Não se esqueça, disse-me uma vez, que o amor pelos animais não acontece naturalmente aos humanos se não se predispuserem a prestar-lhes atenção e a aceitar o amor que eles têm por nós. É como o amor de Deus, inteiro e desinteressado, e por essa razão tanto mais difícil de perceber e abraçar, um amor sem negócio, sem contrapartida, sem condições.
Também ele não soubera o que eram os animais até muito tarde e, tal como sucede a todos os que os descobrem, tratara-se de uma verdadeira conversão, como aquela que se exprime na parábola de S. Paulo na estrada de Damasco: de súbito acende-se dentro de nós uma claridade que nunca mais é possível apagar. Há muita gente que não gosta de animais nem de pessoas, o que é compreensível; há gente que gosta de animais mas não de pessoas, o que é lógico; mas não há ninguém que não goste de animais e goste de pessoas, esta última hipótese não pode verificar-se, porque quem não consegue experimentar o amor sem causa não pode encontrar em parte alguma causa bastante para o amor.
Paulo Varela Gomes, O Verão de 2012. Edições Tinta-da-China.
Trata-se de uma obra de ficção e o ponto de vista inicial é de uma personagem com posições frequentemente discutíveis. Mas, goste-se ou não, considere-se ou não preocupante que muita gente pareça defender mais os direitos dos animais do que os de outras pessoas, ache-se ou não que o ser humano, tendo forçado tantas espécies de animais à domesticação e ao cruzamento forçado para que o ajudassem a melhorar as suas condições de vida, tem uma responsabilidade perante eles e não devia hoje, num mundo ocidental em que a máquina os substituiu, estar tão predisposto a ignorar-lhes as conveniências, abandonando-os ou permitindo o seu abate assim que se tornam incómodos, não deixa de ser verdade: talvez mais do que gostar-se dos animais porque o cinema e a literatura os ‘antropomorfizaram’, gosta-se deles pelo motivo quase diametralmente oposto: porque não são parecidos com os humanos; não traem nem magoam de propósito e, pelo menos no caso dos cães, tendem a reforçar as posições dos humanos com que se relacionam em vez de as criticarem (ainda que saibamos ter errado, é óptimo obter apoio incondicional). Numa sociedade em que as pessoas, parecendo comunicar cada vez mais, se encontram cada vez mais fechadas em si mesmas, numa sociedade onde a cada dia se renova o paradoxo de que a exposição dos detalhes mais íntimos não equivale a exorcizar os medos nem as inseguranças, antes a renová-los e fortalecê-los, numa sociedade de interesses e frieza, à qual a crise económica veio acrescentar ainda mais dúvidas e temores, os outros humanos não inspiram confiança. Podem ter segundas intenções. Podem – e certamente irão – mudar. Os animais, não – ou não com maldade. A maldade é exclusivamente humana.
O livro, acerca do qual, tendo lido pouco mais de metade hoje de manhã, ainda não possuo uma opinião definitiva, está deliciosamente bem escrito. Em – sucede com praticamente todos os autores de língua portuguesa que vale a pena ler – português pré-Acordo.


Muito bom Jaa. A maldade é exclusivamente humana. Bj
Obrigado, Patrícia. Beijinho.
Sublinho (concordando) o conceito de que não há ninguém que não goste de animais e goste de pessoas.
Obrigado por indicar um livro que vou certamente ler.
Cumprimentos.
Sssssstress (espero ter acertado no número de ‘esses’): o livro não é sobre animais, antes sobre uma pessoa de esquerda que, desiludida e confrontada com uma acumulação de sinais negativos (parte real, parte auto-induzida) que a fazem questionar o mundo e a sua própria mortalidade, decide realizar um acto extremo. A meditação sobre os animais, como várias outras acerca de outros temas, insere-se na análise, por vezes embevecida pela beleza do mundo, frequentemente horrorizada pelo seu rumo, que essa personagem efectua.
Percebi!
Mas obrg pelo esclarecimento.
Cumprimentos.
Há pessoas que admiro muito sem nunca precisar de subscrever tudo quanto dizem ou defendem. É o caso do Paulo Varela Gomes. Um dos homens intelectualmente mais íntegros em Portugal. Além do mais, e como referes, escreve muito bem.
