Dois apontamentos


filosofiaonline,

Relativamente à teoria segundo a qual a invasão da Ucrânia é da responsabilidade da NATO e do Ocidente, duas notas:

1º Essa teoria assume um ponto de vista sociológico e descreve os eventos como resultado de forças sociais, assentes em pressupostos deterministas segundo os quais a realidade é um encadeamento de causas e efeitos cuja força é inexorável. O indivíduo filosófico e psicológico que decidiu tal e tal acção está ausente dessas explicações, como se as suas acções particulares nada tivessem que ver com a sua identidade, a sua consciência, a sua intenção e o seu livre-arbítrio, mas fossem meras reacções à força necessária da corrente dos acontecimentos em que se insere amorfamente. Porque a NATO fez isto e aquilo e o Ocidente teve esta e a outra atitude, Putin foi levado a invadir a Ucrânia. Ora, se há coisa que esta guerra mostrou foi a parcialidade ou falta de objectividade dessa teoria. Contrariamente aos vaticínios dos primeiros dias desta guerra, tanto de teóricos, como de dirigentes de países -incluindo Putin- ou de diplomatas, a Ucrânia não só não se rendeu como recusa ser um tronco à deriva arrastado pelo rio da realidade sociológico-determinista. Ora isso deve-se, sobretudo, à decisão livre, da pessoa do seu Presidente. Gostava de ver as teorias da força inexorável da corrente histórica explicarem uma pessoa como ele e a resistência, o moral, o espírito e a vontade do povo ucraniano que são um tronco, não a seguir impotentemente a corrente, mas a mudar-lhe a orientação.

2º Essas explicações parecem só funcionar para um dos lados. Putin justifica a sua decisão (que não foi um impulso, foi calculada e preparada durante muitos anos) com as acções da NATO  e do Ocidente e muitos aceitam essa justificação. Da mesma maneira explicam Lenine e Estaline culpando o imperialismo dos Czars, primeiro e, depois, o imperialismo do Ocidente; também Hitler é explicado pelo imperialismo arrogante dos ocidentais. No entanto, quando se trata de acções dos ocidentais, nunca a responsabilidade é alocada a forças deterministas da História, mas aos próprios indivíduos. Ninguém explica a decisão de Truman de largar a bomba em Hiroshima como uma reacção inevitável à corrente dos eventos históricos; ninguém justifica a decisão de Bush, o filho, de invadir o Iraque, como uma reacção inevitável aos acontecimentos do 11 de Setembro. Tanto num como noutro caso assume-se que essas decisões foram tomadas com a liberdade da vontade e plena consciência individual das pessoas em questão, tal como no caso das decisões da NATO. Podíamos citar muitos outros exemplos. De há uns tempos para cá, quando se trata do imperialismo dos ocidentais a culpa é da pessoa que decidiu, quando se trata do imperialismo dos outros (neste caso de Putin), a culpa é das forças da História postas em marcha pelos decisões individuais dos ocidentais. 

Portanto, os ocidentais são pessoas livres que tomam decisões conscientes e voluntárias, os outros déspotas são agentes determinados e amorfos da História que reagem às forças negativas postas em marcha pelos ocidentais?

texto também publicado no blog azul

23 comentários em “Dois apontamentos”

