
Barbara Broccoli e Daniel Craig/Foto: The Guardian
A mudança dos tempos implica, quase necessariamente, a mudança das mentalidades. É uma evidência que decorre da evolução das sociedades ao longo da História. São processos morosos e que não acontecem de um dia para o outro. Não se mudam mentalidades por decreto e muito menos por imposição. A questão é que, nos últimos anos, tem-se assistido a uma aceleração incontrolável para a instituição de modelos de pensamento que resultam, em parte, dos excessos da globalização e da (r)evolução das tecnologias de informação /comunicação, com a emergência, por exemplo, do fenómeno das “redes sociais”, onde impera uma espécie de anarquia e que acaba por ditar tendências. São estas tendências, impostas sobretudo por essas novas “massas” digitais, que, de forma imparável e a uma velocidade louca, têm contribuído para uma certa histeria e cegueira no processo de decisão, de forma a ir ao encontro daquelas que passaram a ser as “convenções socialmente aceites”, comummente o chamado “politicamente correcto”, na convivência entre os cidadãos da polis. E o problema é que estes processos (mesmo aqueles que têm fins mais virtuosos) se desenrolam de forma desenfreada e irreflectida, cometendo-se abusos, exageros e, muitas vezes, absurdos monumentais.
A cultura pop, nomeadamente através do cinema e da televisão (leia-se, séries), tem sido quase mimética no eco que faz dessas “exigências” que se fazem ouvir ruidosa e ferozmente nas “redes”. Exigências que, mascaradas com uma pseudo-tolerância e com o mote da defesa da igualdade de direitos, acabam, na verdade, por esconder preconceitos e ideias castradoras, conduzindo ao disparate. Disparates como aquele que, há uns tempos, começaram a circular, sugerindo que uma das personagens masculinas mais icónicas da história do cinema das últimas décadas poderia, na verdade, dar lugar a uma mulher. Felizmente, teve que ser uma mulher a ter a coragem para vir dizer que James Bond continuará a ser um personagem masculino (obviamente) e com as características que lhe são inerentes. Quem o disse foi Barbara Broccoli, a produtora da saga 007 e filha do histórico “Cubby”, que, juntamente com Harry Saltzman, foi quem trouxe o espião dos livros para o cinema.
“Bond is male. He’s a male character. He was written as a male and I think he’ll probably stay as a male. And that’s fine. We don’t have to turn male characters into women. Let’s just create more female characters and make the story fit those female characters.” Com esta frase proferida ao The Guardian há umas semanas, Barbara Broccoli pôs fim a um infeliz devaneio, alimentado não se sabe bem por quem, mas, certamente, por alguém que olha para a causa dos direitos de igualdade com as lentes distorcidas do fanatismo. E Broccoli foi ainda mais longe ao reconhecer que James Bond não é propriamente um ideal feminista e que muitas características não seu ADN nunca mudarão. É uma das produtoras mais poderosas da indústria do cinema, precisamente por deter os direitos de James Bond, e quem tenha acompanhado com atenção a evolução da saga dos filmes 007 nos últimos 20 anos, constata que Broccoli foi uma das primeiras a introduzir alterações relativas ao papel da mulher e à forma como o agente secreto as via, indo ao encontro da tal mudança dos tempos. Mudanças que foram sendo graduais sem desvirtuar a essência de 007. Mas a verdade é que nos dias que correm, onde reina um ambiente de “caças às bruxas”, as palavras de Broccoli pressupõem coragem e determinação contra os extremismos da idiotice, sendo de salutar a sua sensibilidade na defesa de algo que continua a alimentar o imaginário de muitos de nós, homens e mulheres.

…indo ao encontro daquelas que passaram…
…indo ao encontro da tal mudança dos tempos…
Peço desculpa, mas irrita-me isto.
Caro Carlos,
sei a que se refere, mas permita-me que discorde. Neste caso, como está, e no meu entender, está correcto, embora admita que seja uma questão discutível, à semelhança de tantas outras a que a língua portuguesa já nos habituou.
