Doze acima do par


Rui Rocha,

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A fotografia de José Palazón, da ONG Prodein, é um instantâneo sobre pobrezas. O campo de golf de Melilla foi pago com fundos da União Europeia. Dois milhões de euros para “reduzir as diferenças de desenvolvimento entre as diferentes regiões da UE”. Suspensos da ironia, aí os temos. Doze seres humanos pendurados numa barreira. Como aves que encontram nos fios eléctricos uma réstia de calor que os ajuda a suportar o Inverno. Em Melilla faz calor por estes dias. Mas os doze seres humanos, como muitos outros milhares, antes e depois deles, já decidiram. É melhor arriscar a vida nas lâminas pontiagudas da barreira, desenhada para os manter lá no fundo, do que ficar atrás dela, sumidos na miséria. As lâminas da barreira são o mais próximo que conseguirão estar da ilusão do conforto. Como os pássaros pendurados no fio estão do calor, no Inverno. Doze seres humanos por um fio, lá em cima. E um par de golfistas humanos, no verdejante campo construído com fundos destinados a promover a igualdade, cá em baixo. Doze acima do par. O instântaneo capta o momento em que a bola já partiu. O golfista dos imaculados calções brancos completa o movimento técnico perfeito da tacada enquanto a bola voa em direcção ao teu destino. Podes virar as costas. Podes fechar os olhos. A bola vem direitinha à tua cara.

9 comentários em “Doze acima do par”

  1. Sou um seu fidelíssimo leitor.
    Os seus textos , que leio “com vagar e proveito”,já me fizeram rir e, pelo menos uma vez, um deles comoveu-me profundadamente.
    Por isso espero que não leve a mal a opinião de que , desta vez, cedeu ao “facilitismo” – com a melhor das intenções e com um forte sentimento de caridade, disso estou certo.
    Mas o cerne da questão não é esse…
    Peço que aceite os meus cumprimentos.

  2. Mais politicas, cidadãos e jornalistas precisam de clamar com os burocratas de Bruxelas, para que com uma formação profissional nos países de origem e politica de imigração transparente e publicitada se reduza imenso este desespero de milhares(fora os que morrem que ninguem sabe estimar) que simplesmente precisam de alguem que os ajude a ter melhor vida.
    Mas por favor parem de mandar dinheiro a ONG,s de fachada tipo a do P.Coelho.- quem dá e ajuda merece que haja mais seriedade nos milhoes “de ajuda”.

  3. A foto é chocante? É. Eu não jogo golfe, mas de modo algum me sentiria confortável (como agora se diz) naquele campo do dito. E muito menos em cima do muro.

    Isto dito, gostava de fazer nem que fosse uma vaga ideia de como pode um continente como a Europa acolher e integrar (os que o quisessem, claro) centenas de milhares de desgraçados de África, sem quaisquer qualificações, sem conhecimentos de línguas, etc, etc.

    O dr. António Vitorino, que não é propriamente a madama LePen nem o pregador Louçã, tem discorrido sobre (e alertado para) o problema…

  4. Ainda não percebi qual é o problema da foto. De um lado um legítimo campo de golfe. Ao fundo uma fronteira. Como qualquer outra fronteira só deixa passar quem tem visto e passaporte. E então? O campo ficava melhor noutro sítio? Talvez!
    Se aquele muro incomoda e tem de cair porque raio não acabamos com a tortura que são as passagens no aeroporto por controles de fronteira? Aquele muro é tão vergonhoso como aquele traço no chão dos aeroportos antes do controle da fronteira.
    A culpa daqueles senhores estarem em cima do muro em vez de estarem a jogar golfe, ou futebol, ou vólei nas suas terras é dos oligarcas corruptos que governam os seus países endogenamente ricos!

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