Duas notas sobre Espanha e Reino Unido


odiplomata,

1. Quando, há poucos anos, Espanha viu surgir novos (em idade e notoriedade) actores políticos, fiquei bastante expectante em relação ao que eles trariam de refrescante para a cena política do país vizinho. Pedro Sánchez, Albert Rivera e Pablo Iglesias, todos eles entre os 35 e 45 anos, portanto jovens para os cânones da política, davam ares de tempo novo, de sofisticação, libertos das amarras da velha e bafienta partidarite que, em certa medida, tinha Mariano Rajoy como a sua personificação. Sánchez e Rivera, ambos com boa imagem e ar de bons rapazes, tinham trunfos para ir buscar uma parte do eleitorado flutuante “mainstream” ao PP. Já Iglesias, uma espécie de Catarina Martins numa versão mais tolerável, representava as novas tendências sociais, muitas delas de protesto, tinha muito potencial para ir recolher votos junto do eleitorado mais jovem e urbano (como aliás o chegou a fazer). Este “tríptico” tinha tudo para “agarrar” a Espanha e relegar o PP de Mariano Rajoy para uma oposição minoritária. Mas, chegados até aqui, com a Espanha num impasse político, duas legislativas no espaço de poucos meses e a caminho das terceiras eleições num intervalo de um ano, não só Rajoy continua no poder, como reforçou a sua votação nas últimas eleições, face à perda dos seus principais opositores. Sánchez, Rivera e Iglesias não conseguiram imprimir uma dinâmica regeneradora e vitoriosa e deixaram-se enveredar pelos piores males da política: a vaidade, a arrogância, a cegueira e, sobretudo, e perda de noção pelo interesse maior, que é a Espanha e os seus cidadãos. Obviamente, que o comportamento de cada um dos três merece uma análise mais detalhada e cuidada, já que existem importantes nuances entre Sánchez, Rivera e Iglesias, mas no final de contas, é Rajoy, aquele político que durante anos foi gozado e que muitos diziam que jamais chegaria a chefe do Governo, que continua a merecer a confiança da maior parte dos espanhóis. Dá que pensar.     

 

2. Uma solução para a problemática do Brexit é aquilo que proponho a Theresa May, primeira-ministra britânica, e que foi, juntamente com David Cameron, defensora da manutenção do Reino Unido na União Europeia. May já veio dizer (e bem) que não irá realizar um segundo referendo e que pretende cumprir com a vontade da maioria dos ingleses que votaram no referendo, mas já alertou que vai ser um processo longo e demorado, com as primeiras fricções a surgirem entre ela e Boris Johnson, chefe da diplomacia, e o principal rosto do Brexit. Após alguma reflexão, vislumbra-se uma saída para toda esta questão e que, por um lado, permitiria legitimar popularmente o poder de May e, por outro, abrir uma oportunidade democrática para que o processo pudesse parar. E que via seria essa? Simples, a de eleições antecipadas. Embora a tradição democrática inglesa veja com normalidade a sucessão de chefes de Governo sem irem a eleições (aconteceu com Churchill em 1940), nos dias que correm seria perfeitamente aceitável que May quisesse (ou venha a querer) legitimar o seu cargo com o voto popular. E caso isso viesse a acontecer, May apresentar-se-ia aos eleitores com o seu programa, o qual teria como prioridade inverter o processo de Brexit. Perante este cenário, ninguém poderia criticar May por querer ir a eleições e muito menos por ter no seu programa uma convicção que sempre defendeu. E nestas eventuais eleições, não havia qualquer impedimento que um outro candidato conservador defensor do Brexit se pudesse apresentar. Boris Johnson poderia fazê-lo. Tal como todos os outros candidatos dos diferentes partidos estariam livres de o fazer, defendendo ou não o Brexit. E aqui, os eleitores tinham duas escolhas: ou dariam a vitória a um candidato que defendesse o Brexit e tudo seguiria o seu curso; ou então dariam o seu voto a May ou a um mais que provável candidato trabalhista que se oporia à saída do Reino Unido. E se este último cenário acontecesse, alguém teria coragem de ir contra a vontade da maioria dos eleitores? Dificilmente, até porque aquilo que é apresentado e legitimado em eleições democráticos teria, à partida, mais peso político do que algo que foi referendado. 

