Do meu baú (6)


Pedro Correia,

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É sempre arriscado fazer previsões no jornalismo. E muito mais sobre os destinos da Igreja Católica, que são por natureza insondáveis, tais como os do Pai Eterno. Exemplo? Aqui está ele: veio publicado na primeira página do Expresso e transmitia uma certeza inabalável aos leitores «João Paulo II vai abdicar». Nem uma interrogação, sempre defensiva nestes casos, nem um daqueles verbos auxiliares – como poder ou admitir – que se utilizam para suavizar arestas quando a convicção está longe de ser absoluta. 

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A “notícia” – chamemos-lhe assim – veio estampada na primeira página daquele semanário, a 26 de Março de 1994. E baseava-se numa única “fonte” – chamemos-lhe assim também – identificada como tal: o correspondente no Vaticano da revista católica espanhola Vida Nueva. «O jornalista refere que destacadas figuras do aparelho do Estado da Santa Sé apontam mesmo alguns problemas clínicos com que o Papa se debate, como a falta de irrigação cerebal [sic] e células cancerígenas», escrevia o conceituado periódico. Acrescentando: «De facto, ultimamente João Paulo II tem vindo a perder vivacidade nas aparições públicas, desde que sofreu o atentado a tiro na Praça de S. Pedro, no dia 13 de Maio de 1981, que lhe atingiu o abdómen, e que o obrigou a diversas intervenções clínicas». 

O referido atentado, note-se, ocorrera quase 13 anos antes. E João Paulo II, apostado em contrariar o Expresso, manter-se-ia mais 11 anos sentado no trono de Pedro, terminando o seu pontificado não por renúncia mas por morte natural, a 2 de Abril de 2005. Aliás, depois desta bombástica “revelação” da primeira página, ainda visitou 47 países (incluindo a sua célebre deslocação a Cuba, em 1998, e a não menos badalada viagem a Fátima, em 2000, para a beatificação dos pastorinhos), publicou quatro encíclicas e divulgou oito exortações apostólicas. 

Falta acrescentar que a Santa Sé nem se deu ao incómodo de desmentir o Expresso. A História encarregou-se disso.

18 comentários em “Do meu baú (6)”

  1. a Santa Sé nem se deu ao incómodo de desmentir o Expresso

    A Santa Sé tem lá tempo a perder com as repetidas falsidades que esse jornaleco dá à estampa! Nem eu tenho…

  2. A história encarregar-se-á sempre de demonstrar tudo quanto à ICAR diga respeito. Por todos os infernos em que ela tem mergulhado, vivido e muitos criados para ela e também por ela, a sentença está dada: “as portas do inferno não prevalecerão sobre ela”
    E não prevalecer sobre ela significa tão somente que os cristãos, ecclesia, povo de Deus e povo sacerdotal, isto é, de serviço, mesmo os que viram as costas às diversas confissões religiosas, não ficarão desprotegidos. Haverá sempre um pastor, o Espírito Santo, derramado sobre os que O buscam.
    Estou em crer que quem tem vindo a abdicar desta presença é esse mesmo Espírito, que muitos julgam encontrar numa bola de cristal.

          1. Esse director pouco me interessa, (o jornalismo anda mal e a responsabilidade não é apenas dos executores) tal como a polémica que trouxe o senhor papa a este lugar da blogosfera. Achei-o sempre muito velho e no final lastimei bastante -por ele e por quem o via – as figuras que andava a fazer. É tudo.
            É verdade, escusava ter comentado, o meu ponto de vista teve outro objecto. Sorry.

  3. Trata-se de um título temerário, mas a hipótese não era descabida.
    Sabe-se hoje que em 1989 João Paulo II escreveu uma carta a preparar a possibilidade da sua renúncia. Em 1991 foi-lhe diagnosticada a Parkinson; em 92 tiraram-lhe um tumor; em 93 deu cabo dum ombro numa valente queda.
    Em 1994 aproximava-se a data dos seus 75 anos, idade-limite para os bispos exercerem funções. A especulação nos corredores do Vaticano era intensa. E certamente não é por acaso que datam desse mesmo ano as primeiras declarações sólidas de JPII de que recusava demitir-se.
    Foi preciso esperar pelo seu braço-direito e sucessor para ver a bomba estourar…

  4. 1. A discussão Política sobre o Covid-19 esconde um debate necessário. Esconde a discussão sobre a mudança técnica e ideológica, que está a ocorrer na sociedade e no próprio ser-humano.
    2. Há implicações sociais, políticas e ideológicas que estão a ser subestimadas.
    3. As quais, neste Post de Pedro Correia, se descortinam. Concretamente a contradição (a quase guerra) entre as duas seguintes proclamações (uma vinda da Religião, a outra da Ciência): “A manipulação genética é pecado” (Gianfranco Girotti, Tribunal da Cúria Romana, Santa Sé, Vaticano, 10/3/2008)… “Agora, para o melhor ou o pior, vivemos todos no mundo CRISPR*” (Science, 2015).

