1. José Sócrates não percebe a mudança de opinião de Manuela Ferreira Leite relativamente ao TGV entre 2003 e 2009. Eu explico:
2. José Sócrates acusou Ferreira Leite de oportunismo político pela posição desfavorável do PSD sobre as auto-estradas SCUT e a inexistência de qualquer proposta nesse sentido no programa minúsculo do PSD. Concordo com Sócrates, mas convém recordar que no seu programa de 2005, o PS dizia que as SCUT "deverão permanecer como vias sem portagem enquanto se mantiverem as condições que justificaram a sua implementação, em nome da coesão nacional e territorial", mas em 2006 introduziu portagens em três auto-estradas SCUT do litoral norte. Oportunismo político? Claro, José Sócrates sabe do que fala.



O PS anunciou de facto a intenção de introduzir portagens na A29, A28 e A41 em 2006, mas tal nunca chegou a acontecer.
Entretanto a intenção de ter portagens na A41 já desapareceu e o Mário Lino disse claramente que se mantém o interesse em colocar portagens na A28, A29 e A17 para a próxima legislatura ainda ontem, logo não há assim tanto oportunismo quanto isso, na minha opinião.
Confesso que não sabia que ainda não estavam em funcionamento. Mas fui pesquisar, porque não só lembrava-me perfeitamente do anúncio, como recordava-me das garantias sucessivas do governo de que as mesmas eram coisa certa e entrariam em funcionamento. Pelos vistos, foram anunciadas em 2006. Em 2007, o governo garantiu que até ao final desse ano estariam em funcionamento. Depois, existiram problemas legais e técnicos (não previstos pelo governo, e isto é importante para o que está em apreciação: o governo não adiou porque quis, adiou porque a isso foi obrigado) que fizeram com que o processo sofresse um atraso, mas o governo garantiu que em 2008 as portagens estariam efectivamente a funcionar. No final de 2008, o secretário de Estado responsável (Paulo Campos, quem mais) garantiu que a decisão de introduzir as portagens estava tomada, os novos contratos já estavam negociados com as concessionárias e os aspectos técnicos resolvidos (mas, presumo eu, o final de 2008/início de 2009 já não era timing adequado à introdução de algo que iria provocar contestação, nessa fase, já o governo havia abdicado de governar). E agora, diz-me o Tiago, que o governo mantém o interesse em colocar as portagens, mas só depois das eleições. Que conveniente: só depois das eleições. Mais conveniente ainda é que no programa eleitoral actual do PS, sobre as SCUT, continuem única e exclusivamente a afirmar o mesmo que em 2005: “Quanto às SCUT, deverão permanecer como vias sem portagem enquanto se mantiverem as duas condições que justificaram, em nome da coesão nacional e territorial, a sua implementação”. Oportunismo político? Nada.
O secretário de Estado Paulo Campos? Já estou a perceber. Ele deve ter dito assim ao Conselho:
– O Paulo Campos pede para o deixarem telefonar à sua grande amiga Joana Amaral Dias. Ela há-de aceitar a gestão do destino a dar às SCUT se for o Campos a pedir-lhe.
Foi o Campos a correr pedir-lhe, mas ela talvez não seja uma grande amiga e não aceitou. Vai daí, a coisa cristalizou.
Paulo Campos voltou então ao Conselho e informou:
– Foi o Campos a correr pedir-lhe, mas ela talvez não seja uma grande amiga e não aceitou. Vai daí, a coisa cristalizou.
Portanto, fica para a próxima.
Eheheh. Deve ter sido isso.
Ora aí está o que Manuela Ferreira Leite lhe devia ter dito no debate de ontem. Mas nem uma palavra sobre isso. Por dificuldade de expressão? Por falta de preparação para este debate? Fica a dúvida. JPP há-de explicar aos simples mortais na próxima Quadratura Eleitoral, tempo de antena de António Costa.
No que toca às SCUT não há tradutor que a salve: foi vergonhosa a volta de 180ª que deu relativamente à posição anterior do PSD. Não admira por isso que tenha ficado sem grande coisa para dizer.
Mas no caso do TGV esta foi clara. E quem precisaria de um tradutor seria José Sócrates, porque no tema fez uma comparação de equivalência entre a recessão em 2003 e a recessão em 2009, o que só por si mostra o nível argumentativo paupérrimo de alguém que foi durante os últimos cinco anos primeiro-ministro deste país. Então, não é esta a maior crise dos últimos cem anos? Afinal, pode ser comparada ao que se passou em 2003? Muito esclarecido fiquei. O primeiro-ministro demonstra não conhecer, não perceber, ou, a hipótese mais provável, fingir não conhecer e perceber, o actual problema de endividamento que afecta o país.
Jorge,
Quanto ao gráfico da dívida externa, se quiseres passar lá no estaminé (pode ser no meu) tens uma explicação que se me permites ficaria bem a acompanhar essa evolução. E a descrição de uma estratégia de combates ao problema. Porque o PSD eu sei que não tem uma (não vão fechar fronteiras e voltar à substituição de importações, suponho), por isso em economia aberta, eu só vejo um caminho que é lá descrito. Agora, na óptica de um liberal, como legitimamente te assumes, mais do que o diagnóstico eu gostava de saber o que pensas:
a) da razão desse acréscimo de endividamento, que lá clarifico porque MFL convenientemente omitiu;
b) da solução que proporias ao problema.
Abraço,
Carlos Santos
Carlos,
como alguém uma vez afirmou: “O debate que me parece sério é apenas entre endividamento e crise.” Quando alguém aceita que tal debate é sério, e a frase é tua, já está a aceitar o argumento de Ferreira Leite como muito válido. Podes achar que o endividamento do país no actual momento não é o mais preocupante e temos coisas mais importantes com que nos preocupar, mas não ignoras, e só por má fé é que os considerarias demagógicos, os argumentos de quem está preocupado com o endividamento português (e, repara, o debate sobre o que fez com que nos endividássemos é muito importante, mas independentemente da causa, endividados estamos, e é a partir dessa realidade que temos de actuar).
Quanto à aposta em energias renováveis, estas até podem ter um efeito benéfico no longo prazo, mas introduzi-las numa discussão sobre a resolução da situação actual não me parece correcto. O sector das energias renováveis vai prosperando em Portugal, mas é preciso afirmar porquê: é subsidiado. Os subsídios têm um custo. E se do ponto de vista estrutural, a pensar no médio/longo prazo, essa aposta pode vir a dar resultado, no actual momento só nos dificulta ainda mais a vida, porque estamos a desviar recursos de actividades eficientes para actividade não eficientes.
Por fim, eu sei o que não é solução para o problema que enfrentamos: aumentar o endividamento público, ainda por cima num projecto de rentabilidade altamente duvidoso como o TGV. O Estado, em vez de andar preocupado em ser o motor da economia, devia era andar preocupado com os factores onde constitui um entrave à competitividade das empresas. E aí não faltam exemplos: legislação laboral e fiscal; justiça; sistema educativo; administração pública.
PS: já agora, gostava que me esclarecesses quais são as agências de rating mais reputadas que a Standard & Poor’s, que não só alertou para o problema da dívida portuguesa como baixou o nosso rating. E, recentemente, a Fitch Ratings, presumo que também não é reputada, reviu em baixa para “negativa” a sua estimativa de evolução da notação da dívida do Estado português, devido ao impacto da crise nas contas públicas.
Sobre o “porreirismo, pá” socialista…
Nesta época do porreirismo
e de falaciosas aparências,
há quem faça malabarismo
com ignóbeis incoerências.
O elevado endividamento
por demais evidente,
é a matéria do cimento
de políticas decadentes.