Dois erros em vez de um só


Pedro Correia,

A elaboração de notícias com recurso a fontes não identificadas, sobretudo quando visam terceiros a quem não é dada a possibilidade de se defenderem ou justificarem, é uma grave falta profissional: esta norma vem mencionada em qualquer manual de jornalismo. Admite-se, naturalmente, a existência de excepções. Mas a natureza das excepções é mesmo esta: não se confundirem com a regra.

Vem isto a propósito de uma notícia da Lusa, redigida sem menção a qualquer fonte, com suspeições graves sobre Domingos Paciência. Não posso, não quero nem devo pronunciar-me sobre o fundo da questão. Mas espanto-me que a agência noticiosa, ao arrepio do seu livro de estilo, tenha caído neste vício de forma.

O meu espanto aumentou ao saber hoje que a Lusa pretende emendar o erro cometido com outro ainda mais grave ameaçando revelar as fontes da referida notícia. E utilizo o plural porque não me passa pela cabeça que a agência tenha difundido a informação que assumiu como sua sem o necessário cruzamento de fontes imposto como requisito técnico e deontológico indispensável para a elaboração de peças noticiosas de cunho marcadamente polémico.

Se o recurso a fontes anónimas é grave nos casos em que não esteja em risco um direito elementar, nomeadamente a integridade física ou a própria vida do informador, violar a regra de ouro da protecção das fontes — pedra basilar do jornalismo, que neste aspecto se compara ao sacerdócio — é algo inqualificável. E sem justificação possível, mesmo sob a ameaça de um processo judicial, salvo a prevenção de um crime — eis também aqui a excepção que não deve elevar-se a norma.

O erro não foi das fontes: foi da Lusa. Ora um erro não se repara, em circunstância alguma, com outro erro. Este princípio vale para qualquer caso, em qualquer circunstância. E é bom que seja afirmado sem sombra de ambiguidade.

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22 comentários em “Dois erros em vez de um só”

  1. O erro não foi das fontes: foi da Lusa.

    Atenção: a Lusa disse que revelaria o nome da fonte apenas se verificasse que esta agiu com dolo, isto é, que a fonte lançou propositadamente falso testemunho.

    Ou seja, a Lusa apenas divulgará o nome da fonte se verificar que a fonte, de facto, errou, ou seja, caluniou deliberadamente.

    Nesse caso, o erro terá sido da Lusa mas também da fonte.

    1. Não são as fontes que escrevem notícias e as validam. São os jornalistas e os respectivos editores. Quando se erra, pede-se desculpa. O procedimento correcto é esse.
      A fonte – ou fontes – devia ter sido identificada logo no início. Não deve ser identificada no fim.

      1. Que a Lusa errou, é público e notório, e eu não o neguei no meu comentário.

        A Lusa já reconheceu, em comunicado, ter errado, e pediu desculpa pelo erro.

        Eu somente disse que não foi apenas a Lusa quem errou, a fonte também errou. Não pretendi desculpar o erro da Lusa.

        Você é que, na sua frase, desculpou a fonte, o que me parece errado.

        1. Eu digo com clareza que não me pronuncio sobre o fundo da questão – até por não ter dados suficientes para o efeito. Pronuncio-me sobre a forma. E a forma, neste caso, é muito importante. “O meio é a mensagem”, como dizia o outro.

  2. “não me passa pela cabeça que a agência tenha difundido a informação que assumiu como sua sem o necessário cruzamento de fontes imposto como requisito técnico e deontológico indispensável…”

    Das duas, uma: ou isto é um exercício de ironia falhado; ou alguém anda a linkar notícias sem as ler.

    É que a própria direcção de informação da agência reconhece não ter respeitado as normas…

    1. É sempre útil haver quem nos faça a interpretação autêntica dos comunicados da direcção de informação da Lusa nestas caixas de comentários. Obrigado por ter desempenhado tal tarefa.

  3. O Pedro sabe perfeitamente que muito do atual jornalismo português é feito com base em alegadas fontes anónimas que não são verificadas pelo jornalista. Nem preciso de lhe lembrar alguns dos casos passados há poucos meses atrás, na campanha contra José Sócrates em que, entre outros, o jornal em que o Pedro trabalhava participou gostosamente. Estranho por isso que o Pedro venha agora para aqui dar lições de deontologia.

    1. E você pretende dar lições de deontologia jornalística com que créditos profissionais firmados? Aguardo com natural interesse a revelação dos seus pergaminhos na matéria.

  4. estes casos começam a ser “normais” no nosso jornalismo, Pedro.

    claro que a “Lusa” é a grande responsável. por ser uma agência noticiosa teria de ter cuidados redobrados quando edita uma notícia, que invade outras redacções.

    mas era bom que o “anónimo” (que só pode ser alguém do SCP, provavelmente, dirigente) deixasse de o ser, porque esta notícia só foi colocada, para sujar a imagem do Domingos e louvar a atitude dos dirigentes do Sporting.