  1. Claro que a resposta à pergunta final é negativa. Falta então a explicação.
    Os dois exemplos dados estão longe de serem decisões individuais de Truman e Bush filho. Saddam – que deveria ter sido deposto na sequência da invasão do Kuwait – ameaçava desestabilizar o mercado internacional do petróleo quando começou a comercializar noutras moedas que não o dólar. A invasão do Japão, segundo as previsões dos generais, custaria meio milhão de baixas americanas entre 2 a 3 milhões de baixas totais Foram assim decisões impostas pelas circunstâncias, aliás inatacáveis sob uma perspectiva lógica, discutíveis sob uma perspectiva ética.
    Então onde está a diferença?
    Numa série de artigos no “Observador” a profª Patrícia Fernandes – um nome a reter – nota, e passo a citar:
    “[C]omparando-se com os países mais ricos e mais altamente civilizados do Oriente, eis o que os Gregos viam: governos palacianos, com um rei absoluto que governava, não como os primitivos monarcas gregos, de acordo com Témis, ou com uma lei vinda do céu, mas unicamente segundo a sua própria vontade; não responsável perante os deuses, porque ele próprio era um deus. Ora, um súbdito de tal senhor era um escravo. (…) O hábito oriental da obediência espantava os gregos, porque não era eleutheron [liberdade]; aos seus olhos, constituía uma afronta à dignidade humana.”
    Assim, continuando no encalço de Patrícia Fernandes, se é possível dicotimizar o mundo não é entre esquerda e direita, nem entre estatismo e liberalismo, nem sequer entre nacionalismo e globalismo. A grande fractura, que veste diferentes roupagens em diferentes cenários, é entre os que valorizam regras e valores a que o poder político se encontra sujeito e os que valorizam o poder político capaz de estabelecer e impor as regras.
    Acontece que o poder político totalitário, é sempre mais eficaz na acção, pelo menos em fases iniciais de conflito ou quando este ainda não é percepcionável e, sem excepção que me lembre, normalmente domina e controla a narrativa. Os exemplos seriam fastidiosos.
    Desde a maioria dos “media” americanos, às universidades da “Ivy League” e às inglesas. Em Portugal o fenómeno tem uma data. o Verão de 1949, quando António Ferro, deixa o SNI para ir para Berna. Sem o seu forte controlo, os modernistas e esquerdistas que ele próprio defendera e até nomeara, tomaram o controlo, primeiro da cultura, depois da informação, finalmente da Educação. Hoje vemos o secretário de Estado que defendeu os conteúdos mais agressivos – e os muitissimo mais extensos nos textos de apoio – da disciplina Educação para a Cidadania, que geriu o caso dos irmãos Mesquita Guimarães, promovido a ministro. Ainda não os contei a todos mas os que passaram pelo CES de Coimbra de Boaventura Sousa Santos, pela NOVA-FCSH de Fernando Rosas, ou pelo ISCTE que não lhe fica atrás têm fortíssima presença no actual governo. E “the last but not the least” quem ouve telejornais ou assiste a entrevistas e mesas redondas nas TVs, não consegue compatibilizar o que ouve e vê, com os resultados eleitorais do BE e do PCP.

    1. Os dois exemplos estão longe de ser decisões individuais? Não concordo, porque o que diz são as razões que podem explicar a decisão de Truman e de Bush, mas não é aí que reside a diferença com que os teóricos actuais tratam a questão, pois todas as acções, todas as decisões têm uma lógica baseada em factos anteriores. No entanto, daí não se segue que as decisões dos decisores sejam inevitáveis, consequências inexoráveis dos acontecimentos anteriores. Podiam sempre ter decidido de outros modos. Tinham essa opção. E, na realidade, há dois discursos diferentes no juízo que se faz da responsabilidade dos decisores: um para os “imperialistas ocidentais”, que os responsabiliza enquanto pessoas individuais, outro para os outros que os desresponsabiliza em virtude de encadeamentos históricos.

      A questão dos valores e do tipo de sociedade -democrática ou autoritária/autocrática, é outra discussão, mas não é disso que estou a falar neste post. Concordo com o que diz e essa referência aos Antigos dessa professora, mas do que falo aqui é do duplo critério de avaliação das acções, consoante os decisores são ocidentais ou não.

      Só mais uma coisa: no que respeita ao poder político totalitário ser sempre mais eficaz na acção, não estou de acordo. É percepcionado como mais eficaz porque, de facto, domina a narrativa, até certo ponto e como recorre à força para não ter divergentes aparece como unitário. Porém isso depende do que se entende como eficaz: se ser eficaz é não ter opositores, então é mais eficaz, se ser eficaz é conseguir resultados, então é menos eficaz, como se vê pelos resultados dos países que seguiram a via do totalitarismo ou até da ditadura não totalitária.

  2. Os pressupostos não são deterministas. Mas acções, livre-arbítrio e consciência do ocidente determinou o resultado, porque existe livre-arbítrio, consciência e capacidade de acção do outro lado. Em conclusão, é a liberdade que oprime na relação de forças e de poder. E o mais fraco é o que está a levar com os bombardeamentos; e o ocidente pôs-se ao fresco e faz uma roda de choro para se mostrar inocente.

    Finalizando, é necessário libertar a liberdade, para que as consciências não determinem resultados funestos. Resultados esses que ainda não ficarão por aqui.

      1. No contexto, sim. Há certas leis que são determinadas pelo bom-senso. Se a liberdade as ultrapassa, alguém sairá oprimido. Logo, é necessário libertar a liberdade. Esta anda oprimida por consciências pouco sãs. E nem a consagração da Rússia e da Ucrânia à Senhora de Fátima fará reverter isto sem a reversão das consciências. A começar pelos ditos democratas americanos e os escravos europeus. Há certos símbolos que não podem ser usados como os símbolos partidários. Os partidos também têm hinos e usam imagens. Se entramos com o sagrado como símbolo meramente social, perde-se o sentido do sagrado. A laicidade faz isto muito melhor substituindo o sagrado pelos seus próprios símbolos, e muitos deles de morte: o aborto, a inversão do natural… E aqui a liberdade também oprime.

