Dois nórdicos, vanguarda artística e libertação feminina (ou talvez: post reaccionário)


escafandro,

 

Em 1879, no final de Uma Casa de Bonecas, do norueguês Ibsen, Nora abandona o lar (incluindo os filhos) após perceber que nunca passara de uma boneca, de um troféu servindo os interesses do marido. Foi um escândalo, apesar de Nora não ter vontade de abandonar os filhos. Na Alemanha, obrigaram Ibsen a alterar o final.

Em 1953, no final de Monika e o Desejo (ou, em versão mais conforme o original, Verão com Monika), do sueco Bergman, Monika abandona casa e família (incluindo o filho) por não desejar aceitar as responsabilidades da idade adulta. O filme também suscitou alguma polémica mas mais na sequência das cenas de nudez e do pormenor de Monika não ter as axilas depiladas do que em resultado de Monika abandonar o filho por não aceitar viver uma vida manietada por ele.

Em 1966, em Persona, também de Bergman, a enfermeira Alma conta a história de Elisabet, a actriz que se recusa a falar, defronte desta. Elizabet engravidou por lhe terem dito que a falta de instinto maternal a tornava pior actriz e depois recusou o filho. O filme foi discutido mas não parece ter existido polémica em torno dos motivos de Elisabet: egoísmo (antes de engravidar), repulsa (depois).

Se Elisabet engravidou voluntariamente e Nora amava os filhos, sensivelmente por alturas de Persona a pílula fez com que o problema de Monika deixasse de ser uma inevitabilidade, transformando os filhos numa escolha prévia. Mais do que contra os homens (para quem, fora do âmbito de um casamento desejado e financeiramente estável, os filhos também sempre constituíram um pesadelo, embora – a injusta vantagem masculina – nem sempre uma responsabilidade), a liberdade sexual feminina foi conquistada contra a maternidade. Ibsen, personalidade complexa que aos dezoito anos engravidou uma rapariga dez anos mais velha e nunca manteve contacto com o filho, sabia-o – ou, pelo menos, intuiu-o. Bergman, que viveu num tempo em que estilhaçar tabus era quase um pré-requisito para se poder ser levado a sério, também. Que a sociedade (pelo menos a sociedade que já ouviu falar das peças de Ibsen e dos filmes de Bergman) pareça tender a aceitar que a ligação entre uma mãe e um filho pode, naturalmente, quase sem discussão, ser subjugada à ideia da liberdade individual e da busca por uma felicidade cada vez mais ilusória (porque centrada em elementos externos: fama, riqueza, beleza, consumo, …), bom, esse é um daqueles assuntos que as noções do politicamente correcto vêm transformando num tabu, numa época em que parecem restar tão poucos (um sério problema para a arte, que, exceptuando uma ou outra tímida tentativa para redefinir o conceito de inocência – no cinema, fiquemos por Malick –, pouco mais faz do que insistir em efeitos de choque cada vez mais gastos ou em jogos de interpretação quase aleatória, com pouco evidentes ligações ao real). De forma mais genérica: até que ponto são os valores necessários numa sociedade «desenvolvida»? E que valores? Sendo certo que há vantagens numa sociedade não manietada pelos mais tradicionais: as noções de culpa desvanecem-se pois, mais cedo ou mais tarde, toda a gente acaba no mesmo barco. Não há culpados mas também não há inocentes. A outra personagem feminina de Persona, a tal enfermeira chamada Alma, não abandonou qualquer filho; abortou um.

29 comentários em “Dois nórdicos, vanguarda artística e libertação feminina (ou talvez: post reaccionário)”

  1. O passado, mas sobretudo a compreensão do passado permite às sociedades modelar o futuro.
    Certamente modelam mal, e ainda bem… mal seria se tudo fosse previsível.
    Por isso não há “sociedades desenvolvidas” há apenas sociedades em desenvolvimento.
    Esquecendo o passado, voltariam a ser crianças sujeitas a todos os erros dos ignotos, sujeitas a novo crescer formado pelos vícios dos “educadores”.
    Enquanto as histórias forem erradas, a educação é errada, e cai-se na ilusão de desenvolvimento adquirido, quando se trata apenas de um processo incompleto que necessita de toda a compreensão.
    Quanto menos compreensão e informação houver, mais a sociedade estará sujeita a mudanças bruscas.
    É mesmo uma questão simples de estrutura física.