    1. 1. Em 2013, uma equipa da Universidade de Pittsburgh fabricou um coração com células estaminais retiradas da pele.
      2. Em 2014, na Universidade de Nova Iorque, foi possível criar Vida a partir de um cromossoma sintético desenhado em computador por uma equipa de 60 biólogos moleculares.
      3. Em 2015 – através da manipulação de proteínas – a equipa do prémio Nobel Erik Kandel21 conseguiu dar a memória da juventude a um rato idoso que a tinha perdido.
      4. Em 2015, no Instituto de Medicina Regenerativa Wake Forest nos EUA, uma bio-impressora 3D conseguiu imprimir estruturas ósseas e musculares que se converteram em tecido vivo funcional com vasos sanguíneos.
      5. Em 2016, na Universidade de Sidney “começaram a experimentar medicamentos que substituem os efeitos fisiológicos do exercício físico no corpo humano”.
      6. Em 2 de junho de 2016, na revista Science, foi apresentado o novo “Projeto Genoma Humano”22 (HGP-Write), promovido por uma equipa de 25 cientistas e empresários, planeado para os próximos dez anos, com um custo estimado em 100 milhões de dólares, com o objectivo, entre outros, de criar órgãos humanos para transplantes e filhos sem pais biológicos.
      7. Em 14 de setembro de 2016, o Departamento de Biologia Regenerativa do Instituto de Genoma de Singapura anunciou, (passo a citar): “Fabricámos uma proteína (a proteína iCAS) que nos permite reescrever o genoma humano, ligar e desligar as sequências conforme desejarmos, e assim controlar o comportamento das células”.
      8. Em 9 de janeiro de 2018 foram publicados os resultados do trabalho realizado na Universidade de Duke, que permitiu criar músculos artificiais através da reprogramação de células estaminais retiradas da pele e do sangue em combinação com a molécula Pax7.
      9. Ou seja… da pele, fizemos um coração. Com uma bio-impressora, fizemos tecido vivo. De proteínas, refizemos a memória. Com a bioquímica, substituímos os efeitos da actividade física feita com as pernas e os braços. Através de um algoritmo re-escrevemos o ADN.
      10. São centenas de resultados e descobertas como estes, que Hoje se sucedem exponencialmente. Que nos dão consciência de um Corpo fabricado que, em breve, substituirá aquele que herdámos.
      ASSIM SENDO, permitam que diga o seguinte: Afinal Descartes tinha razão: O Corpo não é o autor. E o autor também não é o genótipo, porque o gene é apenas uma instrução. Logo, o que constrói a instrução, tem forçosamente de estar a montante do corpo anatómico que designamos por Homo sapiens sapiens, mesmo que ocorra dentro dele.
      Este facto provoca um problema científico e lógico, que nos devia desafiar nesta discussão. Porque tem implicações sociais, políticas e ideológicas que, repito, estão a ser subestimadas.

      1. Pedro, você coloca questões que na realidade merecem ser pensadas. Não existe nenhuma confrontação entre religião e ciência. O que, sim, existe é a tentação dos leigos adeptos da ciência pretenderem transformar esta em religião. Uma grande parte de homens de ciência são religiosos. E aquilo que afirma – “Logo, o que constrói a instrução, tem forçosamente de estar a montante do corpo anatómico que designamos por Homo sapiens sapiens, mesmo que ocorra dentro dele” – começa a ser experienciado e reconhecido no domínio da neurociência e também da neuro-teologia.

        Por outro lado, em teoria tudo é possível no domínio da ciência. Porém o que aborda e exemplifica são simples observações laboratoriais sem consequência na matéria que pretende induzir.
        De forma expressiva traduzo: o que você nos revela é fabricação de um DVD. Mas um dvd só funciona com o reprodutor e gravador. Assim, se me mostrar que a ciência é capaz de fabricar o aparelho, dir-lhe-ei se o disco funciona ou não.