0 comentários em “Duas notas sobre Espanha e Reino Unido”

  1. As suas reflexões e análises fazem sentido. Mas.
    O que não faz sentido é o próprio Rajoy ter criado balizas que o comprometerão a ele mesmo.
    Pretendo com isto dizer, comparativamente, que o caso português, o da geringonça, que afirmei ficar na história de Europa, é aquele que devia ter sido copiado em Espanha: quer em rapidez quer na estrutura negocial que lhe sobreveio. Os resultados hoje conhecidos em Portugal revelam que este devia ter sido o caminho em Espanha.
    Portanto, a vaidade, que referi num post de Luís Naves, e que reforça nesta sua reflexão, é de facto a puta da Babilónia. Não só é a puta como ninguém se entende.
    Estou em crer que necessitamos um Novo Pentecostes para que todos esses parâmetros ruam.
    Para um melhor entendimento, a narrativa sobre a Torre de Babel dá-nos conta que a Humanidade foi dividida/separada pela diversidade de línguas (à cause da vaidade), e é precisamente com a descida do Espírito em forma de línguas de fogo, não obstante falarem diversas línguas, que se permite recuperar a unidade perdida. Na diversidade estamos perante uma linguagem comum, mas linguagem que transcende os parâmetros da linguística e do ego.

    O Brexit, reafirmo, nunca será exit, qualquer que tenha a forma do acordo que mais adiante virá. Faz todo o sentido a perspectiva que aponta. Porém, o pragmatismo saxónico não se compadece com os devaneios à nossa escala. Eles viram-se mais para o querer do eleitorado que para as “artimanhas” do pensamento de quem deseja sobrepor sua vontade e interesse aos demais. Não se revela admissível essa equação que aponta sobre May.

  2. Não estou a perceber com o ponto 2 funcionaria: o Alexandre Guerra está a sugerir que em cada círculo eleitoral o Partido Conservador apresentasse dois candidatos, um contra e outra a favor do brexit? Atendendo ao sistema eleitoral britânico, isso daria uma de duas coisas: ou uma maioria absolutíssima para os Trabalhistas, ou os eleitores conservadores a votarem taticamente circulo a circulo (o que poderia ser usado para depois negar que o resultado final correspondesse ao desejo real do eleitorado)

  3. Caro Alexandre Guerra:
    Disse: «Já Iglesias, uma espécie de Catarina Martins numa versão mais tolerável,»
    Numa versão mais tolerável?
    Em que fundamenta tal afirmação?
    Por se ter apresentado perante o Rei de calças de ganga, camisa aos quadrados e de mangas arregaçadas?
    A Catarina Martins, pelo menos desse ponto de vista, é bastante mais decente.
    E quanto às ideias tolas, pelo menos até agora tem-nas deixado para a retórica de entreter parolos no BE, dando-lhes a ideia de que está contra a tibieza das medidas do governo do PS mas aguentando o que seria impensável para muita gente há meses.
    Portanto, muito mais realista, apesar de o discurso continuar tolo.

  4. -“Uma solução para a problemática do Brexit é aquilo que proponho a Theresa May (…)”

    Conhece a Theresinha? Eu também tenho as minhas fantasias, mas costumam ter por objecto senhoras mais agradáveis à vista

  5. — “Já Iglesias, uma espécie de Catarina Martins numa versão mais tolerável”

    O que defende que Espanha deve pedir desculpa aos “árabes” por ter corrido com eles do território que tinham invadido? Deviam era deportá-lo para Ceuta, mais a cambada que pensa como ele.

  6. E aqui mais uma vez bem demonstradas pela própria voz as manipulações dos políticos “mainstream”.

    Um referendo está num patamar diferente, superior a uma eleição. Por isso é que foi realizado por se considerar que uma eleição não responde à questão particular em causa.
    Se um político republicano em Inglaterra for eleito quer dizer que os Ingleses votaram para acabar com a Monarquia?

    “Já Iglesias, uma espécie de Catarina Martins numa versão mais tolerável”

    Haha, está é fantástica no reescrever da história, Iglesias ultrapassa o nojo da Catarina Martins em larga escala, até é financiado pelo Regime Iraniano Islamista e pelo regime Venezuelano.

  7. … Eleições vs referendo. Qual das consultas será mais democracia ?. Ambas o são. Cada uma com o seu ambito específico.

    Brexit ou não referendo Brexit, qualquer que tivesse sido o resultado, a invasão islâmica, enfim, tinha que ser contida. A incompetente Merckel ainda não percebeu.

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