Obrigado,
Alexandre
É preciso ser um bocadinho tosco para não ver a jogada que está por trás disto. Criam uma situação absurda que sabem que não vai pegar, para que outra tão absurda quanto a primeira prevaleça com a sensação de que afinal até houve alguma sensatez (mas esta última era o que eles verdadeiramente queriam): não podem pôr uma gaja, metem um preto.
Quem não conhece esta gente, que compre o peixe estragado que andam a vender. E logo no Guardian, que é o Público lá do sítio.
Tinha lido rumores acerca do novo Bond ser Idris Elba, um actor com carisma para o papel, mas uma Jane Bond passou-me ao lado. O que não me passou despercebida foi a “polémica” sobre os Óscares – com parte dos politicamente correctos a advogarem um aumento das categorias para incluir os novos géneros, e outra parte a advogar menos categorias, para acabar a discriminação.
Se é relativamente fácil acabar com as categorias masculinas e femininas na actuação, e premiar a melhor interpretação do ano, já quanto à inclusividade a bagunça é total, com sugestões que levariam, sei lá, ao Óscar para melhor representação por um transexual hispânico. A multiplicidade de categorias propostas mostra bem a desorientação geral. E se a cerimónia já é longa e chata, como ficaria com mais umas dezenas de categorias?
Só mais um pequeno desabafo em relação às redes sociais. Quem viu nascer a internet decerto se lembra do espirito de comunidade e entreajuda dos primeiros tempos. Prometia ser uma coisa boa. Tornou-se basicamente uma lixeira coberta de publicidade. É triste.
Excelente reflexão, António. Subscrevo por inteiro.
Sem tirar nem pôr, António
Discordo absolutamente da opinião da senhora Barbara Broccoli, e penso até que a dita senhora devia ser lapidada em praça pública por ter a ousadia de publicamente expressar tal opinião tão… homofóbica.
Proponho que (atenção, ó gentes de Hollywood!) se prolongue a saga bondiana pelas décadas vindouras com sucessivos remakes do garboso espião encarnando a diversidade que ora reina na nossa cultura. Teremos, assim, um James Bond:
– Agender;
-Aporagender:
-Genderfluid;
-Genderneutral:
-Gender queer;
-Intergender;
-Nonbinary;
-Polygender;
-Trangender
– E ainda – esta será uma singela homenagem de Hollywood à lusa gastronomia que, juntado o agradável do tributo ao útil do filme de animação educador da petizada – um James Bond tubarão-branco agressivo e misógino que verdadeiramente sempre se sentiu, desde alevim, uma pacífica sardinha “snow flake” (a “transição” ictiológica ocorrerá como clímax do filmezinho).
“- esta será uma singela homenagem de Hollywood à lusa gastronomia, juntando o agradável do tributo ao útil do filme de animação educador da petizada -“
Let’s just create more female characters and make the story fit those female characters.
No mundo do teatro e cinema norte-americanos há um problema, que é que há mais atrizes do que atores, porém a maior parte das histórias a representar requerem mais atores que atrizes. Ou seja, há um excesso de “male characters”. Isso faz com que a carreira de atriz seja bastante mais difícil, por falta de emprego.
Gosto muito dos seus postais e concordo com a maioria das suas opinioes. Com esta tambem. Nao tenho por habito comentar, mas hoje apeteceu-me dizer-lhe o quanto o aprecio. Continuarei a le-lo sempre com prazer. Aqui e/ou no seu blog
Subscrevo esta boa reflexão. Uma chapelada, no bom sentido.
António cabral
Não são idiotices, são tácticas para obter o poder social e político seguindo o cannone Marxista de destruição das referências.
E funcionam.
Isto é um não-assunto e ainda por cima alguns divertem-se a comentar! De facto devemos dizer não ás idiotices, mas alguns não dizem!