        1. Isso da liberdade-libertada versus a liberdade-livre vem nos manuais do comunismo. E depois quem controla a liberdade? O politburo, claro. Felizmente nunca li essas patranhas.

          A única liberdade é a do livre-arbítrio, não é social, nem é negociável. É quando eu digo: digas o que disseres, faças o que me fizeres, nunca terás o meu espírito, nunca terás a minha simpatia.

          1. V., tens o manual em pdf? Gostava de o ler.
            Quem controla a liberdade? Meu caro, todos os dias eu quebro leis. Se a minha liberdade dependesse do controlo ou da legislação produzida por outros ou de lápis azuis de outros, eu teria as mesmas dúvidas que apresentas. Mas não tenho. A liberdade está acima disto e das opiniões e até mesmo acima de prisões. A liberdade também não se preocupa em não oferecer ou receber simpatias. Tens de ir mais longe que isso.
            Por fim, gostavas de me ver longe daqui. Mas vens ao meu encontro. Isso não é liberdade, é necessidade tua. A liberdade é como o amor. Quando existe bastasse a si mesma, não depende. Quiçá Francisco não te consagre também a Maria.

          2. Por fim, gostavas de me ver longe daqui.

            Ah. Nada disso. Nada do que eu disse é pessoal. São ideias. Exactamente como referes a liberdade não é controlável (não deve ser). Mas as Leis, numa terra de gente livre, são o suficiente para garantir a liberdade de todos — isto é, que a minha liberdade não interfere com a tua e vice-versa. A liberdade é livre porque tens a liberdade de quebrar a Lei — embora não tenhas esse direito. E é precisamente isso que é punido (quebrar a lei) e não o acto de liberdade em si. O pior dos crimes: matar alguém. Podes matar alguém, mas depois és punido.

            E devemos ir mais longe, sim, na religião, nas artes, na poesia, porque é esse conhecimento que impede que se maltrate a liberdade (isto é, que alguém desrespeite a sua própria liberdade, e a dos outros, cometendo um crime cuja punição significa perder ou ver a sua liberdade diminuída)

          3. Só agora posso responder-te. O que me chateia (de chat) neste gajo do Putin é o facto de me pôr a trabalhar mais horas para decifrar as jogadas militares em curso. Repara que ele disse que abrandaria a guerra em Kyiv e Chernyiv. Mas não está a acontecer isso: O tipo minou os arredores das cidade e enterrou tanques (enterrar tanques de guerra significa poder utilizá-los como artilharia regular e usá-los sem que haja possibilidade de serem atingidos por misseis de lançamento tipo bazuca). Significa isto também que os tipos dominam os céus da Ucrânia e não haverá hipótese de os bombardearem. Pelo que posso depreender – tendo em conta que os russos na Chechénia cercaram Grozny durante 6 meses antes de avançar para a liquidação da resistência -, os tipos, asfixiando primeiro, estão a preparar-se para um impacto último caso as exigências deles não sejam satisfeitas. A parte sudeste e nordeste da Ucrânia será para sempre deles; e vão avançar sobre Odessa (o mar de azov e o mar negro já é deles). A região noroeste, na rota Lvyiv Kyiv, é outra área importante para cortar abastecimentos oriundos da Polónia (os gajos criaram uma ratoeira em Irpin e espero que as populações não regressem a esta cidade), e eles já destruíram vários alvos militares e depósitos de combustível nesta rota (num total de 36 alvos). Escrevo isto para que não acredites nas informações sobre os russos terem perdido terreno ou terem sofrido revezes.
            Deixo-te aqui um mapa para que compreendas que os gajos sabem o que fazem. NOTA: a região a laranja é toda a área conquistada, que é o que lhes interessava nesta fase para cortar abastecimentos e garantirem o assalto sobre as cidades, em momento oportuno:
            https://cdn1.newsplex.pt/fotos//2022/3/26/813942.pdf?type=L

            Agora um comentário à tua resposta: Sim, a liberdade impõem limites, isto é, que a consciência desta liberdade, ao invés de cessar nos limites do outro, expande-se e continua na realidade do outro enquanto ser semelhante e sujeito aos mesmos dramas existenciais. A liberdade, bastando-se a ela mesma, é gregária, pois abraça plenamente a protecção da Vida e do viver, mas não se iguala. Só se é livre quando se sabe distinguir e existe opção. A liberdade não é um cavalo sem freios. A liberdade também distingue entre o que é possível (de poder) e o que é conveniente fazer.
            Abraço.
            Logo que haja mais evoluções nesta guerra, lerás minhas opiniões.
            NOTA: O uso de armas nucleares TÁCTICAS – tendo em conta o contexto geral e não só a Ucrânia – é uma possibilidade mais próxima que remota. Se por uma qualquer eventualidade forem usadas armas nucleares ESTRATÉGICAS, ver-nos-emos do outro lado da vida.

