O José Adelino Maltez tem razão: o maior problema actual do PSD é estar cheio de treinadores de bancada que teimam em ditar a táctica. Ex-líderes do partido e antigos presidentes do grupo parlamentar – alguns com uma notável colecção de derrotas nos respectivos currículos – dedicam-se de momento ao que melhor sabem: disparar contra a direcção em funções. Neste edificante passatempo destaca-se Pacheco Pereira, que em entrevista ao Diário de Notícias da Madeira vem agora criticar Passos Coelho por ter uma “navegação de cabotagem, à vista da costa”, e sobretudo pela “falta de consistência” do seu discurso.
Muito bem. Querem um discurso “consistente” de alguém incapaz de “navegar à vista”? Têm o exemplo do próprio Pacheco Pereira. A 11 de Novembro, na Quadratura do Círculo, o ex-estratego da fracassada candidatura de Manuela Ferreira Leite falava desta maneira: “Neste momento o grande factor de perturbação da vida política nacional é o primeiro-ministro. Isso é uma realidade objectiva. Nada está bem nesta frente. Se há coisa que neste momento conhece um processo de descredibilização é o primeiro-ministro e o governo. O primeiro-ministro não tem condições para cumprir nada do seu programa eleitoral. O seu programa eleitoral não existe. (…) A legitimidade eleitoral está muito diminuída pela circunstância do programa eleitoral ter ido rapidamente – do cheque-bebé aos medicamentos gratuitos – por água abaixo. É um facto. Qualquer pessoa de bom senso percebe que o engenheiro Sócrates é um problema, é um obstáculo a qualquer entendimento. (…) Alguém tem de lhe dizer que ele está a fazer mal ao País.”
Isto foi há quatro meses. Como diz Sócrates, o mundo muda muito em dois ou três dias. Nada mais abrupto. Não admira, portanto, que o Pacheco de Março tenha um discurso muito diferente do Pacheco de Novembro. Agora já considera que a legislatura deve ser cumprida até 2013. “As democracias têm procedimentos e não devemos interromper, traumaticamente, esses procedimentos. Se este governo conseguir manter a execução orçamental acho preferível que continue até ao fim da legislatura. (…) O PSD tem de ser visto como um partido responsável.” Curiosa sintonia: a entrevista de Pacheco Pereira ao DN-Madeira foi publicada escassas 24 horas após José Sócrates ter proclamado isto, na apresentação da sua moção estratégica ao congresso do PS: “Qualquer crise política prejudicaria a economia e o País.”
Imaginem o cenário equacionado por Pacheco na versão Março mesclada com a versão Novembro: os portugueses desgovernados mais dois anos e meio por esse “grande factor de perturbação nacional” que é Sócrates, alguém cuja “legitimidade eleitoral está muito diminuída” e que “está a fazer muito mal ao País”.
Teríamos, portanto, de aguentar este primeiro-ministro até Setembro de 2013. Com Pacheco, esse louvável exemplo de “consistência”, a fazer de treinador de bancada na última fila do Parlamento.


Trata-se de uma pereira abrupta…
O que nos dirá o ilustre pensador no próximo Verão? Vai enveredar por uma terceira via?
Como cantavam os Talking Heads:
We’re on the road to nowhere
Uma das canções do século.
O problema do que diz Pacheco não é o que diz Pacheco. O problema do que diz Pacheco é que ele diz o que pensa Cavaco.
E isso é problema? Para quem?
Para o País, naturalmente.
Nunca pensei que, para certas pessoas, as opiniões de Pereira (próprias ou como alegado medium…) tivessem tanta importância. Curiosamente, há muito que, para mim, não têm nenhuma.
Pacheco Pereira teve sempre uma característica muito marcada: nunca gostou de ouvir os outros. Actualmente, esse mal deve estar a alastrar-se a ele próprio: parece que também começou a deixar de se ouvir.
Pacheco não dialoga, não debate, não conversa: emite sentenças. E chega a revogar, em instância de recurso, as sentenças que ele próprio emitiu na instância anterior. Nada que surpreenda, quando se é actor político e comentador político ao mesmo tempo.
