
Havia ali um apelo à insurgência. A letra da música falava de frustrações e de uma exasperação profunda, mas o videoclip instigava à revolta. Do ponto de vista estético, a explicação era simples: o realizador do vídeo de Zombie, dos The Cranberries, dirigira uns anos antes o clip do imortal Smells Like a Teen Spirit, dos Nirvana. No entanto, o apelo à revolta presente nas imagens tinha razões bem mais importantes: Zombie foi inspirado no atentado do IRA ocorrido a 20 de Março de 1993, em Warrington, Inglaterra, onde morreram duas crianças. A religião, a política, e uma sociedade rasgada ao meio apareciam no videoclip de forma explícita e sem recorrer a figurantes. Os irlandeses The Cranberries, que já andavam nas tabelas com baladas como Linger, entravam sem medo no campo minado da crítica a uma organização terrorista.
Zombie, o single do segundo álbum da banda, tomou as rádios e as televisões de assalto, fazendo da banda uma das mais importantes e icónicas da década de 1990. A 31 de Agosto de 1994, poucas semanas depois do lançamento desta música, o IRA declarou um cessar-fogo “completo”, interrompendo 25 anos de violência que deixaram um rasto de cerca de 3000 mortos. A cessação da campanha de terror foi o culminar de mais de 18 meses de conversações, mas não será exagerado assumir que o sucesso de Zombie – e a pressão social por ele gerado – terão dado uma ajuda.
Dolores O’Riordan, vocalista dos The Cranberries, morreu ontem aos 46 anos.

Bela homenagem fazes à Dolores O’ Riordan, Diogo. Tão cedo desaparecida. Ficam-nos a voz e as interpretações dela. Inesquecíveis.
No meio disto tudo, e discordando completamente do modus operandi do IRA, questiono-me: porque está a Irlanda dividida em duas?
Voz e postura inesquecíveis.
Óptimo testemunho, Diogo. Não era propriamente fã dos Cranberries e acho que nunca comprei um álbum deles nem os vi ao vivo (cheguei a fazer planos para isso, e notei-lhes uma certa decadência quando soube que eles dariam um concerto num festival de Cantanhede). Mas não passavam despercebidos a quem era adolescente em meados dos anos noventa. “Zombie” tornou-se um dos “hinos” radiofónicos da época, tal como “Ode to my Family”. Dolores O´Riordan tinha uma voz tão poderosa como delicodoce. Era mesmo uma das grandes vozes do pop rock da década de noventa.
Tens razão, a decadência instalou-se (surpreende-me que não tenha marcado a banda antes, desde logo porque parte das razões da decadência, e dos problemas da Dolores O’Riordan, são anteriores à criação dos The Cranberries). Mas sim, para quem passou a adolescência nos anos noventa, Linger, Dreams, Zombie e Salvation queimaram muita fita de cassete em walkmans.
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