejuízo do governo. Como tive oportunidade de escrever por altura das Presidenciais (aqui e no Legalices), Cavaco e Sócrates estão bem um para o outro, pois têm ambos o mesmo tipo de personalidade: autoritária e intolerante.
        Abraço.

  4. Oh Pedro, a simples alusão a Ataturk, o símbolo máximo da auto-estima turca, quando falamos em Sócrates é quase blasfémica (referência à concorrência)… e a analogia tem ainda um lapsozito… é que não são os ministros que Sócrates está a enviar para a morte… são os seus ministrados…

  5. “…foi incapaz de pedir desculpa aos portugueses pelo défice real…”

    Nem quero imaginar onde teria chegado o estado do País se além de incompetentes Sócrates e Teixeira fossem de falinhas mansas.

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