Passos Coelho é um lider ainda mais fraco que Luís Felipe Menezes, o que eu julgava impossivel !!! quando a Drª Manuela ainda era lider do PSD, andou por ai, mais os passistas, em tudo quanto era comunicação social a dizer que tinha um projecto para o país, agora que é lider o PSD é um partido completamente taralhouco…tal como o Socrates, alguem lhes devia indicar a porta de saida…o problema é que a nossa comunicação ainda é mais taralhouca que esses erros de casting, só assim se percebe a existência desses dois…
É difícil ser mais forte do que Manuela Ferreira Leite, que conquistou uns fantásticos 29% nas urnas contra Sócrates. Uma proeza realmente difícil de igualar.
O endividamento de Portugal nessa altura so preocupava a 29% dos eleitores inteligentes de Portugal lol Passos nessa altura, andava passear a sua inteligencia pelos jornais, a promover a sua fantasia do cluster para o TGV … ele e o Socrates juntos não conseguem fazer um de jeito…
Sócrates não faz nada de jeito? Mais uma razão para deixá-lo continuar em funções até 2013, como agora defende Pacheco Pereira.
tem-se é que arranjar uma solução, que não seja Socrates nem o seu clone, Passos Coelho…
Há outras soluções. Jerónimo, Portas, Louçã. Têm é que ganhar eleições primeiro. Essa é a parte mais complicada.
As “motivações” ou tergiversações de P. Pereira sobre Passos Coelho, só ele as conhece. Mas, não deixa de ter alguma razão quando diz que ele “navega à vista”e é algo incoerente. Tem, certamente, manifesta falta de “tarimba”, o que nos admira, pois o seu guru, A. Correia, tem tarimba a mais. Mas o verdadeiro problema de PC foi muito bem definido por VPV no Público de domingo:”Tem medo de avançar e tem medo de continuar parado…e tem principalmente medo que os génios que arranjou não cheguem para endireitar Portugal”…
Na minha perspectiva os barões do PSD têm medo de arranjar alguém com envergadura que baste e que pense pela sua própria cabeça, pois isso impedilos-ia de manobrar à sua vontade. Se Passos Coelho tomar as rédeas do poder, com os “generais” que tem, vai agonizar num qualquer Alcácer-Quibir…
Passos Coelho não terá grande dificuldade em fazer melhor do que Fernando Nogueira. E do que Marcelo. E do que Marques Mendes. E do que Santana. E do que Menezes. E do que Manuela Ferreira Leite. A menos que Pacheco Pereira se apresente contra ele: aí é que o caso pode complicar-se.
lapidar, Pedro.
é engraçado ler e escutar toda esta gente, muita que até já esteve no governo e que fez o que se sabe.
quando se apanham cá fora “descobrem a pólvora” e tem soluções para tudo.
Algumas dessas sumidades dão duas no cravo e três na ferradura, Luís, conforme os ventos dominantes. O País funciona, muitas vezes, como um pretexto menor.
Há quantos anos anda o PSD neste fado, Pedro?
O PSD é o único partido onde se faz mais oposição ao líder, quelquer que seja, que ao partido que está no Governo.
A frase-chave é esta, Pedro. De tal maneira que vou repeti-la: «O PSD é o único partido onde se faz mais oposição ao líder, qualquer que seja, que ao partido que está no Governo.»
Ainda no mesmo tema, Pedro
http://devaneiosaoriente.blogspot.com/20 11/03/ele-ameacou.html
Um abraço
Muito bem, Pedro. Abraço.
Engraçado. Lembrei-me daquela personagem de Eça no Fradique Mendes, o Pacheco, precisamente, “esse imenso talento, sempre aferrolhado no cérebro”.
O Eça é de uma actualidade espantosa, João Pedro.
Bastaria talvez uma comissão administrativa , chefiada por um alemão, para tomar conta do quintal. Saberíamos ao que íamos e com horizonte definido. E se calhar com custos, a todos os níveis, menores.
Isto acabou.
Não haver governo nenhum, como acontece na Bélgica há nove meses, é a melhor solução. Parece que os belgas não se queixam.