    1. De acordo. “Desenvolvidas” tinha a ver com o sentido habitual em que o termo é usado (mais ricas, mais democráticas, genericamente mais livres) e não pretendia denotar qualquer sentido de fim de curso (daí as aspas, até).

  2. Este post ganharia muito em ter parágrafos e frases mais curtas, para se perceber exatamente o que pretende o autor dizer.

    transformando os filhos numa escolha prévia

    Para pessoas educadas e da classe alta, pode parecer impossível, mas há ainda muitos filhos que não são escolhas prévias, que aparecem por acaso.

    1. Parágrafos, ele tem: quatro. Podiam estar separados por espaços mas, não sei porquê, às vezes não gosto do efeito. Quanto às frases mais curtas, é uma questão de estilo pessoal (que admito não agradar a todos) mas, de qualquer modo, apenas uma é realmente muito comprida.

      Claro que sim. E onde os problemas associados a essa falta de vontade de os ter permanecem. Ainda assim, a pílula transformou completamente a sexualidade – feminina e, por extensão, masculina.

  3. A mulher foi, durante muito tempo, considerada apenas um meio de gerar filhos e de se ocupar deles. A mulher não fazia parte da sociedade, os homens eram a sociedade. A mulher era quase um “mal necessário”, a fim de assegurar a continuidade da espécie (e de servir de divertimento, mas essas não eram as senhoras casadas). A vida tornou-se-lhes insustentável, o espartilho era apertadíssimo e algumas não o aguentaram.

    No fundo, não se trata de valores, mas, sim, de sentimentos. Se os sentimentos e a essência de cada um forem respeitados, dificilmente depararemos com casos extremos como estes. É precisamente a tentativa de manter valores a todo o custo que culmina em situações aberrantes, porque, ao espartilharmos as pessoas, lhes estamos a negar sentimentos próprios e a dar-lhes uma educação totalmente desajustada.

    O natural é uma mulher amar os filhos que gere, desvios destes vêm precisamente do facto de elas não aguentarem situações que lhes anula as vontades e os sentimentos. Porque é mais importante ser uma mulher honrada (o facto de amar, ou não, os filhos é indiferente, desde que mantenha as aparências), do que ser uma boa mãe, mas, digamos, promíscua em termos sexuais.

    Não digo que os valores não sejam necessários. Mas eu acho que a sociedade devia concentrar-se mais nos sentimentos.

    1. O problema dos sentimentos é que, por si só, não podem servir para basear um sistema de valores. Através dos sentimentos, nós conseguimos compreender os actos mais extremos. A arte, aliás, serve também para isso. Só que, sendo bom compreender o que pode levar alguém a actos extremos, subsiste a necessidade de um sistema de valores que não deixe de os classificar como errados – e até de os punir. Por exemplo: um familiar de alguém assassinado mata o assassino. Somos capaz de compreender, até de sentir empatia. No seu lugar, talvez fizéssemos o mesmo. Mas, se apenas os sentimentos contassem, essa pessoa não seria penalizada e teríamos um mundo sem lei. Um sistema de valores (como o que a lei pretende balizar) tem de se sobrepor aos sentimentos, embora os possa usar como atenuantes – ou agravantes.

      A questão da maternidade – e, mais genericamente, da aparente subalternização dos laços tradicionais (alguns eventualmente mantidos por aparência, sim) a valores mais superficiais – é apenas um exemplo que adveio de ter andado a ler Ibsen e a rever alguns filmes de Bergman. 🙂

      1. Eu defendo uma maior flexibilidade entre valores e sentimentos. A imposição de valores, a todo o custo, ignorando a identidade individual, é, na minha opinião, causa de grande parte das psicopatias.

        Repare que, respeitando os sentimentos de uma criança, dando-lhe espaço (o que não implica que se lhe não ensinem valores, digamos que se lhe deve dar um espaço controlado) ela, em adulta, tenderá muito menos a reações extremas (que vão desde a violência física a resoluções deste tipo, que magoam quem não devem magoar, ou que até estragam a vida de outrém – porque a vida de uma criança abandonada pela mãe está irremediavelmente estragada). Mas as reações extremas são sempre uma descarga de sentimentos recalcados.

