Dois assassínios a sangue-frio


Pedro Correia,

 

O número de pessoas mortas pelos guardas fronteiriços de Berlim-Leste, quando pretendiam fugir para o Ocidente, não é totalmente conhecido. Há quem fale em 125, há quem garanta que foram 290 ou ainda mais. Mas sabe-se quem foi o primeiro e quem foi o último da longa lista de vítimas da ditadura comunista que ergueu o Muro de Berlim com 45 mil blocos de cimento armado e 302 torres de controlo numa extensão de 155 quilómetros.

É justo recordar-lhes os nomes neste 20º aniversário do fim do mais sinistro símbolo da Guerra Fria.

O primeiro chamava-se Peter Fechter. Era um operário de 18 anos que ao princípio da tarde de 17 de Agosto de 1962 decidiu subir o Muro, perto do Checkpoint Charlie, na companhia de um amigo chamado Helmut. Não chegou ao cimo: foi alvejado com vários tiros que o fizeram cair. Gravemente ferido, gritou por socorro. Diversos transeuntes quiseram ajudá-lo, tendo sido dissuadidos pelos guardas fronteiriços que deixaram o jovem sangrar até à morte. Morreu cerca de uma hora depois, perante a dolorosa impotência de centenas de pessoas que testemunharam o episódio de ambos os lados da fronteira. Dos três guardas que alvejaram a sangue-frio este jovem desarmado, nenhum deles passou um só dia na prisão.

O último chamava-se Chris Gueffroy. Era um estudante de 20 anos que também na companhia de um amigo, chamado Christian, a 6 de Fevereiro de 1989 escalou a rede de arame farpado que fazia de fronteira entre Berlim Leste e Ocidental na zona do canal de Britz. Na véspera, um guarda fronteiriço assegurara-lhe que poderia passar para o Ocidente sem grande transtorno, pois havia novas instruções expressas, por parte do regime comunista, para não atirar a matar contra ninguém. A informação era falsa e Chris foi vítima dessa mentira: recebeu dez tiros, quando se encontrava já no topo do arame farpado, e ficou ali, agonizando até à morte. Cada um dos quatro guardas que o alvejaram recebeu um louvor e um prémio pecuniário de 150 marcos leste-alemães. Mais tarde, já após a reunificação da Alemanha, um deles viria a ser condenado a três anos e meio de prisão, sentença alterada para dois anos de prisão com pena suspensa.

Peter e Chris: dois jovens que pagaram com a vida por quererem rumar à liberdade.

 

Imagem de cima: Peter Fechter sangrando até à morte (17 de Agosto de 1962)

10 comentários em “Dois assassínios a sangue-frio”

    1. Percebo bem essa analogia, Carlos. Dizia o Estaline que uma morte era uma tragédia e um milhão de mortos era uma estatística. Cabe-nos a todos contrariar este axioma totalitário que desvaloriza a vida humana.

  1. Espero que a jovem Deputada da bancada comunista Licenciada em Relações Internacionais possa enfim tomar conhecimento.

  2. Recuso-me a entender estas perdas de vida à luz de outras perdas de vida Caro Pedro. É neste ponto, e muitas vezes só neste, que me sinto cada vez mais um alien num mundo cheio de gente.

    Lembrar. Acima de tudo e sempre lembrar.

    1. Claro, Catarina. Este é um foco suficientemente forte e suficientemente grave e suficientemente dramático para valer por si. Depois do Muro, e do seu cortejo de tragédias, nunca mais ninguém conseguiu olhar seriamente para o ‘socialismo real’ como alternativa de sociedade. Um regime que mandava matar tantos dos seus jovens só porque queriam passar a ‘fronteira’ (para o mesmo país!), jamais poderia ser alternativa às democracias liberais do Ocidente. Esta foi uma das grandes – e tristes – lições que o Muro nos deu.

  3. Nunca li nada seu que me tivesse tocado tanto…recordar estes dois jovens foi prestar-lhes uma justíssima homenagem.
    É preciso que a lembrança deles perdure para sempre na nossa memória.
    Ouvi falar na morte do Chris G., e desde aí não consigo parar de me lembrar da agonia deste jovem perante os prémios de louvor dos seus carrascos.
    Quão vil podem ser os seres humanos.
    Você hoje humanizou o muro de Berlin com o sangue destes jovens a quem o futuro apagou fisicamente.

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