          4. ver-nos-emos do outro lado da vida

            Se houver, lá estaremos! — este lado não é grande coisa.
            Ab

          5. Leia-se basta-se ao invés de bastasse. E se surgirem outro erros semelhante interprete-se no sentido correcto. O meu teclado estava a trocar símbolos (hífen) por letras. Já resolvi isto.

          6. A minha sensação é que Putin, para já, quer tudo o que está à direita do Dniepre. Depois, com a influência russa ali, vai criar enclaves de falantes mais para esquerda, e vai avançando assim até ao Báltico, para fechar a costa oriental do Báltico. No Mar Negro vai acabar por colidir com Erdogan e não percebo bem o que Erdogan anda a fazer no meio disto tudo. Deve pensar, que mediar uma solução já desvia temporariamente a atenção do próximo passo: Putin quer reforçar a presença no Mediterrâneo para que as empresas russas acabem por ficar com o gás da Algéria e de Marrocos e seja assim impossível bloqueá-los. Para isso vai querer o controlo total do Mar Negro. Tanto Erdogan como Macron, que são os agentes mediadores mais activos, pretendem evitar que a Rússia reforce o seu controlo do Norte de África e cada um à sua maneira parece estar numa estratégia de “keep your enemies even closer”.

          7. No fundamental concordo. As excepções colocam-se no facto do báltico e os países do báltico não serem importantes para Putin, agora (só se a Noruega decidisse construir um gasoduto a situação inverter-se-ia). Os países do báltico já dependem a 100% da energia russa e barata para eles. E Putin não estará interessado em conquistar estes países para não ter de pagar reformas.
            A internacionalização do conflito está no mar negro, por via da Convenção de Montreux (Montreux na Suíça e não Montreaux no Canadá) estabelecida em 1936, que confere também à Turquia a garantia do controlo dos estreitos de Dardanelos e Bósforo.
            Nota: Razão pela qual a entrada da Ucrânia para a nato colocava em risco a frota russa no mar negro (daqui a importância da Crimeia e da região de Donbass até Odessa) e os seus demais interesses de sobrevivência, se somares a população da Ucrânia (com acesso aos mares de Azov – a 50Km de distância da Rússia – e mar negro) com a da Roménia (com acesso também ao mar negro) e a população da Polónia. Portanto, a Ucrânia não é uma esfera de influência russa, é uma zona tampão de extrema importância para estes.
            Recomendo que pesquises sobre a Convenção de Montreux e escutes o Shekhar Gupta, que é um excelente jornalista e especialista em matérias geoestratégicas, aqui:
            https://www.youtube.com/watch?v=-18BGebymmc

            O mediterrâneo está salvaguardado pela base da frota russa na Síria e pelos submarinos nucleares com armamento táctico e estratégico. África depende do trigo russo e os países do golfo já disseram que não aumentarão as quotas de exploração e fornecimento do petróleo para não colidir com Putin.
            A Índia, há pouco mais de semana e 1/2, comprou 15 milhões de barris de petróleo aos russos e não vai querer problemas na região indo-pacífica, pois os russos estão em manobras militares nas ilhas Kuril e movimentaram para lá a frota do pacífico, deixando o Japão muito ansioso.
            Paralelamente a China firmou contracto há 3 dias com as ilhas Salomão, estas passarão a ser outro porta-aviões chinês juntamente com as ilhas Fiji, onde já estão, no pacífico. A Austrália treme e Taiwan também.
            A Coreia do Sul recusa-se a alterar a sua ligação comercial com a Rússia e mantém a sua banca a operar na Rússia.
            V., esta merda está mesmo complicada.