        1. Eu não discordo nesse ponto. Não discordo sequer que os sentimentos possam ser levados em conta na avaliação de certos actos. Mas pensemos no caso de um pai ou de uma mãe que mata um filho (como em Portugal ainda recentemente aconteceu). É muito provável que ele/ela o tenha feito em circunstâncias particulares e que, mais tarde, se arrependa. Mas pode aceitar-se um sistema em que o acto passe incólume? E se dentro de uma centena de anos, porque a acumulação de casos eliminou o efeito de choque, já ninguém liga? Ou se calhar nem é preciso irmos tão longe: foi hábito no passado e julgo ainda o ser em algumas zonas do globo, abandonar as filhas recém-nascidas, condenando-as à morte. Em casos como estes, os sentimentos apenas funcionam se houver um sistema de valores em que se apoiem (ou – talvez seja mais exacto – que os gere).

          1. Não há dúvida de que quem comete um ato horrível se pode arrepender mais tarde. Mas eu não acredito que coisas dessas se tornem tão habituais, a ponto de eliminar o efeito de choque. Duvido muito que estejamos a viver uma época de inversão de valores, é um pressuposto que rejeito. Os valores vão e vêm, já houve tempos em que o infanticídio era aceite (em certas circunstâncias e com certas pessoas, porque havia distinção entre as pessoas), até a pedofilia já foi prática habitual e aceite (em certos meios). Vendo por esse prisma, até estamos numa época em que os valores vão sendo cada vez mais humanizados.

            Muitas vezes, esquecemo-nos de que os valores por que hoje nos regemos são relativamente recentes. Na História da Humanidade sempre houve escravos, por exemplo, o valor de que toda a gente deve ser igual perante a lei é muito recente. Mesmo a ideia da família tradicional (pai, mãe e filhos), como nós a concebemos hoje, só surgiu, de maneira alargada (isto é: praticável a todo o povo), a partir do século XVII. E o manter desse idílio a todo o custo esconde muita crueldade.

            O facto de os valores se tornarem mais, digamos, humanos e gerais não terá a ver com a prevalência dos sentimentos em relação a dogmas, ou costumes? Uma mãe que realmente ame o seu filho nunca o abandonará, mesmo pondo a hipótese de que todos lhe digam que é normal e que ninguém se chocará, ou a condenará.

            No fim, são as emoções, os sentimentos, que prevalecerão. Nós não passamos disso mesmo. Posso soar-lhe utópica, mas nunca conseguiremos viver num mundo justo, embora seja legítimo (e desejável) querer torná-lo o mais justo possível. Continuarei a acreditar que as emoções negativas (ódio, violência, etc.) advêm do facto de muita gente não ter conhecido o verdadeiro amor, o amor incondicional e desinteressado, em criança.

  4. “Mais do que contra os homens (para quem, fora do âmbito de um casamento desejado e financeiramente estável, os filhos também sempre constituíram um pesadelo, embora – a injusta vantagem masculina – nem sempre uma responsabilidade), a liberdade sexual feminina foi conquistada contra a maternidade” – Onde queres chegar, Jaa? Estou mesmo a detectar aqui um fio de nostalgia pela velha ordem patriarcal, ou é impressão minha?
    A relação com a maternidade modificou-se, claro. Passou a ser uma escolha e não um destino, mas a libertação sexual feminina alterou também a forma como os homens passaram a viver a sua própria sexualidade. A emancipação feminina, embora ainda em curso, foi impactante a tantos níveis… o demográfico é apenas um deles.

    1. Nostalgia nenhuma, Teresa (embora – como o título do post denota – esteja consciente de que essa leitura pode ser feita). Aliás, a liberdade sexual feminina (conquistada contra a ordem patriarcal que mencionas e – mantenho-o – contra a maternidade) ajudou imenso a que, hoje, os homens consigam sexo muito mais facilmente. 🙂
      A minha questão é mais de saber se, pelo caminho, não se abandonaram (ou estão a abandonar) valores importantes. De forma genérica, o facto de termos vindo a ficar mais livres tem ou não prejudicado valores importantes: sentido de comunidade, empatia pelo outro – e, sim, força dos laços familiares? Note-se a fragilidade das relações (muitas desfeitas ao primeiro contratempo), a redução da natalidade (e, ei, eu também não tenho filhos) e a aparente subordinação da família a valores de competição e consumo.