E como parece cada vez mais raro este dom entre torrentes de prosa mal parida que a toda a hora nos invade o quotidiano, sem bater à porta nem pedir licença…
O livro – que entretanto já acabei de ler – é exemplar de quase tudo o que escreveste: há muitas partes com que não concordo (mesmo levando em conta que se trata de ficção e que o narrador vai assegurando algum distanciamento em relação às posições da personagem principal) mas é difícil não apreciar a sinceridade e a beleza da escrita.
Podemos não estar de acordo quando se discute economia ou política, mas quando escreves sobre amores e humores quase sempre me identifico contigo. Gostei tanto de ler este post!
Obrigado, Teresa. E não sei se discordamos assim tanto na política e na economia. Pelo menos há muitos posts teus com que concordo.
Obrigada, obrigada, obrigada!
Adorei!
O jaa recuperou a minha crença no Delito, que, confesso, andava um pouco (um pouquito) abalada.
Goste-se de animais, ou não, deve-se respeitá-los, incluindo os animais que servem para a nossa alimentação. Servimo-nos deles e não os respeitamos! É mesmo humano!
Se tivermos a humildade de os respeitar, aprendemos a respeitarmo-nos melhor.
A Helena, do 2 Dedos de Conversa, publicou hoje um vídeo incrível, que lhe aconselho vivamente, caro jaa, aqui:
http://conversa2.blogspot.de/2013/03/o-m undo-segundo-tippi.html
Antropomorfização incluída 🙂
Já não sei de quem são estes versos, que traduzi do alemão para português, mas hei de averiguar:
“Que o ser que mais amo seja o cão
Dizes tu, Homem, que é pecado.
O cão é-me fiel no furacão,
Ao mínimo vento o Homem se faz ao largo.”
Eia, acho que é a primeira vez que recupero a fé de alguém seja lá no que for… 🙂
Obrigado pelo link. Tal como a Cristina quando pôs o comentário no 2 Dedos de Conversa, ainda só vi uns minutos mas garanto que vou ver o resto. Quer dizer, se tiver coragem – aqui entre nós, com ou sem maldade, brincar com cobras e leopardos parece-me um bocado perigoso. 😉
Não há dúvida de que é perigoso, eu nunca me atreveria! Mas saber que é possível comunicar com os animais dessa maneira, mesmo que se trate de casos raros, já me encanta. É algo que nos transcende, uma espécie de telepatia, penso eu 🙂
Ah, é verdade: a quadra é de autoria de São Francisco de Assis 😉
Faz sentido. 🙂
P.S. Tenho ouvido falar muito deste livro de Paulo Varela Gomes. Vou ter de o ler, claro 🙂
Atenção, o livro não é sobre a relação dos humanos com os animais (veja na resposta a um comentário mais acima uma descrição um pouco mais longa). Eu é que não resisti a usar esta passagem para alinhavar o post.
Eu sei. Já li alguns excertos publicados noutro blogue e de que dou aqui um exemplo:
http://nemsemprealapis.blogspot.de/2013/0 2/papiro-do-dia-290.html
Mas confesso que foi este o excerto que, definitivamente, me resolveu 😉
P.P.S. Não deixa de ser triste que o amor “inteiro e desinteressado”, o “amor sem negócio, sem contrapartida, sem condições” seja “mais difícil de perceber e abraçar”.
De facto. Mas convém reconhecer que todos os animais – incluindo, portanto, o ser humano – agem quase sempre por interesse e que, por outro lado, o ser humano também é capaz de “amor inteiro e desinteressado”. Talvez a grande diferença – note-se que estou a inventar à medida que escrevo – seja que os animais tendem a manter uma fidelidade constante após o momento em que esse amor é despoletado (um cão não gosta menos de um humano após dez anos de vida em comum) enquanto os humanos são mais volúveis. Afinal, não é pergunta “o que pretendes de mim?” tão comum nas relações entre humanos após algum tempo? O raciocínio, a capacidade analítica, a necessidade de ‘equilíbrio’ no deve-e-haver (de sentir estar a receber tanto quanto se está a dar) suscitam muitos problemas – que os animais não têm.
De qualquer maneira, desilude-me bastante que nem todos os humanos sejam capazes de um amor desinteressado (às tantas, são bem poucos). Nem com os próprios filhos isso é conseguido! Quantos pais não tentam brilhar à custa das habilidades e qualidades dos filhos? Quantos pais não descarregam neles as suas frustrações e os seus desgostos (e, neste caso, não me refiro apenas a violências físicas)? Quantos pais não chantageiam os filhos, do género: para que goste de ti, tens de ser bom aluno, ou de me ajudar, ou de ser bom para mim, etc.?
