
Na véspera da consoada, no último Conselho de Ministros antes da quadra festiva e a um mês de eleições legislativas, o Governo voltou à carga: propôs ao Presidente da República a exoneração do chefe do Estado Maior da Armada, trocando Mendes Calado por Gouveia e Melo, o herói do momento neste ramo militar. Tentara isto em Setembro, mês de autárquicas, mas Marcelo Rebelo de Sousa baralhou o jogo, inviabilizando a iniciativa. Agora já não quis ou não foi capaz de repetir o braço-de-ferro com António Costa: o ex-coordenador do plano de vacinação contra a covid-19 acabou empossado dia 27, no início da semana entre o Natal e o Ano Novo que todos os governos reservam para cumprir actos incómodos. Por saberem que nesta quadra há muito menos escrutínio político e é quase inexistente o escrutínio jornalístico.
De uma assentada, Costa alcança dois objectivos, concretizados ainda antes da conclusão das novas leis orgânicas do Estado Maior General das Forças Armadas e dos três ramos castrenses. Por um lado utiliza o empossado – agora promovido a almirante – como trunfo eleitoral do PS; por outro, consegue silenciá-lo após uma meteórica sucessão de entrevistas em que Gouveia e Melo ia subindo o tom das declarações, já não como vulto militar mas como eventual protagonista político. Confessou a ambição de ser ministro do Mar, admitiu vir a criar um movimento cívico e não rejeitou o cenário de candidatar-se a Presidente da República quando passar à reserva.
António Maria Mendes Calado, 64 anos, recusou ser figurante neste filme. Militar de inatacável prestígio, com cerca de 20 mil horas de navegação no currículo, gravou um vídeo de despedida na página oficial do seu ramo no Facebook tornando inequívoco que não saía por vontade própria. «Os que me conhecem não entenderiam que abandonasse o leme da nossa Marinha depois de resistir ao temporal que nos assolou nos últimos tempos», declarou. Numa alusão à recente reforma das Forças Armadas em que o Governo reforçou os poderes do chefe do Estado Maior-General, em detrimento de quem comanda o Exército, a Marinha e a Força Aérea.
Marcelo, embaraçado, reconheceu que Mendes Calado não solicitou a exoneração das funções desempenhadas desde Março de 2018 e em que fora reconduzido há dez meses. Admitiu que o almirante «quis marcar a sua posição» e acentuou que «cumpriu até ao fim, de forma brilhante», uma carreira de 47 anos de serviço naval. Enfim, anunciou a intenção de lhe atribuir a Grã-Cruz da Ordem de Cristo. Palavras e gestos de circunstância de um comandante supremo apanhado entre dois fogos.
Nada disto parece ter comovido o chefe cessante da Armada, que em 2004 comandou a força naval convocada para apaziguar uma das mais graves crises de sempre na Guiné-Bissau. Mendes Calado redobrou o protesto, decidindo não comparecer à brevíssima sessão de posse do seu sucessor no Palácio de Belém. E assim, primando pela ausência, tornou-se o verdadeiro protagonista daquele dia. Alguns candidatos a políticos deviam aprender com ele.
Texto publicado no semanário Novo

Só posso aplaudir o realce à figura do Almirante Mendes Calado, que naturalmente será esquecido em pouco tempo.
Já Gouveia e Melo terá de fazer uma provavelmente longa travessia do deserto ou, talvez melhor, um jejum de acesso à comunicação social. Lembra-me inevitavelmente o antes sempre presente Magina da Silva, e que, após uma declaração infeliz à saída de Belém (ainda hoje tenho fortes dúvidas de que a declaração não foi induzida pelo inquilino de Belém) desapareceu da cena pública.
A ajuizar por declarações na caixa de comentários do Observador – gratuitas porque não tenho dados para avaliar – há ainda outra semelhança. E, se for verdade, a Maçonaria lá colocou outra peça..
Estas manobras do PS no melhor estilo “costa” são simplesmente repugnantes. Imagina-se que é assim que fazem tudo, e que é sempre desta maneira que se intrometem em poderes que não são deles. Também andam a abusar.
Grande “volta ao texto” para acertar num barco de dois canos, e um dos canos já passou a simples ‘herói de momento’.
O Vice também podia ter sido, cono se diz, solidário, e ter recusado o cargo nas circunstâncias em que lhe foi proposto.
Pronto, lá vou, vamos ser acusados de anti Gouveia e sermos assalariados do Costa.
Quanto à manobra do Mister, nada que surpreenda. Modus operandi. Ou em linguagem internética, coerência. O que é bom.
Por incrível que pareça ainda há pessoas sérias e que não ficam deslumbradas com os holofotes.
Não é o caso do ex-vice. Ou é?
Há ali quelque chose que não joga: modéstia, playboyice e ambições políticas tudo ao mesmo tempo não bate certo…
Referi o Mendes Calado.
Ah, certo.
Boa discussão sobre pessoas, bem ao gosto daquilo que é usual no PSD.
Eu por mim acompanho o PCP e prefiro debater políticas. E por isso gostaria de saber que trabalho estava Mendes Calado a fazer como CEMA, que presumivelmente terá deixado inacabado? E que mudanças a esse trabalho, ou que nova orientação, trará Gouveia e Melo?
sobre pessoas ou sobre cargos públicos?
Pena não se exonarem uns FP, e depois perguntava-se que trabalho faziam, o que deixaram inacabado…
O trabalho que o Mendes Calado estava a fazer como CEMA ficou inacabado porque o homem foi corrido a meio do mandato.
Penso que a resposta é óbvia.
Nem mais.
Creio que a palavra “infâmia continua a fazer parte do léxico pátrio…
JSP
O meu grande desgosto acontece quando vejo os considerados nossos melhores pactuar com jogadas sombrias de subterrâneo.
Tanto de Costa como de Marcelo nada de surpreendente.
O destituído Chefe do Estado Maior da Armada era credor de todo o respeito, tanto mais da parte de um camarada de armas.