      Utilizei Ibsen (de quem sou fã, em grande medida precisamente pela forma como estilhaçou as hipocrisias que rodeavam o papel da mulher) e Begman (que também aprecio bastante, embora dependendo um pouco dos filmes) como exemplo do papel vanguardista da arte nestas questões. O problema é que a arte é melhor a mostrar fragilidades do que a construir alternativas. Nora, na peça de Ibsen, e Monika , no filme de Bergman , por motivos que o leitor/espectador consegue perceber, abandonam casa e filhos – e depois? O que se passa depois? Vê-se o excerto acima do filme de Bergman e percebe-se a vergonha de Elisabet . Mas será isso suficiente para justificar os seus actos? E se entretanto a vergonha for desaparecendo? Que sociedade restará?

      (Um dia destes tenho de escrever sobre uma série muito interessante, chamada “Girls”, que mostra – de forma agridoce – a sexualidade actual das pessoas de vinte e poucos anos. O ponto mais curioso é como o sexo é, por um lado, fácil e, por outro, quase inteiramente mecânico.)

      1. “o facto de termos vindo a ficar mais livres tem ou não prejudicado valores importantes: sentido de comunidade, empatia pelo outro – e, sim, força dos laços familiares?” – usas a primeira pessoal do plural. Mas é delas que falas. Deverias então ter escrito “O facto de as mulheres terem vindo a ficar mais livres…” E depois manter a conclusão. A de que essa liberdade “tem prejudicado valores importantes”.
        Ou não?

        1. Sim, tens razão. Até porque a grande diferença é, de facto, essa nova liberdade feminina. Que é positiva, claro – mas que talvez não tenha provocado apenas efeitos positivos. Se reparares, no post refiro que as noções do politicamente correcto fazem com que abordar estas questões seja quase um tabu. Mas abordá-las não é necessariamente contestar a parte fundamental da questão. Apenas perguntar se não haverá alguns efeitos negativos e o que pode ser feito, no quadro actual de mentalidades, para os minimizar. Se calhar nada há a fazer. Se calhar, para a maior parte das pessoas, a questão nem existe. Mas – e para voltar ao ponto da arte como vanguarda de comportamentos – a mim faz-me um pouco de confusão como em tantas séries e filmes (só para ficar pelos meios audiovisuais e por um único exemplo muito relacionado com as mulheres) o aborto é hoje um método de controlo de natalidade, tratado como se não tivesse (ainda tem? Até quando?) um custo emocional. Ou, se quiseres (porque o aborto – e é provavelmente necessário deixar claro que eu não sou a favor da ilegalização – é um assunto delicado, que torna difíceis os debates sérios) e exagerando um pouco, quando se vê como os filhos tantas vezes parecem hoje um empecilho para os pais (por razões compreensíveis – empregos, carreiras – e menos compreensíveis – desejo de ir de férias, de ter dinheiro para outras coisas), pode perguntar-se se, dentro de 100 ou 200 anos, a reprodução não estará, à imagem dos livros que mostram o que hoje nos parecem distopias, reservada a laboratórios e a centros de criação. Quer isto dizer que a mulher deveria voltar ao papel antigo? Não. Aceito o risco, aceito algumas consequências. Quero apenas que se pondere um e outras. Porque em muitos casos (não todos) o politicamente correcto me parece uma realidade quase pós-ética.

          1. O que era “bom” para a sociedade e tu lamentas, como a antiga “harmonia” familiar, dependia inteiramente da subalternização das mulheres. Os modelos tradicionais, por serem tradicionais dão-nos uma falsa ideia de equilíbrio, mas escondem muita perversão. Claro que a emancipação das mulheres trouxe problemas novos, até às próprias mulheres. Mas o balanço, apesar do que dizem as más línguas, é muito positivo 🙂

          2. Não lamento nada, não sejas teimosa. 🙂 O que existia tinha de acabar – como terá de acabar em tantas zonas do planeta onde ainda não acabou. Isso não impede que se discutam alguns (eventuais) pontos negativos. Falar abertamente é sempre melhor do que calar – e o medo das acusações de estar a ser politicamente incorrecto (já nem sei quantas tentaivas de precisão e salvaguarda fiz ao longo de texto e comentários) faz com que se cale muita coisa.

