José António Cerejo, jornalista do Público que se tem celebrizado pelas investigações que faz a socialistas, voltou hoje à carga depois de dar a volta ao Arquivo Municipal da Guarda à procura de projectos em que José Sócrates tivesse tido intervenção. Gabo-lhe a pachorra.
Não tenho nada contra, esclareça-se já. Nem contra a investigação nem contra o jornalista, embora aqui há uns anos tenha ficado com uma péssima impressão deste último a propósito de um artigo que publicou sobre um amigo meu (não sou dos que renega os amigos). O artigo saiu com múltiplas insinuações e o visado não foi tido nem achado antes da publicação para se pronunciar sobre algumas das acusações que lhe eram feitas. Não me esqueci desse episódio, tanto mais que o jornalista sabia que o visado estava ausente do país na altura da publicação, o que me levou a ficar de pé atrás quando leio textos desse autor. Quanto ao mais, limitar-se-á a fazer o seu trabalho como eu próprio, porventura, farei o meu, dando o melhor mas nem sempre isento de erros, mesmo involuntários.
Agora, em causa, depois de três páginas que acrescentam muito pouco ao que já se sabia sobre José Sócrates (ou ao seu carácter, como enfaticamente há quem goste de sublinhar), e relativamente a factos ocorridos há mais de 20 anos, está apenas apurar se houve ou não houve violação do regime de exclusividade enquanto deputado e se o exercício de outras funções não remuneradas implica violação desse regime. Quanto ao mais nada há a acrescentar em relação a todos os episódios já conhecidos, alguns deles bem mais recentes.
Um dos problemas de se ter um passado “movimentado”, não querendo com isso dizer que seja obscuro ou coisa parecida, é que se está à mercê dos Cerejos que apareçam. Dos bons e dos maus. Clinton passou pelo mesmo em relação à sua vida pessoal e isso não fez dele um pior presidente ou chegou para manchar, politicamente, o mandato.
Desconheço quantos dos actuais e antigos deputados e governantes terão sido apanhados em situações idênticas, pois calculo que o tempo do investigador seja limitado e só interesse conhecer estas situações quando podem causar mossa.
Sabendo o que hoje sabemos sobre o modo como a actividade política e autárquica era encarada nesses anos das décadas de oitenta e noventa, nada do que foi revelado me causa perplexidade. Tristeza, enfado, isso sim, perplexidade não.
Porque quanto a ser repreendido por “desleixo” por quem foi condenado e cumpriu pena de prisão por crime de corrupção…, bom, isso seria, salvo o devido respeito e as distâncias, mais ou menos a mesma coisa que ter Ronald Biggs a repreender Vítor Constâncio pelas falhas de supervisão do Banco de Portugal. Se era aí que Cerejo pretendia atingir o alvo não me parece que o tenha conseguido.
Numa democracia é normal que qualquer político esteja sujeito a escrutínio. Como também será normal que um jornalista investigue e que um partido escolha os seus dirigentes como muito bem entende sem que eles se tornem reféns das investigações jornalísticas ou judiciais que venham a ser desencadeadas. Sejam elas de boa ou de má fé.
Já será muito menos normal que a imprensa ou os políticos tenham alvos. Mas como será seguramente mais fácil e mais democrático reformar os partidos em vez da imprensa, de nada servirá ao PS e a José Sócrates atacarem o Público ou José António Cerejo, como antes fizeram com Manuela Moura Guedes ou a TVI, desviando-se do essencial da governação, daquilo que verdadeiramente interessa ao país e aos portugueses nesta hora crucial.
Ao primeiro-ministro, com mais ou menos Público, mais ou menos Cerejo, impõe-se e exige-se que governe e que no tempo e na hora adequados tire as suas conclusões. Enquanto os submarinos sobem e descem e se limpa o pó aos arquivos da Guarda há muita coisa a fazer.
E quanto ao PS espero que seja capaz de rever o caminho trilhado nos últimos anos e que corrija o que necessita de ser corrigido. Se é que entende que alguma coisa tem de ser corrigida.
Eu, humildemente, começaria por rever as políticas de combate à corrupção, a democraticidade interna e os mecanismos de escolha dos dirigentes.
