Dois governos que venceram eleições


Pedro Correia,

Stephen Harper, primeiro-ministro do Canadá desde 2006, venceu a terceira eleição legislativa à frente do Partido Conservador, a 3 de Maio, conquistando desta vez a sua primeira maioria absoluta no Parlamento. O Partido Liberal, de centro-esquerda, foi esmagado nas urnas. Claro que a economia ajuda a explicar isto: o país, que resistiu bem à crise internacional, poderá registar este ano um crescimento de 3,2%.

Recep Erdogan, primeiro-ministro turco, também superou o teste das urnas: obteve há três dias a sua terceira vitória eleitoral consecutiva, com 49,9% dos votos, sendo já o governante “com mais sucesso em toda a História da Turquia”, como sublinhava o Guardian. O facto de o país ter o terceiro maior índice de crescimento económico mundial após a China e a Índia (8,9% em 2010), contribuiu certamente para este triunfo. Quando a economia se expande, as vitórias tornam-se mais fáceis.

Eis alguns factos, que atrapalham certas teorias. A primeira dessas teorias, que José Sócrates debitou até à exaustão, é que estávamos perante uma crise internacional que a todos afectou inapelavelmente – crise a que o Orçamento de Estado para 2011 daria a resposta adequada, como chegou a assegurar aos portugueses. Enquanto o ainda primeiro-ministro ia dizendo isto, com a economia portuguesa a afundar-se, outros países cresciam: Harper e Erdogan foram recompensados pelos eleitores. O que atrapalha seriamente a segunda teoria, aqui expressa por um português em inglês para justificar a derrota de Sócrates: “Tal como no resto da Europa, o partido do Governo sofreu uma considerável derrota e a oposição venceu.” Que eu saiba, a Turquia não deixou de pertencer à Europa. E é tão periférica como Portugal.

 

ADENDA: a OCDE confirmou que a economia portuguesa piorou em Abril. Não há coincidências.

 

10 comentários em “Dois governos que venceram eleições”

  1. Já aqui o disse. O caso do ainda nosso PM é um caso patológico, digno de estudo científico. Todos sabemos que todos os políticos dizem algumas inverdades, que raio de palavra esta, mas este senhor teve a prática corrente da mentira. Agora diz-se que irá para França cursar filosofia. Terá o fim de obter que grau académico? Um certificação? um atestado? um diploma? um doutoramento? Também seria interessante saber do dia da semana da sua obtenção. A filosofia cursa-se(?) ou estuda-se?

    1. A ideia, suponho, é obter uma pós-gradução supersónica em filosofia técnica, tipo nouvelle oportunitée, como se parla em franciú técnio. De preferência num dimanche, para estar em sintonia com o currículo anterior.

  2. Todavia no Canada a passagem de maioria relativa a absoluta resulta de vários factores conjugados no método eleitoral uninominal canadiano e não tanto pelo crescimento conservador.
    Steven Harper sobe de 37,6 para para 39,6, efectivamente os Liberais (centro esquerda à canadiana pois por cá até Passos seria esquerda) desceu de 26,2 para uns humilhantes 18,9, mas a esquerda da internacional socialista do NDP passou de 18,2 para 30,6 com destaque para o Quebec (onde cilindrou os independentistas) e no Ontário onde tomou Toronto.
    Foi esta repartição de mandatos uninominais entre NDP/BQ/Lib que no processo de restos no método uninominal fez crescer o Cons de 143 para 167, onde 39% de votos deu 54% de mandatos… todavia onde os conservadores imperam a economia cresceu significativamente no Canada. Proud to be Canadian.

    1. Registo o seu desfecho, Carlos: «Todavia onde os conservadores imperam a economia cresceu significativamente no Canada. Proud to be Canadian.»
      Era precisamente aí que eu queria chegar. “É a economia, estúpido”, alertava o outro. Estava cheio de razão. Curioso é que alguns por cá, pensando que não lemos imprensa estrangeira, elaboram a tese (por vezes em inglês técnico) de que a regra é os governos agora perderem eleições. Lá vai essa tese pelo cano abaixo com os dois exemplos que aqui ficam, em países tão relevantes e tão diferentes.

  3. É bem sabido que a crise da dívida não afetou o crescimento de países subdesenvolvidos, como a Turquia, nem de países que são em grande parte produtores de matérias-primas e commodities, como o Canadá.

    Não podemos comparar Portugal com esses países. Portugal produz poucas commodities e tem um grau de desenvolvimento muito superior ao da Turquia.

    1. Quem fez essa comparação foi o ainda primeiro-ministro ao sublinhar, várias vezes, que Portugal estava a ser afectado por uma crise internacional que afectava “todos” os países.

  4. A forma mais fácil, e a mais baixa, de sacudir a própria incompetência é com a suposta incompetência dos outros.
    Essa foi a estratégia de Sócrates, daí a culpa da nossa crise não ser nossa, mas da crise internacional. Mas a verdade é como o azeite, vem sempre ao cimo e contra factos não há argumentos, por isso a Economia caiu, literalmente, em cima da cabeça do cessante PM e de todos nós.
    Vendo as rotas do comércio marítimo mundial, fácilmente concluímos que de periférico Portugal não tem nada, pois temos o Atlântico e as Américas à nossa frente, o Mediterrâneo ao lado e África é já ali, portanto não há desculpas para o nosso fracasso económico. Mas há culpas, muitas e diversas, por apostas completamente erradas que nos estão sair demasiado caro.
    Mas haja esperança, pois o potencial de Portugal existe, assim tenhamos a liberdade para o explorar.

    1. O argumento ensaiado por alguns ‘génios’ da blogosfera tuga de que Sócrates tinha perdido as eleições simplesmente porque estava no governo, face à crise que não conhece fronteiras, cai por terra com estes dois escrutínios em dois países tão diferentes mas com um traço comum: são ambos nossos parceiros na NATO. Harper e Erdogan estavam no governo e… ganharam.

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