      1. Segundo os putinistas, que vão derrapando na lógica e perdendo toda a capacidade de argumentação racional enquanto erguem altares ao determinismo histórico, Hiroxima estará sempre explicada e justificada por Pearl Harbor, quatro anos antes.
        Escorregando assim, de recuo em recuo, acabarão por apontar o dedo acusador ao Caim. Como já aqui assinalei:
        https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/a-culpa-e-do-caim-13779787

  3. Fazer julgamentos morais (quem teve culpa disto e daquilo) não me parece o melhor ponto de vista de um historiador. Nas Ciências costumamos distinguir entre a s causas próximas e as causas remotas. Se ficarmos pelas próximas na maior parte dos casos não descobrimos nada de significante. Nenhum acontecimento é isolado nem resulta do nada. Há uma cadeia que precisamos de entender a fim de tirarmos conclusões e que no caso da política e da guerra são indispensáveis para se conseguir algo nas negociações.
    Por exemplo, se um solado ucraniano mata um soldado russo (inocente!), quem condenamos? Ficamos pela causa próxima? Ou vamos mais longe?
    ” à decisão livre, da pessoa do seu Presidente” Não creio. Se o Estado Maior discordasse por unanimidade,
    o presidente decidiria da mesma maneira? Difícil.

    1. A questão é mesmo essa: fala-se apenas de causas, como se os indivíduos particulares não existissem e as causas operassem no vazio. A causalidade, não preciso de dizer, é um pressuposto determinista, onde o livre-arbítrio não existe e, sendo assim, também não há responsabilidade nas acções porque só pode responder aquele que é livre de causas deterministas.

      O que estou a dizer é que tem de haver dois juízos: um das causas remotas e outro relativo aos indivíduos e seus valores, porque o mundo das decisões políticas, militares é um mundo humano e, por isso, ético. A ONU, por exemplo, é uma resposta à questão dos valores. Apesar de tudo, penso que podemos dizer que temos hoje mais consciência das consequências das nossas acções a nível global e é mais difícil ditadores imporem as suas exigências imperialistas do que foi no passado e isso deve-se, parece-me, ao juízo das responsabilidades individuais.

      Se a responsabilidade individual é irrelevante num contexto de causalidade, porque se fizeram os julgamentos de Nuremberga? Para que se criou o Tribunal Penal Internacional?

  4. “também Hitler é explicado pelo imperialismo arrogante dos ocidentais.” Bem, eu penso que Hitler sem as necessidades do capitalismo alemão Hitler não seria nada. O modo como os vencedores trataram a Alemanha ajudou. Por isso mudaram de procedimento depois da segunda guerra com o plano Marshal e etc.
    “decisão de Bush, o filho, de invadir o Iraque, como uma reacção inevitável aos acontecimentos do 11 de Setembro.” Sem o complexo militar e fabrico de armas existente é pouco provável que Bush fizesse o que fez. Os acontecimentos de 11 de Setembro ajudaram.
    Não acredito no determinismo mas acho que só da cabeça de um indivíduo não saem os acontecimentos históricos que presenciamos.
    Suponhamos que o nosso Presidente se tronava psicopata e resolvia invadir Olivença. Os Estado Maior discordava. Mas a ele é que compete declarar guerra e fazer a paz. Seria possível um ataque armado a Olivença só por o Presidente ser louco, psicopata ou, simplesmente, achar que os tratados internacionali são para cumprir. Seria possível? Eu penso que seria possível mas tão improvável que o melhor é proceder como se fosse impossível. Isto é aconselharia o exército espanhol a não gastar dinheiro a reforçar a defesa de Olivença. Se me enganasse…. paciência.

    1. Eu acredito que é uma conjugação dos dois tipos de factores e não de um só: por uma lado há contextos que favorecem o desenrolar de certos eventos (e daí que as explicações causais sejam importantes para reconhecer previamente padrões), mas por outro, é preciso que haja pessoas que naquele momento exacto tenham uma certa disposição psicológica (seja narcísica, autoritária, vingativa ou o que for), para que eles de desencadeiem, de facto.

  5. A sua tese é interessante e está bem argumentada. Lembrei-me logo da argumentação dos sindicatos, sempre que fazem uma greve, que não lhes resta outra alternativa, os verdadeiros responsáveis de eles irem fazer greve são exclusivamente os patrões. Li recentemente, infelizmente não me lembro onde, talvez algum texto do Camus, que o mal começa muitas vezes quando se diz que não existe alternativa. Contudo esta última frase recordou-me a Margaret Thatcher, muito famosa pela sua TINA-There Is No Alternative, em relação a muitas encruzilhadas onde ela só descortinava um caminho. Portanto, também os ocidentais por vezes recorrem a esta argumentação. Resumindo, quando alguém diz que não teve ou não tem alternativa devemos sempre desconfiar dessa argumentação.

    Se tiver tempo e lhe suscitar interesse poderá ver uns tantos posts em que abordo de forma ligeira e diletante o tema do livre-arbítrio: https://imagenscomtexto.blogspot.com/search?q=livre-arb%C3%ADtrio

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