Mas eu não sou ninguém. E andar há décadas nesta luta também não joga a meu favor. Cada um é teimoso à sua maneira. Não rende, é certo, mas, em todo o caso, sempre me dá o conforto de poder ser espiolhado por qualquer Cerejo sem que isso me aflija ou me obrigue a desviar do meu caminho. E penso que é isto que amanhã deverá fazer a diferença entre José Sócrates e quem lhe vier a suceder quando o momento chegar.

Quando temos telhados de vidro somos mais frageis… mas quem os não tem? Provavelmente não é interessante ter politicos puros com passado imaculado (porque gente dessa não existe). É nos procedimentos e nas regras que as sociedades se defendem. e esta questão dos projectos de engenharia é só mais um sintoma do nosso faz de conta.
Quem é Eng sabe o valor dos projectos nomeadamente nas obras pequenas. Na economia paralela das assinaturas (o eng assina o projecto ao desenhador e recebe uns trocos à conta). Fica contente o desenhador, fica contente o eng e fica contente a câmara onde o projecto dá entrada. Toda a gente sabe que é assim e, embora não conheça os detalhes, quase que apostava que o Sócrates não desenhou uma linha daqueles projectos.
Estas “regras” não escritas, mas levadas à prática todos os dias, em todo o lado, em várias especialidades da engenharia (civil, electrotecnia, climatização, etc) têm consequências. Projectos mal feitos, mal implantados, com critérios nada económicos etc. Na minha especialidade de Engenharia (electrotecnia) existe até uma figura de responsavel tecnico, em que se assina um papel, recebe-se uma avença e, nem sequer é necessário visitar a instalação da qual se é responsavel. É a total irresponsabilidade. E o que diz a ordem do engenheiros? nada como é costume. mas alguém estranha?
Três pontos, entre outros possíveis:
1. Para não incorrer no erro de que acusa Cerejo, deveria concretizar o caso a que alude e que, a ser verdadeiro, põe gravemente em causa o profissionalismo do jornalista;
2. O facto de haver ou deixar de haver outros deputados nas condições de Sócrates não iliba este, acrescendo que nenhum deles, que se saiba, chegou a primeiro-ministro;
3. A aplicação do dito popular “Depois de mim virá…” ao caso Sócrates parece legitimar, em seu entender, que este se mantenha no poder “ad aeternum”, o que constitui, sem dúvida, uma posição incontestavelmente democrática…
http://microrganismo.blogspot.com/2008/0 1/pequenas-dvidas.html
http://microrganismo.blogspot.com/2008/0 1/um-exerccio-de-vilania.html
Tem todo o direito de ser advogado(?) dos irmãos Lamego.
Mas… e a resposta aos pontos 2 e 3?
Os submarinos e os pandur já estavam a ser muito incómodos….
Como se pode ver pela edição de hoje do jornal Público não faltam os que querem ajudar Passos Coelho a chegar ao poder pela porta das traseiras, os que tentaram impingir-nos Manuela Ferreira Leite estendendo-lhe uma passadeira com recortes do Sol e do Público ou com peças de processos judiciais, vão agora acenar a via do golpe baixo a Pedro Passos Coelho.
Só que a alternância democrática faz-se com debate de ideias e não com o jogo sujo promovido por directores de jornais sem grandes princípios, magistrados convencidos de que são justiceiros ou assessores presidenciais sem escrúpulos. Manuela Ferreira Leite optou por este caminho e perdeu.
Se Passos Coelho optar por tentar chegar ao poder promovendo o pantanal em que alguns pretendem meter o país vai perder como perdeu a sua antecessora. O país precisa de um debate sério, a democracia vive de debates transparentes e não da leitura de escutas judiciais, o futuro primeiro-ministro, seja ele quem for, deve ser escolhido pelos portugueses e não ser uma marioneta de magistrados e directores de jornais.
Molhava sim, sei eu de fonte geralmente bem informada. E posso ainda garantir-lhe que já em bébé roubava a chucha aos filhos dos trabalhadores do pai; quando saía da escola saltava os muros dos quintais para roubar cerejas aos vizinhos; ainda adolescente, disse a uma colega que a amaria para sempre e depois não cumpriu; quando andava no liceu, uma vez apanhou uma bebedeira de caixão à cova. E é um gajo destes que temos como PM.
Há mesmo quem dia que Sócrates foi apanhado a copiar numa aula da primeira classe e, mais tarde, num exame de matemática, levou uma cábula com a fórmula resolvente. Pior que ele não há. Estes dois exemplos atestam isso.