            De resto, tirando o “tu lamentas”, concordo com o teu comentário.

          3. Tenho estado a ler-vos com gosto. Concordo com a Teresa, Jaa, parece-me que há aí uma ponta de nostalgia, muito masculina, de um tempo em que tudo tinha menos ondas e menos imprevistos. Tudo mudou quando as mulheres decidiram que são mais do que berçários, máquinas de lavar e panelas de cozinha. Embora tenham complicado muito a própria vida com essa decisão (porque não deixaram de ser tudo isso e ainda assumiram todo um novo universo de responsabilidades) a liberdade que ganharam – não só sexual, diga-se vale bem o preço.
            Mas saúdo um homem que não cede ao politicamente correcto e se atreve a comentar os aspectos menos felizes destas conquistas, que também os há. A maternidade é um feito incomparável na vida de uma mulher, quase sempre a sua maior realização. Mas não deixa por isso de ser também o maior fardo de responsabilidade e de sentimento de culpa, devidamente explorado pela sociedade quando as coisas não correm como se esperava. Que é o mesmo que dizer “como os homens esperavam”, ainda hoje.

          4. Claro que sim. Mas alguma vez (e estou a incluir os “saudosos” tempos antigos) um homem conseguiu ganhar uma discussão com uma mulher?

            E eu tenho uma para apanhar mas parece-me que ainda não está bem seca. O que é bom porque não me está nada a apetecer passar a ferro.

          5. Ehehe. Nem a mim, livra. Só para mandar o ferro às malvas já se justifica plenamente a emancipação feminina. Por mim não queimava só os soutiens, queimava tudo o resto…

          6. Ana, o teu primeiro parágrafo anula o segundo. No segundo escreves que é positivo debater os assuntos mas, antes, já tinhas destruído qualquer hipótese de discussão ao considerares que o motivo para o assunto ser levantado é a nostalgia por tempos patriarcais. No fundo, deixas a nu o grande problema do politicamente correcto, a forma como frequentemente estreita o debate. Dois exemplos noutras áreas: quem pretende discutir alguns aspectos das energias renováveis está-se obviamente nas tintas para o bem-estar do planeta; quem pretende questionar como pode o sistema de educação ter chegado ao ponto de muitos professores terem medo dos alunos é saudosista do Estado Novo e das reguadas.
            Eu não tenho qualquer saudade de outros tempos (bom, talvez da época dos meus trinta e poucos anos – há uma dúzia, portanto -, em que o país ainda era inconsciente e feliz, mas não creio que isso seja recuar o suficiente para repor a sociedade patriarcal). Apenas me pergunto que valores é necessário manter, como podem eles ser mantidos na nova estrutura social e – no caso presente – se a arte, na sua ânsia de quebrar tabus, não acaba por apresentar como aceitáveis – e, logo, permitir que se disseminem – comportamentos no mínimo discutíveis (o que também não quer dizer que eu deseje a reimplantação da censura). Na verdade, já abordei (e tu também) esta questão em muitos outros posts, só que focando universos não definidos pelo género. Por exemplo: como a evolução dos valores altera a relação com os idosos; ou a relação dos jovens entre si; ou os relacionamentos amorosos; etc, etc.

          7. Não anula, Jaa. O facto de eu considerar positivo debater os assuntos – e considero, e acho corajoso da tua parte que fujas ao politicamente correcto e lembres que nem tudo são rosas na emancipação feminina – não invalida a tal nostalgia, que pode até não ser em nome pessoal (por seres muito novo, I mean) mas uma espécie de defesa involuntária e automática de uma estabilidade social que a tua metade da humanidade deseja e preza acima de tudo. Percebe-se, já que a factura a pagar por essa estabilidade é apresentada muito mais às mulheres do que aos homens. Nada disto é incompatível com a consciência de que há que falar abertamente destes assuntos, que não são nem têm de ser tabu.

          8. Acrescento que os equilíbrios, provavelmente impossíveis a olho nu, se vão talvez ajustando com o tempo e com a mudança de expectativas, sem que isso signifique o abandono dos valores essenciais.

          9. Eu, novo? Pronto, é como quiseres. 🙂

            Enfim, acho que já esbatemos as diferenças – se não até à concordância total, pelo menos até um ponto de compreensão mútua.

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