        1. Caro De Vento, permita que diga o seguinte…
          1. “De Vento”… não é um «objeto-Bit», que dá uma ordem ao «objecto-It» (dedo) para teclar? Esse «objeto-Bit» terá massa, como o «objeto-It»? Serão dois «objetos» iguais, ou diferentes?
          2. Esse impasse, entre o Monismo e o Dualismo, é muito antigo na cognição humana (no «modelo pelo qual temos acesso à compreensão do que nos rodeia, e do que somos»). Atualmente, podemos vê-lo tanto na filosofia (na ética, na moral), na matemática (na Lógica), na física, ou nas ditas “neuro-ciências”.
          3. Na Física, no actual “Modelo-padrão”, esse impasse dá-se entre fermiões (massa) e bosões (energia).
          4. Nas ditas “neurociências” (às quais, Erik Kandel prefere chamar “biologia molecular da cognição”) o mesmo impasse dá-se entre BIT (informação, inteligência, consciência, instrução, genótipo) e IT (corpo, matéria, suporte, coisa, fenótipo). Ou, entre IA (codificação, software, programação, computação, perpetrador) e Robot (máquina, efector).
          5. Na religião católica, há um importante texto doutrinário (epístola de S.Paulo aos Coríntios), que vai contra a decisão do Vaticano, de 2008, que referi no Post. Nesse texto, ao invés, apela-se à “transformação do actual corpo, como condição para se alcançar o céu”. Portanto, é um erro do Vaticano (da “Igreja” feita pelos humanos) não da doutrina.
          6. Em todas as religiões, nos seus textos doutrinários e sagrados, há esse apelo (logo, uma instrução e um programa/codificação) a uma transformação para além do que os actuais corpos (IT) são em cada momento da filogenia.
          7. Não estando disponível na Ciência qualquer “teoria de tudo”, ou “modelo da certeza absoluta e final” sobre a Verdade/Certeza, apenas se pode afirmar que qualquer resultado/evidência é uma Probabilidade («a um tempo, com todas as informações disponíveis nesse momento, perante esse contexto concreto, tendo em consideração os limites de quem observa e experimenta, decide-se se sim ou se não»). Na Religião é diferente, temos a certeza que existe Deus, e essa Fé sobrepõe-se a qualquer razão humana. Logo, qualquer “neuro-teologia” será sempre um acto pastoral de dominar a probabilidade pela fé. De tentar abolir essa diferença, em favor da religião.
          8. Mas essa diferença (entre Religião e Ciência) não altera a questão. De, se o IT é um outro corpo diferente do BIT, mesmo que vivam dentro de um mesmo invólucro. Ou seja, e para retomar o seu exemplo, a «ordem» (bit) não é a «fabricação do DVD» (o processo de fabrico). A «ordem» (bit) está a montante desse algoritmo (processo de fabrico). E a materialização da ordem num «aparelho», isso, ainda é mais a jusante e diferente.

          1. Meu caro Pedro, em resposta ao ponto1 de seu comentário, permita trazer à colação a fenomenologia, estudada e interpretada por Edith Stein (Santa Teresa Benedita da Cruz) morta no campo nazista de Auschwitz, com o seguinte exemplo: Se entrarmos numa sala e encontrarmos um piano provavelmente constataremos que ele se transformou em um móvel para se colocar um vaso de biscoitos ou um candelabro e até mesmo fotos. Porém se eu o abrir e começar a tocar você verificará que a minha CONSCIÊNCIA fará com que ele sirva o fim para que foi criado: “Logo, o que constrói a instrução, tem forçosamente de estar a montante do corpo anatómico que designamos por Homo sapiens sapiens, mesmo que ocorra dentro dele”. (cito)
            2. O homem «objecto» do estudo do homem abrange também o «sujeito» homem que empreende o estudo. Este homem não é apenas “eu” ou “nós” , os investigadores. É toda a gente. O estudo do homem implica o estudo do que os homens pensam de si próprios.
            3. A física quântica (que também abrange a filosofia) tem também a faculdade de nos revelar que determinadas coisas são verdadeiras mesmo quando aparentam não ser.
            4. Este ponto serve para clarificar o anteriormente exposto, acrescentando: o homem revela-se a si próprio não apenas no pensar, mas também no fazer. A antropologia narra-nos o que o homem é. A Geschichte descreve-nos o que é o homem, através de suas acções.
            5. 53 “Pois isto que é perecível tem de se revestir do que é imperecível, e isto que é mortal tem de se revestir do que é imortal. 54 Mas, quando isto que é perecível se revestir do que é imperecível, e isto que é mortal se revestir do que é imortal, então se cumprirá a declaração que está escrita: “A morte foi eliminada para sempre.” 55 “Morte, onde está a sua vitória? Morte, onde está o seu aguilhão?” 56 O aguilhão que produz a morte é o pecado, e a força do pecado é a Lei. 57 Mas graças sejam dadas a Deus, pois ele nos dá a vitória por meio do nosso Senhor Jesus Cristo”.
            Transcrevi a 1ª Cor 15, 53-57 para que a reinterprete. Pois não se trata do corpo glorioso, mas despir (morrer) para renascer. O imperecível, que dá vida, habita o perecível (corpo) e nele produz-se (por acções) a eternidade.
            A neuro-teologia não dá respostas sobre a fé. Revela-nos antes, sem explicar e compreender o fenómeno, o que a fé pode produzir.
            6. O instinto, ou intuição, religioso do homem não é histórico. É o desenvolvimento desse instinto que constitui um excelente registo histórico.
            7. respondi no ponto 5.
            8. O aparelho a que me referi é a impossibilidade da construção do homem na forma como é ou como se desejaria. Portanto, a parte não definirá o todo e não produz efeito no todo que já é. Não lhe garante essa eternidade tampouco. Contente-se a ciência com os robots que serão sempre perecíveis.

  5. Estas coisas que saem no Expresso a gente não se pode fiar muito nelas – a maioria dos jornalistas ou são poetas, ou fadistas, ou uns artistas quaisquer. É o tipo de jornalismo moderno e livre. Depois temos é que saber interpretar. Será que o jornalista Pedro Correia interpretou bem esta notícia?…
    A vida, o mundo, os dias são um grande exercício que temos que treinar todos os dias…não é só ler na quarentena!

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