    1. Luís, é verdade que estes casos se vão generalizando. Infelizmente. O que não impede a nossa atitude crítica, antes pelo contrário.
      A notícia só existiu porque a Lusa a validou e difundiu. Estaria inquinada a fonte (ou fontes)? Admito que sim. Mas não são as fontes que escrevem e validam notícias: são os jornalistas e respectivos editores. Compete portanto à agência reconhecer o erro, com o profissionalismo que esperamos dela. Um erro deontológico não se apaga com outro erro deontológico.

  5. A obrigação deontológica de um jornalista não revelar as suas fontes serve exclusivamente um fim: garantir que as fontes se sentem seguras e que, portanto, no futuro nenhuma potencial fonte terá receio de falar.
    Mas, se o que a “fonte” está a fazer não é revelar algo de verdadeiro, mas sim tentar propagar algo de falso, então, pelo contrário, torna-se imperativo que o jornalista revele quem foi essa fonte, com o fim de desencorajar futuras potenciais fontes de tentarem fazer a mesma coisa (propalar calúnias e falsidades).
    Ou seja, parece-me a mim que revelar a fonte pode e deve, em certos casos, ser uma obrigação deontológica do jornalista, com o fim de que sejam evitados casos futuros de pessoas que procuram deliberadamente espalhar notícias falsas.

    1. Falamos de coisas diferentes.

      É dever deontológico do jornalista:
      1. Identificar por norma as fontes das notícias.
      2. Proteger a identidade dessas fontes quando ocorrem motivos atendíveis.

      A identificação deve ser feita antes, não depois. Revelar uma fonte cuja identidade anteriormente se entendeu proteger desacredita um órgão de informação. Exceptuando naturalmente os casos extremos em que essa identificação é imperiosa para impedir um crime.

  6. Muito bem Pedro. Um excelente post num tema/assunto que nos é próximo.
    Coisas simples, na verdade, dogmas em nós, sem arestas ou sombras porque à primeira falha, uma coerência/idoneidade inerente à essencia da prática jornalística se perde.

    Muito bem, mais uma vez, pelo post, pelos comentários posteriores e pela hombridade neste tema.

    Fique bem, sempre meu caro.

  7. Faz muito bem em indignar-se, Pedro. Eu ando há muito indignada. E não é só de agora, nem só por causa desta notícia.
    Estou farta de jornalistas que prestam um mau serviço à verdade e ao dever de informar. Desconhecem conceitos simples como a imparcialidade , objectividade, interesse público.
    Aliás, a lei de imprensa e o código penal deviam ser revistos, nesta matéria, de forma a serem mais punitivos.
    Hoje, qualquer fulano planta uma notícia sem o mínimo de zelo ou de observância das regras mais básicas.
    Destroem-se pessoas, famílias, carreiras, caracteres, etc, sem qualquer pudor e sem qualquer consequência.
    Manuela Ferreira Leite propôs a suspensão da democracia por seis meses. Eu quase me atrevo a sugerir que se suspendam, por igual período, todos os jornalistas. Vinha, daí, algum mal ao mundo? Vinha, provavelmente a ruína de muitos dos que vivem diariamente de notícias “manhosas”, sem o contraditório e confirmação da respectiva veracidade.
    Aliás, basta rever o filme “Informador” para se perceber como funcionam os bastidores da imprensa e como os interesses em jogo, nomeadamente económicos, podem conflituar. E fácil adivinhar a escolha entre a verdade dos factos e o lucro. Na maior parte das vezes, a verdade cede em nome de outros interesses. Ora bolas! Merda para esse tipo de jornalismo.

    1. Há muito que defendo a instituição de uma Ordem dos Jornalistas como entidade reguladora da profissão. Com a missão específica, conferida pela Assembleia da República, de regular o acesso à profissão, emitir carteiras profissionais, pôr a debate e fazer aprovar um novo código deontológico devidamente ampliado e actualizado e exercer acção disciplinar sobre os jornalistas que violem as mais elementares normas profissionais.

    2. O Jornalismo é assim, não é defeito é feitio e essa conversa do “interesses económicos” é vindo daqueles que não importam com os mesm na política. O Jornalismo existe precisamente para que seja possível fazer isso na Política. Alguma vez um jornal português tratou correctamente alguma notícia relacionada com a União Europeia, algum enviado que não seja um papagaio? depois podemos ir aos artigos sobre Republicanos nos EUA etc etc…

      E como é obvio não deve haver nenhuma ordem reconhecida pelo poder político. Devem existir as que quiserem e estabelecer a sua reputação.

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