Acho muito, muito triste, caro jaa!
Cristina:
Parece-me que, de certa forma, o ser humano expandiu a luta pela sobrevivência, bem como a luta pela posição dominante na manada, do plano dos instintos para o plano da ‘racionalidade’; isto é, a capacidade de pensar e de comparar leva a querer mais e, consciente ou inconscientemente, a agir em função disso, bem como a ficar frustrado quando se falha – ou antevê falhar – o objectivo. Sendo pena que a evolução não tenha permitido instintos mais simpáticos, não será assim tão diferente do que se passa em muitas espécies animais (há lutas pelo controlo, há machos que matam as crias, etc, etc) – apenas elevado ao expoente das capacidades humanas e limitado pelas noções de ética entretanto instituídas e assimiladas.
(Acho que nem vou reler isto para ver se faz sentido ou já não clico em “publicar comentário”.)
Eu acho que faz sentido, sim 😉
Não ponho em causa a nossa superioridade e é claro que somos muito mais exigentes, temos outras necessidades, outras aspirações. Mas muita gente acha isto impeditivo de se respeitarem os animais, não se tendo consciência de, como o jaa diz, em certos aspetos, estarmos ainda muito perto deles.
“Os animais, não – ou não com maldade. A maldade é exclusivamente humana.”
Os animais também têm maldade. Conheço um cão que se põe a jeito para receber uma festa mas não passa de uma trapaça para poder morder. Não é um cão treinado.
lucklucy:
Não conheço o cão mas tem a certeza de que o “pôr-se a jeito” não é uma reacção de timidez e que o ataque não se deve a um ataque de pânico no último instante?
Discordo do post em dois pontos.
(1) Os animais também têm maldade. A começar pelos cães que, sem que ninguém os provoque, ladram e ameaçam estranhos que passem perto deles. Já por mais que uma vez tive que voltar para trás, num caminho, por ter um cão ameaçador a barrar-mo.
(2) As pessoas gostam dos animais, e têm animais de companhia, não porque eles não tenham maldade, mas simplesmente porque não têm filhos. Sem filhos, as pessoas não têm nada que fazer, nem ninguém a quem se dedicar, por isso arranjam um animal para lhes fazer companhia. É essa a razão pela qual hoje em dia há muitos mais animais de companhia do que outrora: porque a natalidade diminuiu. É também a razão pela qual algumas pessoas amam os animais com um fanatismo que, normalmente, só se dedicaria a um filho.
Luís:
Um cão ladra por instinto e também para esconder o medo. E pode mesmo morder sem que isso configure maldade. Maldade não é o mesmo que fazer mal. Pressupõe ter consciência de se estar a magoar outrém, possuindo meios para o evitar – e de se tirar prazer disso. Uma criança que arranca as asas a uma mosca pode não o fazer com maldade: basta que ainda não perceba toda a extensão do acto que pratica. Ora nenhum animal, mesmo quando ataca, morde, mata, tem verdadeira noção da dor infligida e, muito menos, do sentido do bem e do mal. É por isso que conceitos como maldade dificilmente se lhe aplicam.
Quanto ao motivo por que as pessoas gostam de animais, concordo que a sua teoria tem razão de ser mas acho que é apenas uma parte da resposta.
A sua teoria sobre a (não)-maldade dos animais é tautológica. O que você diz equivale a dizer que, por definição, um animal não tem maldade. (Uma vez que não há maldade sem consciência dela, e uma vez que um animal não tem consciência.) É portanto uma teoria sem utilidade.
A minha teoria é pragmática: um animal tem maldade porque comete atos maus. Estou-me nas tintas para a consciência do animal, o que me interessa são os atos que ele comete.
Ok, tentando de outra forma:
Há maldade num humano que mata um coelho para poder saciar a fome? E se matar o coelho apenas para se divertir? E se matar o coelho devagar, fazendo-lhe golpes nas orelhas e arrancando-lhe a pele, igualmente para se divertir? Será tudo a mesma coisa?
Gostei de ler-te. E gostarei de ler este livro, que já me tinham recomendado. A integridade é uma coisa rara. E a do Paulo Varela Gomes é reconhecida por unanimidade, o que é ainda mais raro. Olha, sabes que mais? Mesmo que escrevesse em acordês, eu lia-o.
🙂
Obrigado, Ana.
Eu não.
Não consigo ser radical em nada. É genético.